domingo, 29 de Novembro de 2009

Candidatura incompleta

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Pegadas de dinossauro de Pego Longo, em Carenque

ESTIVERAM ENTRE NÓS, de 9 a 15 de Novembro, dois avaliadores da União Internacional para a Conservação da Natureza (organização consultiva da UNESCO em matéria de património natural), especialistas em património paleontológico, com a missão oficial de visitar as jazidas nacionais com pegadas de dinossáurios que integram a candidatura “Icnitos de Dinossáurios da Península Ibérica”, apresentada conjuntamente por Portugal e Espanha com vista à sua inclusão na Lista de Património Mundial.

Esta candidatura integra onze jazidas, três em Portugal e oito em Espanha, escolhidas em função da sua importância e representatividade a fim de potenciar a relevância das muitas jazidas existentes na Península Ibérica. Designadamente, as jazidas propostas por Portugal são Pedreira do Galinha, no limite dos concelhos de Ourém e Torres Novas), Vale de Meios, no concelho de Santarém, e Pedra da Mua, no Cabo Espichel, no concelho de Sesimbra.

Os avaliadores foram acompanhados por representantes dos Ministérios do Ambiente, de Portugal, e da Cultura, de Espanha, directores-gerais de Cultura e Património das Comunidades Autónomas espanholas participantes na candidatura, presidentes das Autarquias portuguesas envolvidas geólogos e paleontólogos.

Como resultado desta visita, os avaliadores vão elaborar um relatório técnico com as suas recomendações a fornecer ao Comité de Património Mundial da UNESCO. Será este Comité, que integra 21 Estados, quem finalmente decidirá, na sua próxima sessão de Julho de 2010, em Brasília, acerca da inclusão dos Icnitos de Dinossáurios da Península Ibérica na lista do Património Mundial.

Não tendo sido chamado a integrar a parte portuguesa que participou na preparação desta candidatura, fui surpreendido pela não inclusão da grande jazida de Pego Longo, em Carenque, concelho de Sintra. Esta importante património, classificado como Monumento Natural (Dec. 19/97, de 5 de Maio) e deixado ao mais completo abandono pela instituição que o classificou e a quem incumbe a responsabilidade de zelar pela sua conservação, exibe um trilho de mais de 130 metros de comprimento, atribuído a um corpulento dinossáurio bípede (talvez um ornitópode), e um outro, mais pequeno, deixado por um carnívoro (terópode) de média estatura. Representa a mais moderna das jazidas, pois foi atribuída ao Cretácico superior (Cenomaniano, com 92 a 96 milhões de anos). A jazida de Carenque, cujo projecto de musealização foi aprovado em 2001 pela Câmara Municipal de Sintra, espera e desespera pela respectiva construção. Com bons acessos, este Monumento Natural encontra-se numa região de forte atracção turística, na imediata vizinhança de Lisboa e Sintra. Convém lembrar que a sua preservação forçou a abertura dos dois túneis da CREL que lhe passam por baixo, com um custo de oito milhões de euros, que correm o sério rico de serem desaproveitados.

Não custa admitir que a inclusão da jazida de Carenque (convenientemente limpa como, aliás, as outras o foram) na lista concorrente à referida candidatura, teria sido um grande passo sentido da concretização deste projecto.

(Texto publicado no DN, em 23.11.2009)

domingo, 22 de Novembro de 2009

Caldo de farinha

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A velha chocolateira de esmalte

CALDO DE FARINHA,
assim se chamava uma beberragem que se tomava quente e em substituição do leite, ao fim do serão, antes do deitar, ou pela manhã, a acompanhar torradas com toucinho cozido sobrado do jantar da véspera. Leite nem sempre havia e quem o trazia era o tio Afonso que, ao fim da tarde, de porta em porta, o ia vendendo aos litros, meios litros e metades de meio litro, consoante o número de filhos e as posses de cada um. A higiene em todo o processo, desde o produtor à distribuição ambulante, era a possível nesse tempo e, daí, a necessidade de ferver o leite. Havia, mesmo, uma espécie de grande púcaro de esmalte, chamado fervedor, para levar o leite ao lume e deixá-lo, aí, levantar fervura.

- Já foi por fora! – Gritava a mãe, arreliada, que, tendo saído da cozinha, onde vigiava a dita fervura, ia, a correr, fazer qualquer coisa e, quando voltava, via o leite em espuma a transbordar e a apagar as brasas de carvão da fornalha (o nosso fogão desse tempo), e a encher o ar do odor a leite queimado. Uma experiência que morreu com a pasteurização industrial deste bem, hoje, felizmente, generalizado.

Não era raro juntarem-se, à nossa porta, o leiteiro, com o seu grande caldeirão de lata e as medidas penduradas numa mão, e o Feliciano das “sobras”, que vinha diariamente recolher, porta a porta, os restos de cozinha com que ia engordando um porquito, importante suplemento na sua economia familiar. Nos recipientes, que trazia, destapados, num carrinho de mão, as sobras fediam de azedas e vinham sempre acompanhadas de enxames de moscas que, em menos de um ai, se atiravam aos escorridos de leite nas medidas do tio Afonso e aos pingos que caíssem, ali à porta, nas pedras da calçada. Foi neste quadro e neste tempo que o caldo de farinha fez parte das nossas vidas.

Em água fria, a minha mãe diluía a quantidade necessária de farinha de trigo, da mais fina, isto é, a que fora joeirada na peneira de malha mais apertada. Esta mistura, a fazer de leite, ia ao lume, numa “chocolateira”, aromatizada com uma casquinha de limão e uma colherzinha de banha para dar sustento. Antes do caldo levantar fervura, juntava-lhe o açúcar e ia-se mexendo sempre com uma colher de pau até engrossar na medida do pretendido. Em algumas casas acrescentava-se pó de cacau à farinha, preparando assim o chocolate e, daí, o chamarmos chocolateiras às vulgaríssimas cafeteiras. Uma variante muito perfumada deste caldo era preparada com a farinha levemente torrada, o que era conseguido ao lume sobre um tabuleiro de lata, mexendo sempre com a colher para que ficasse uniformemente alourada.

domingo, 15 de Novembro de 2009

Os Meritíssimos

O MEU PRECONCEITO face aos magistrados judiciais, talvez mais emocional do que racional, vem de longe. Nos últimos anos, a comunicação social, livre que está do lápis azul da censura, desde 1974, tem relatado casos e situações que, longe de melhorarem a imagem que, subconscientemente fui construindo em relação a estes detentores de um poder constitucionalmente estabelecido, a têm vindo, pelo contrário, a acentuar, ou até mesmo, a piorar. Esta imagem que bem ou mal interiorizei destes meritíssimos, tenho-a revisto, ultimamente, no discurso desassombrado do actual bastonário da Ordem dos Advogados. Conheço alguns juízes, dois deles do topo da hierarquia judicial, por quem tenho todo o respeito e a maior consideração. Eles representam o oposto do retrato estereotipado que muitos, como eu, têm da classe, o que, certamente, torna injusta toda e qualquer generalização.

Duas situações vividas concorreram para a dita imagem que tenho destes profissionais, uma em Lisboa, na Boa Hora, e outra em Sintra, numa antiga dependência da comarca local.

Na Boa Hora, há uma vintena de anos, fui testemunha de abonação de um adolescente meu vizinho que, impensada e abusivamente, se meteu ao volante do automóvel de um outro vizinho, numa curta ausência deste, no estrangeiro. A conduzir sem carta nem os restantes documentos, foi interceptado pela polícia e, consequentemente, levado às mãos da justiça. O julgamento teve lugar no gabinete do magistrado e, além deste, sentado à secretária, e do dito adolescente, na situação de réu, estávamos ali, de pé, eu, um caixeiro de drogaria e um empregado de mesa, também eles como testemunhas a abonarem das boas qualidades do rapaz. Visivelmente pouco motivado pelo caso, que podemos aceitar como insignificante, o juiz denunciava uma postura de quem está interessado em o despachar. Depois de ouvir aqueles meus dois companheiros, o magistrado, sempre a tratá-los por você, dirigiu-se-me, começando pelo mesmo você, tratamento que rapidamente mudou para um quase cerimonioso senhor professor, a partir do momento em que se deu conta da minha condição na Universidade. O resto desta audiência não teve história, terminando, como era de prever, com uma adequada admoestação ao rapaz e uma leve pena suspensa por uns tempos. Além do desagradável você, vindo da boca de quem vinha, chocou-me, sobretudo, aquele remendo sem jeito tentado com a radical mudança de tratamento.

A outra situação teve lugar escassos anos antes da entrada ao serviço do novo tribunal de Sintra, um monstro arquitectónico que ofende a paisagem e desmerece, não só quem o concebeu, mas, acima de tudo, quem autorizou a sua construção naquele local. Nas velhas instalações daquela comarca, um vulgar prédio de habitação, sem quaisquer condições, tendo por espaços de espera os corredores e as escadas estreitas e mal iluminadas, dirimia-se um diferendo entre a Federação Portuguesa das Associações e Sociedades Científicas (FEPASC) e a empresa gráfica que editava o periódico desta nossa ONG. À espera da audiência, estávamos o presidente da citada Federação, eu, como vice-presidente, o nosso patrono, dois representantes da parte contrária e o respectivo advogado. Após a chamada, pelo funcionário de serviço, entrámos numa sala pequena, na qual o meritíssimo, sentado à secretária, sem levantar os olhos dos papéis à sua frente, aguardou que nos distribuíssemos no espaço à sua volta. Sem uma palavra de acolhimento, sem olhar para nós, mantendo-nos de pé, não obstante haver cadeiras para todos os seis, este representante da Justiça, no Estado democrático que já éramos, ouviu, então, o que os representantes das partes tinham para dizer, perguntou o que achou por bem perguntar e, por fim, convidou-os a encontrar o acordo que acabou por ser estabelecido.
Terminada a audiência, sem um cumprimento ou uma simples palavra, foi frente a um homem seco, frio e distante, de novo mergulhado na leitura dos ditos papéis, que fomos saindo, respeitosamente calados, um a um.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Do lume de chão ao forno de microondas

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É CORRENTE OUVIRMOS EXPRESSÕES nas quais se alude a uma vincada preferência pelos grelhados no carvão ou pelo pão cozido no forno de lenha. Havendo algo de verdadeiro nestas vozes, há nelas, sobretudo, a nostalgia pelo tempo em que fomos filhos e netos. Quem me conhece sabe do meu interesse pela culinária, interesse que não se esgota nas confecções, mas que se alarga a tudo o que as suporta, nomeadamente, os produtos alimentares, os utensílios e as histórias relativas a esta velhíssima actividade da espécie humana.

Do lume de chão da cozinha da minha avó materna, tal como a conheci nos anos trinta do século passado, ao forno de microondas, vai uma distância tão grande quanto o tempo que entretanto decorreu, em que, de menino passei a avô, reformado e utente dos transportes públicos com passe de terceira idade.
Esta cozinha, onde brinquei e briguei boa parte da minha infância com o meu irmão Mário, dois anos mais velho do que eu, situava-se na Rua de Frei Brás, três prédios abaixo da casa dos nossos pais, alargando-nos o espaço e as experiências. De porta sempre aberta durante o dia, como única fonte de luz, permitia-nos alterná-la com a rua ao sabor das nossas brincadeiras.

Além de ser aquilo que lhe dava o nome, era sala de tudo, de entrada, de jantar, de estar e, até, de dormir, se fosse o caso de algum parente, chegado de fora, ali ter de pernoitar. Era só pôr-lhe uma enxerga no chão e dar-lhe uma ou duas mantas. Num canto desta divisão multiusos havia o poço com água fresca, nunca analisada mas que nunca causou problemas. A contaminação dos aquíferos era um tema que ainda não preocupava ninguém.
O meu irmão Mário, o Marecas, como todos o tratavam, era o neto preferido da avó. Era o que passava mais tempo com ela, comendo e dormindo ali mais vezes do que qualquer um de nós, os irmãos. De vez em quando também eu lá almoçava ou jantava. Umas vezes eram sopas da panela com linguiça, toucinho do alto e carne da salgadeira, aromatizadas com raminhos de hortelã, outras vezes era açorda de bacalhau e outras, ainda, eram migas com carne entremeada, temperada de alho e pimentão, frita em banha. Ocasionalmente, havia sardinhas albardadas fritas em azeite. A meio da manhã ou da tarde, sempre que nos dava a fome, a avó dava-nos pão barrado com marmelada ou, à falta desta, com banha e açúcar.


Num tempo em que o frigorífico estava longe de ser o indispensável electrodoméstico dos dias de hoje, o cação e as sardinhas de barrica (em camadas com sal grosso de permeio) eram, praticamente, os peixes de maior consumo nas terras do interior. O bacalhau era ainda o “fiel amigo” e a carne fresca, um luxo. Num dia de festa, a avó matava uma galinha, outras vezes, um coelho. Por doença de alguém da casa, era a vez de um franganito.

Nos meses mais frios a avó acendia o lume de chão ao fundo da grande chaminé, tão grande que cabíamos todos lá dentro, ao borralho, sentados em mochos e cadeirinhas baixas. Tão grande que lá dentro cabia ainda uma mesinha onde duas pessoas podiam tomar uma refeição. O mesmo homem que, com uma carrocita e uma mula, fornecia os feixes de lenha ao padeiro da vizinhança, levava-lhe a lenha grossa e miúda que ela ia queimando com parcimónia, à medida das suas necessidades e das suas posses. Manhãzinha cedo, acendia o lume com a matula, nome que se dava a um trapinho sobrado da costura, embebido em azeite de fritar e, como tal, posto de parte para esse fim. Deixada a arder entre os gravetos, a matula transmitia o fogo às cavacas mais graúdas e estas, por seu turno, ao lenho maior, encostado à “boneca”, ao fundo da chaminé. Aí aconchegava uma cafeteira (também dita chocolateira) de barro, onde fazia o café (de cevada torrada e moída) para ela.
Para nós, à falta de leite, a avó fazia caldo de farinha, uma beberragem feita de água, farinha e açúcar, aromatizada com uma casquinha de limão e “ enriquecida” com uma colherzinha de banha “para dar sustento”. Vivia-se um tempo em que se valorizavam os alimentos mais gordos. Basta lembrar a frase corrente, “gordura é formosura”, para nos darmos conta dessa realidade. Neste mesmo lume de chão, ferventava, horas a fio, o cozido numa panela de barro e se aquecia a água para encher a botija que, à noite, se levava para a cama.
Um outro modo de fazer lume era o que usava o fogareiro de barro ou de ferro fundido. Os de barro eram baratos mas duravam pouco, ou porque estalavam com o calor, ou porque, num descuido, se partiam. Os de ferro resistiam a tudo, duravam uma vida mas eram mais caros. O fogareiro da avó era dos baratos No Inverno usava-o em complemento do lume de chão, alimentando-o com brasas que ia tirando dali. Nos meses em que não se servia da lareira, acendia-o, pegando-lhe fogo com a matula colocada entre os carvões, a que se seguia o avivar a chama com o abanico. À medida que este combustível doméstico da minha infância, ia perdendo calor, iam-se colocando novos carvões, a fim de manter o nível da temperatura necessário à confecção.


Nesse tempo a rede de distribuição de electricidade, em Évora, era rudimentar, assegurada por uma pequena central térmica, do lado de fora da muralha da cidade. Nem todas as residências beneficiavam desse conforto e a casa da avó pertencia a este conjunto. Ao fim do dia, acendia o candeeiro de petróleo, que pousava sobre a mesa, dando à casa a luz suficiente para o que nela se fazia àquela hora e nela se andar sem encalhar no que por ali estivesse. Trabalho necessitando de boa luz, como era a costura, fazia-se de dia, muitas vezes na rua, à sombra, se fosse Verão, ao sol, se o houvesse, em dias de Inverno. À hora de deitar, acendia uma vela, apagava o candeeiro e subia ao piso de cima, onde era o quarto de dormir.

A casa dos meus pais já tinha luz eléctrica e, embora tivéssemos uma grande chaminé na cozinha, não se fazia lume de chão. Tínhamos, sim, uma bancada de alvenaria com duas fornalhas a carvão. Eram os novos tempos e o progresso. Para a minha mãe, com mãos feitas ao dedal e às agulhas, e para o meu pai, escriturário, tinha de haver uma forma mais fina de usar o lume, mais consentânea com o seu dia-a-dia. Era assim que se pensava, e estas preocupações faziam a diferença entre os diversos protagonistas. Cozer um bolo ou assar uma perna de borrego, o que era uma necessidade em certas quadras festivas, obrigava-nos a recorrer ao forno do padeiro ou de alguém conhecido que o tivesse em casa. Um belo dia o meu pai comprou um fogão a lenha, todo em ferro, com uma caldeira em cobre e uma torneira em latão. Esta bela peça da serralharia de então só era acesa na ditas ocasiões. O resto do tempo não passava de um vistoso elemento decorativo, a meio da chaminé e a embelezar a cozinha. Um tostão era a recompensa que um dos filhos arrecadava pelo trabalho de lhe lixar, com lixa da mais fina, as partes de ferro a pedirem esse polimento (o aço inoxidável ainda estava por aparecer) e fazer brilhar, com solarina, o cobre da caldeira e o latão da pequena torneira.

Como hoje, o progresso não parava de avançar e eis que chega a nossa casa o então moderníssimo fogareiro a petróleo, da Casa Hipólito.

Acabavam-se o moroso acender do lume com a matula embebida em azeite, as mãos sujas do carvão, o estar sempre a avivar o lume, uma tarefa da mãe, e o ter de o ir buscar à carvoaria, uma tarefa dos filhos que muitas vezes me coube. Um litro de petróleo rendia mais do que dois ou três quilos de carvão. Nos anos cinquenta eram ainda muitas as famílias que continuavam a usar este popularíssimo, elegante e eficaz utensílio - a “máquina”, como lhe ouvi chamar em Lisboa, no início dos anos 50 do século que passou - tornado obsoleto com a vulgarização do gás, quer o canalizado, distribuído ao domicílio, quer o engarrafado. Esta tecnologia de liquefazer o gás e engarrafá-lo sob pressão permitiu às famílias do campo fruir de um bem que estava reservado às das grandes cidades.

Mais ou menos paralelamente, a expansão dos fogareiros e fogões eléctricos, acompanhou a electrificação de, praticamente, todo o país, um progresso tecnológico que tem vindo a permitir a vulgarização dessa outra inovação que é o forno de microondas, electrodoméstico indispensável no ritmo vertiginoso das metrópoles, em perfeita conjugação com os congelados, os enlatados, os fast food e os take away dos dia de hoje.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Novos e velhos

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UM OCEANO NASCE a partir de uma situação embrionária, surgida em terra, que podemos imaginar semelhante à que caracteriza o Vale do Rifte, no leste africano. Esforços distensivos tendem a afundar este tipo de faixas de terreno permitindo, no futuro, a invasão do mar. A continuação desses esforços afastam entre si os compartimentos de litosfera de um e de outro lado desta importante fractura, possibilitando a ascensão de materiais de natureza basáltica oriundos do manto e consequente formação de crosta oceânica. Na fase juvenil, o oceano tem uma configuração próxima da do Mar Vermelho, estreito e alongado, continuando a alargar-se até atingir, na maturidade, a dimensão do Atlântico ou até maior. Na continuidade desta evolução, o oceano entra em declínio, na medida em que a respectiva placa vai sendo consumida, por subducção, nas chamadas zonas de Benioff, de que é exemplo a que margina, a Ocidente, a América do Sul. Esta redução da largura de um oceano é acompanhada da aproximação dos continentes que, de um lado e outro, o limitam. É o que está a acontecer no Pacífico e, num estado muito mais avançado, no Mediterrâneo visto como residual do antigo oceano a que foi dado o nome de Tethys, a deusa do mar na mitologia grega. Finalmente, o oceano fecha-se quando os continentes em aproximação colidem, uma situação exemplificada pelos Himalaias.

A origem e evolução de uma cadeia orogénica são hoje perfeitamente explicadas à luz da tectónica global. A fase inicial, ou seja, a abertura da bacia oceânica está relacionada com esforços distensivos, afectando extensas regiões. Esta fase é acompanhada pela acumulação de sedimentos nos vários sectores da bacia, mais volumosa nas margens. A fase de enrugamento ou orogénica, que se lhe sucede muitas dezenas de milhões de anos depois, está, pelo contrário, relacionada com esforços compressivos, à mesma escala. O interior das placas é, comparativamente, estável. Esta estabilidade, em termos de geodinâmica interna, só é perturbada pelo incessante trabalho dos agentes externos, nomeadamente, a erosão, que tende a nivelar os relevos criados em fases orogénicas antigas e recentes ou os resultantes de subidas dos continentes, por reajustamentos isostáticos, de velhas cadeias arrasadas.

O geodinamismo subjacente à tectónica global, assegurado pelo calor interno do planeta, é a causa e o suporte das principais transformações da litosfera, particularmente expressas nas fronteiras de placas, em especial, nos riftes e nas zonas de subducção. Os limites divergentes coincidem com os riftes. Há, aí, magmatismo primário, gerador de um tipo particular de basaltos, por ascensão de magmas oriundos do manto. O estilo tectónico é distensivo, com abertura de falhas normais (falhas segundo planos inclinados, em que os dois compartimentos se afastam entre si e em que um deles desce, “escorregando”, relativamente ao outro) e formação de depressões alongadas e estreitas, que os definem. Em associação com este tipo de limites, a actividade sísmica é frequente e pouco profunda.

Nos limites convergentes, o mergulho das placas origina importante actividade sísmica, às vezes muito profunda, atingindo os 700Km. No mergulho, os materiais arrastados em profundidade sofrem compressão e aquecimento, acabando por fundir. Desta fusão pode resultar um vulcanismo mais viscoso, diferente do que gera o dos basaltos oceânicos, dando origem a uma actividade geralmente explosiva com abundante projecção de cinzas e de outros piroclastos.

domingo, 25 de Outubro de 2009

“Você” na TV

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TALVEZ, PARA ALGUNS, eu esteja antiquado, o que não admira tendo em conta que percorri o século XX, desde o começo dos anos trinta, e já levo de vencida a primeira década do XXI. Quarenta anos de intenso e muito próximo convívio com gente nova, na Universidade, entre dez e doze mil alunos, arrastaram-me com eles nos caminhos da modernidade, pelo que me conforta acreditar que guardei alguma juventude no que diz respeito ao modo de pensar e agir. Devo acrescentar que meio século de vivência na capital não apagaram as minhas raízes alentejanas.

Não trato por você nem as pessoas mais velhas do que eu nem aquelas que não conheço, tenham elas a idade e a condição sociocultural que tiverem. Foi esta educação que eu e muitos portugueses da minha geração recebemos em casa e na sociedade que nos viu crescer.

Talvez por isso não aprecio, em muitos casos, ser tratado por você. Aceito, se quem assim se me dirige é alguém que me é próximo, da minha idade ou mais velho do que eu. Tolero, se esse alguém é pessoa pouco letrada, simples, humilde, para quem essa forma de tratamento é, por assim dizer, cultural. Já o tenho escrito, não gosto e reajo mal se o “você” me for dirigido por pessoa de elevado estatuto socioprofissional como são, entre muitos outros, os médicos nos Centros de Saúde e nos Hospitais. Nessas instituições a que o cidadão acorre em situação de debilidade, não só física mas também e sempre psicológica, esse “você”, frio e distante, saído da boca do clínico, tantas vezes um jovem face ao doente, constitui um abuso desnecessário e feio, denunciador de um distanciamento imposto por quem o diz e humilhante para quem o ouve. Pode ser muito bonito e, até, carinhoso o “você” num diálogo entre brasileiros, mas … nós estamos em Portugal.

É por isso que me parece que as televisões deveriam ensinar os seus jovens repórteres de exteriores a eliminar o “você” nos diálogos em directo que estabelecem com os entrevistados, em especial se estes são cidadãos de condição mais simples ou, como alguns dizem, gente do povo. Isto não acontece com os jornalistas que dão a cara nos noticiários. Isto não acontece porque as boas maneiras próprias desta comunidade, entre muitíssimas outras, são coincidentes com as que defendo. Assim sendo, pergunto-me, de que é que estão à espera os responsáveis destas poderosas instituições de comunicação social para ensinar essas mesmas boas maneiras a esses seus rapazes e raparigas que nos permitem presenciar, na hora, o que quer que vai acontecendo neste nosso Portugal onde a boa educação e o civismo se estão a perder na razão inversa do desenvolvimento tecnológico.

domingo, 18 de Outubro de 2009

"Descida aos Infernos"

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SEMPRE QUE UMA ROCHA da superfície terrestre, em equilíbrio com as condições ambientais (temperatura, pressão atmosférica relativamente baixas), se afunda na crosta, como se descesse aos infernos, os seus minerais ficam instáveis face aos consequentes aumentos da pressão e da temperatura, dando origem a outros, compatíveis com os novos ambientes. Neste processo, a rocha em causa, seja ela de que tipo for, sofre uma transformação a que os geólogos chamam metamorfismo (do grego meta, transformação, e morphe, forma) e passa a ser considerada como rocha metamórfica. Porém, se essa descida atingir zonas onde a temperatura ultrapasse os 800º C, condição que determina a fusão, ainda que parcial, da rocha, entra-se no domínio do magmatismo.

Por definição, o metamorfismo implica que as transformações tenham lugar no estado sólido, representando um dos estádios do ciclo geoquímico da litosfera. É, ainda, o processo geológico com maior expressão na crosta continental. Trata-se, neste caso, de um processo que afecta não um local mas uma região mais ou menos vasta e, assim, referido por metamorfismo regional. Intimamente relacionado com o enrugamento das cadeias de montanhas (orogénese), tem como factores principais: o calor interno, em aumento com a profundidade; a pressão própria do interior da crosta, ou pressão litostática, também ela crescendo com a profundidade (por exemplo, a 35km de profundidade, a pressão litostática atinge as 10 000 atmosferas) e a pressão orientada, própria das faixas orogénicas, onde dominam os esforços tangenciais compressivos característicos das fronteiras de placas em aproximação. A estes dois tipos de pressão associam-se outros, não menos importantes, devidos à presença de água, dióxido de carbono e outros fluidos circulantes. O metamorfismo regional é, pois, tanto mais intenso quanto maior for a profundidade a que se processe. Fala-se, assim, de graus de metamorfismo. Por exemplo, o xisto representa um grau muito baixo, actuante sobre uma rocha argilosa; o gnaisse, pelo contrário, testemunha um grau muito elevado, sobre aquela mesma rocha.

Para além das transformações de alguns dos minerais das rochas afectadas, o metamorfismo determina modificações nas respectivas texturas. As rochas laminadas, as xistentas ou as fibrosas testemunham as pressões orientadas a que estiveram sujeitas. Trata-se de um processo extremamente lento, à escala geológica, com durações na ordem das dezenas de milhões de anos. Em acção no seio dos grandes orógenos actuais e activos, como os Alpes, os Andes ou as Montanhas Rochosas, os seus efeitos estão ainda, na maior parte, ocultos no coração das respectivas montanhas. Pelo contrário, nas cadeias montanhosas do passado, em especial nas mais antigas, a erosão, actuante ao longo de centenas de milhões de anos, acabou por arrasá-las, pondo a descoberto as suas entranhas de rochas metamórficas de vários tipos, bem como de granitos e outras rochas magmáticas, testemunhando a existência de magmatismo.

Muito comum e bem conhecido da generalidade das populações do interior norte e sul, o xisto representa um estádio, ainda muito incipiente, de metamorfismo de uma rocha sedimentar essencialmente argilosa (a profundidade relativamente pequena, 5 a 10km). A ardósia ou lousa, que a minha geração e a dos os nossos pais e avós usaram para escrever as primeiras letras, representa um estádio ligeiramente mais acentuado de aumento de pressão e temperatura.

Estádios progressivamente mais avançados desta mesma sequência ocorridos a maior profundidade geram, no mesmo sentido, xistos luzentes, micaxistos e gnaisses (30 a 35km de profundidade). Se a temperatura continuar a aumentar, estas rochas fundem total ou parcialmente, dando origem a granitos.

No metamorfismo regional, toda e qualquer rocha é transformada ou reciclada. Por seu turno, o calcário dá origem ao mármore. Neste caso, o calcário perde os vestígios dos fósseis que habitualmente encerra e sofre recristalização total, aspectos bem visíveis a olho nu.

Podemos dizer, em resumo, que uma mesma rocha, qualquer que ela seja, sujeita a metamorfismo, pode dar origem a diferentes tipos de rochas metamórficas, tudo dependendo da sua natureza, do campo de tensões regional e da profundidade a que mergulhou no interior da crosta.

domingo, 11 de Outubro de 2009

Filhas da Terra e do Sol

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“FILHAS DA TERRA E DO SOL” é uma expressão de estilo que usei, em sentido figurado, para dizer que as rochas sedimentares são fruto de um conjunto de processos geológicos gerados na Terra fecundada pela energia radiante do Sol. Estimada em cerca de 2,4x10^21 quilocalorias por ano, só pouco mais de metade dessa energia é absorvida pela atmosfera e pela superfície da Terra, alimentando o seu dinamismo externo. A outra parte perde-se, reflectida para o espaço exterior.

A zonalidade climática do globo, o aquecimento diferencial da atmosfera e a circulação das massas de ar (vento), a evaporação da água dos oceanos, água que os ventos transportam sobre as terras emersas, provocando erosão, e a fotossíntese realizada pelas plantas constituem alguns exemplos da importância do Sol nos processos decorrentes à superfície do planeta. Todos eles intervêm, directa ou indirectamente, na formação das rochas sedimentares.

Do conjunto de processos envolvidos na formação destas rochas fazem parte a alteração meteórica (meteorização) e desagregação das rochas aflorantes, a erosão e o transporte dos materiais alterados, nomeadamente, produtos químicos dissolvidos nas águas e detritos de dimensões variadas, entre muito finos (argilas), finos (areias), médios (cascalho, seixos) e grosseiros (blocos). Logo que estes materiais atinjam um ambiente favorável à sua deposição por gravidade tem lugar a sedimentação. Para além das componentes química e detrítica citadas, muitas rochas sedimentares apresentam uma outra, de natureza biológica, que tanto pode ser o constituinte predominante (um calcário feito de conchas de moluscos, por exemplo), como pode limitar-se a uma representação menor, ou mesmo, vestigial.

Expostas ao ar (com oxigénio e dióxido de carbono), à chuva e às diferenças de temperatura, as rochas aflorantes à superfície da Terra sofrem meteorização, isto porque alguns dos seus minerais se alteram quimicamente, permitindo a sua desagregação. O granito e outras rochas afins transformam-se num material “apodrecido”, um saibro areento e barrento, que se esboroa sob a pressão dos dedos. A parte areenta é constituída, sobretudo, pelos grãos de quartzo (que não se altera) e de feldspato mais ou menos alterado. A parte barrenta é, essencialmente, formada por minerais de argila resultantes da alteração química do feldspato. É esta componente argilosa que faz a lama dos caminhos em dias de chuva ou a poeira dos mesmos em tempo seco. A mica preta, que tem ferro na sua composição, quando exposta ao ar e em presença da humidade, gera óxidos de ferro hidratados, que tingem a rocha de tons acastanhados e castanho-amarelados.

Cumprida a alteração e a desagregação das rochas, tem lugar a erosão e o transporte dos materiais desagregados, processos nos quais intervêm, simultaneamente, vários agentes. Quem não viu o levantar do chão de poeiras e até de areias sopradas pelo vento? Isso é erosão e transporte. Do mesmo modo, os barrancos abertos no solo, em tempo de enxurradas, resultam de um processo erosivo atribuível às águas pluviais e de escorrência. A água turva de rios e ribeiros mostra que estão a transportar, em suspensão, partículas muito finas (argilas, limo e areias finas). Ao incidir obliquamente sobre um litoral arenoso, a ondulação (vaga) cria correntes que promovem a deriva das areias ao longo da costa. Nas regiões árcticas e em alta montanha, os glaciares, enormes línguas de gelo descendo os vales, arrancam e transportam grandes quantidades de detritos de todas as dimensões designados, no conjunto, por moreias.

Na sequência da meteorização, partes importantes do sódio, do potássio, do cálcio e do magnésio, entre outros elementos comuns nos minerais das rochas, são solubilizadas pelas águas de infiltração, águas que passam aos aquíferos, depois aos rios e que, por fim, atingem os lagos ou o mar, aumentando-lhes constantemente a salinidade. Estes sais em solução na água, ou precipitam directamente, sempre que as condições o permitirem (evaporação, por exemplo), gerando rochas sedimentares salinas como o sal-gema (cloreto de sódio) e o gesso (sulfato de cálcio hidratado), ou são consumidos por organismos vivos na produção dos respectivos esqueletos. Destes esqueletos uns são de natureza calcária (carbonato de cálcio, nas conchas dos moluscos, ouriços-do-mar, corais, etc.), outros de natureza siliciosa (sílica, em microrganismos como diatomáceas e radiolários). Geram-se, assim, a grande maioria dos calcários e das rochas siliciosas (silicitos), como o diatomito e o sílex.

Qualquer processo de erosão e transporte, seja ele eólico, fluvial, marinho ou glaciário, radica na energia solar e termina com a deposição por gravidade (sedimentação) dos materiais transportados, por perda de competência do agente, um aspecto que se relaciona com características deste (velocidade, densidade, viscosidade) e da topografia (declive).

Mas o mundo das rochas sedimentares é muito mais vasto e variado. Para além das rochas detríticas (argilas, argilitos e xistos argilosos, areias e arenitos, cascalho e conglomerados), dos calcários e dos silicitos, há outras mais, exemplificadas pelos fosforitos, ricos em fosfato de cálcio, pelos ferrólitos, resultantes da deposição de óxidos e outros minerais com ferro, e pelos carvões fósseis.

A grande maioria das rochas sedimentares resulta da compactação, cimentação e, muitas vezes, da recristalização dos respectivos sedimentos, inicialmente incoesos, isto é, soltos e mobilizáveis, como são as argilas, as areias, os seixos, os fragmentos de concha, etc. Este conjunto de processos realizados à superfície do globo, ou próximo dela, e actuantes sobre os sedimentos, determina a petrificação ou diagénese, isto é, a transformação dos sedimentos em pedra, no sentido habitual que damos à palavra, como algo coeso e duro.

A génese das rochas sedimentares (sedimentogénese), não é demais repetir, é um dos grandes processos geológicos assegurados pela energia radiante recebida do Sol, a par de outros, com destaque para a circulação atmosférica, a erosão do relevo (morfogénese), a formação e evolução dos solos (pedogénese) e a génese e manutenção da Vida (biogénese).
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Texto retirado do livro do autor, “COMO BOLA COLORIDA – A Terra, Património da Humanidade”, Âncora Editora, Lisboa, 2007.

domingo, 4 de Outubro de 2009

A Mãe

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NAQUELE TEMPO e naquela família de pai, mãe e seis filhos, as enfermidades habituais entre a primeira infância e o começo da adolescência, repetiam-se vezes sem conta e iam sendo, habitualmente, ultrapassadas com remédios caseiros (mezinhas) e outros a conselho do farmacêutico e manipulados por ele. Só uma vez por outra se chamava o médico e isso acontecia se, ao fim de três dias, a febre não baixasse. Os cuidados da mãe como enfermeira a tempo inteiro, fosse de noite, fosse de dia, e muitas rezas e lamparinas acesas a Nossa Senhora e ao Sagrado Coração de Jesus resolviam os casos mais frequentes e também os mais simples. Situações fora do comum e graves também as houve, mas essas, por sorte, surgiram num tempo com maiores recursos médicos e farmacêuticos. De todas a mais dolorosa e prolongada foi a que atingiu a filha mais velha, por volta de 1943, teria ela os seus dezasseis ou dezassete anos, numa época em que ninguém sabia se a guerra que devastava a Europa, iria alastrar até nós. Tosse, grande fastio, perda de peso e um estado febril permanente foram o pré-aviso daquilo em que ninguém queria acreditar. E o aviso chegou, inesperado e assustador, no dia em que a menina tingiu de sangue o lenço que levara à boca em mais um acesso de tosse. Tuberculose pulmonar, ou tísica, como ainda se dizia, foi o cru diagnóstico que o Dr. Fonseca transmitiu ao pai. Ao pai e não à mãe porque, na nossa cultura e nesse tempo, os assuntos graves eram coisa de homens, e a tuberculose, nesses anos, era, quase certo, sentença de morte. Às mulheres competia chorar, tratar dos doentes e rezar.

O estado da enferma ia-se agravando e os tratamentos, incluindo os pneumotóraxes que ia fazer a Lisboa, não respondiam como todos desejavam. O espectro da terrível doença a todos atemorizava, e o perigo de contágio aos cinco irmãos era mais uma preocupação para os pais. Havia os sanatórios e as alas de alguns hospitais, de onde muito poucos saíam curados. A mãe não consentiu nessa separação.

- Se a menina morrer, - dizia, entre lágrimas - morre aqui em casa, onde nada lhe vai faltar.

Reorganizou o espaço, com um quarto só para aquela filha, onde, para além do médico e da enfermeira, só ela entrava para tudo o que fosse preciso e era sempre muito. Lavá-la e mudar-lhe a roupa (que era escaldada com água a ferver e só depois lavada em alguidares à parte), fazê-la ingerir as refeições, vencendo um natural grande fastio (também a loiça desta filha era escaldada e lavada à parte), dar-lhe os medicamentos, vigiá-la durante a noite e fazer-lhe companhia nos escassos momentos que tinha de algum vagar. Os outros filhos só estavam autorizados a assomar à porta do quarto, para dizer adeus à irmã, cá de longe, mas tinham de pôr um lenço humedecido com álcool a tapar a boca e o nariz.

Foi, então que, por milagre, no dizer da mãe, e em resposta às suas preces, surgiram no mercado dois medicamentos que inverteram uma situação galopante, com hemoptises frequentes, transformando-a numa caminhada lenta mas decisiva para a cura. Um belo dia, o médico informou o pai do promissor tratamento com a recém-descoberta estreptomicina injectável, a par da toma, por via oral, do novíssimo e igualmente esperançoso ácido paraminossalissílico. O antibiótico era um pó branco contido em frasquinhos de vidro com um tampinha de borracha inviolável, onde a enfermeira injectava soro fisiológico, retirando depois metade do soluto para a injecção diária da manhã, deixando a outra metade para a que vinha ministrar ao fim da tarde. Cem escudos era o custo de cada um destes frasquinhos. Era muito mais do que o salário de um dia de trabalho do pai. Cada embalagem do outro fármaco, que vinha directamente da Suiça, custava seiscentos escudos e tinha comprimidos para um mês. Neste quadro só os ricos se tratavam ou os que conseguissem crédito. Este tratamento ia-se prolongando, mês após mês, e a dívida deste homem ao banco ia aumentando, nunca lhe faltando, porém, quem lhe avalizasse os empréstimos.

Ao fim de mais de um ano, o Mycobacterium tuberculosis, o vulgar bacilo de Kock, foi vencido. As muitas análises feitas nos tempos que se seguiram, vinham todas negativas e isso bastava como prémio da grande vitória conseguida. Sem menosprezar o papel dos medicamentos, a mãe não se cansava de lembrar a providencial intervenção de Nossa Senhora e de Seu Divino Filho que, no dizer dela e na sua fé, nunca a abandonaram.

domingo, 27 de Setembro de 2009

Entre trapos, linhas e botões

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JÁ O CONTEI NOUTROS escritos, entrei tarde e mal preparado para a escola oficial. A aprendizagem das 1ª e 2ª classes fi-la em casa, com a minha mãe, nas muitas horas que ela dedicava à costura, recitando a tabuada e juntando as letras na Cartilha Maternal de João de Deus.

Nesse tempo, quase tudo o que vestíamos, pais e filhos, era feito em casa, das cuecas às camisas, dos vestidos aos fatos, das roupas de cama e de mesa às cortinas e cortinados, tudo ela fazia de novo, passajava, remendava e adaptava dos mais crescidos para os mais novos. Solteira, havia aprendido costura e trabalhara, sobretudo, para alfaiates, em fatos de homem. De agulha na mão ou a pedalar na máquina Singer, era trabalho que fazia por necessidade e, também, por gosto. Mais do que cozinhar para uma família, nesse tempo, com cinco filhos, sendo eu o mais novo, a mãe gostava de costurar.

Um fato que o pai deixasse de vestir era desmanchado, virado do avesso e feito de novo para o filho mais velho, aproveitando as mesmas entretelas e os mesmos forros e chumaços. Só se notava a transformação, porque o bolso do peito, onde ainda hoje se coloca um lenço a condizer com a gravata, passava a ficar do lado direito, denunciando a situação, o que agastava o filho que não tinha outro remédio que não fosse usá-lo assim até que voltasse para o cabide, à espera que o irmão mais novo crescesse. As camisas tinham, também, a sua história. Quando os colarinhos e os punhos, ao fim de um certo tempo de uso e de lavagens, ficavam roçados, cortavam-se as mangas e, com elas, faziam-se novos colarinhos. Reparada a camisa, agora de meia manga, ficava nova uma segunda vez. Mas havia uma terceira ressurreição destas peças do vestuário masculino. Inutilizado o último colarinho, ou seja, o que nascera das mangas, cortavam-se as fraldas, das quais ressurgia a última geração de colarinhos. A camisa, amputada da sua fralda original, recebia um transplante de uma qualquer camisa dadora, posta de lado para se transformar em pano de limpeza, depois de lhe serem retirados os botões.

Foi assim, entre trapos, linhas e botões, que aprendi, mal, os rudimentos da leitura, da escrita e da aritmética. Em 1940 dei entrada na Escola Oficial de São Mamede, na 3ª classe, na classe da dona Júlia, professora nova, simpática e bondosa que, praticamente, não nos batia e que, quando tinha de nos aplicar umas reguadas, como instrumento pedagógico então aceite e seguido, o fazia num jeito de deixar cair a régua sobre a mão da criança. Nada que se comparasse com os castigos dos outros mestres-escola que conheci.

domingo, 20 de Setembro de 2009

Exomuseu da Natureza

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Nas Portas de Ródão

EM 1983 FUI DESIGNADO pelos meus pares da Faculdade de Ciências de Lisboa para dirigir o Museu Mineralógico e Geológico, parte importante do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, confinado às suas paredes, como ainda é, trinta anos volvidos sobre o grande incêndio de 1978. Um tal vazio e a inexistência de qualquer propósito de recuperação, não obstante as promessas, por parte da tutela, deixaram-me espaço para conceber um outro tipo de musealização que me conduziu, à ideia de um Exomuseu da Natureza.

Concebido como um conjunto de ocorrências naturais, esta estrutura museológica, geograficamente dispersa, é coordenada a partir de uma dada instituição (um museu, uma autarquia, uma universidade, uma fundação) que as identifica, inventaria, e as aceita como “peças” que, como tal, protege, estuda, valoriza e explica ao visitante. Expu-la no 1º Encontro Nacional do Ambiente, Turismo e Cultura, reunido em Sintra, em 1989, por iniciativa do Centro Nacional de Cultura, ao tempo da saudosa Helena Vaz da Silva.

Entre essas ocorrências, que podemos considerar também como pólos desse exomuseu, devem estar, entre outras do património natural, os geossítios e os geomonumentos localizados em pontos diversos de um dado território. Sendo evidente que tais ocorrências não cabem, fisicamente, dentro do edifício de um museu convencional e tendo em atenção que o seu enquadramento natural, no local onde se encontram, é essencial à sua compreensão, elas têm, forçosamente, de permanecer fora das paredes da referida instituição.

É esta particularidade, que sai fora do conceito tradicional de museu, que determinou o neologismo, no qual o prefixo exo, do grego ekso (fora, de fora, por fora), a distingue de um outro tipo – o ecomuseu – já conhecido do grande público. O conceito de exomuseu abarca, ainda, todas as ocorrências que, embora tenham sofrido intervenção humana, continuem a ser considerados como documentos da história da Terra e da Vida, como são, por exemplo, as minas e as pedreiras abandonadas.

Passadas duas décadas sobre a sua formulação, o exomuseu é hoje algo mais do que um nome ou do que uma ideia. Não tendo ainda realidade jurídica, nem figurando nos dicionários, esta estrutura já existe no terreno, representada pelos vários geomonumentos entretanto musealizados e nos textos oficiais dos protocolos assinados entre o Museu Nacional de História Natural e algumas autarquias.

Alguns geomonumentos referenciados em Portugal foram convertidos em pólos dispersos de uma estrutura museológica, nos moldes referidos atrás, mediante protocolos já celebrados entre o citado Museu e as Câmaras Municipais de Évora, Lisboa, Setúbal e Viseu. Nos acordos assim firmados, estes geomonumentos foram considerados pólos da Universidade de Lisboa nos citados concelhos. Nestes, o cimo granítico de uma colina nos arredores de Évora é hoje o Núcleo Museológico do Alto de São Bento, em funcionamento efectivo e permanente ao serviço, sobretudo, das escolas da região. Na cidade de Lisboa foram musealizados, ou estão em vias de o ser, uma série de geomonumentos. O sítio da Pedra Furada, recuperado e explicado ao público, é uma realidade em Setúbal. O Museu do Quartzo, na pedreira de Santa Luzia, em Viseu, está prestes a ser inaugurado.

Outra sorte não tem tido o Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo (Carenque) – a grande jazida com pegadas de dinossáurios do Cretácico - com projecto iniciado há mais de vinte anos e aprovado pela autarquia sintrense, já lá vão oito, continua, lamentável e incompreensivelmente, à espera de concretização e de poder constituir a fonte de receita turística que se lhe adivinha.

domingo, 13 de Setembro de 2009

OS CHAPARROS CRESCEM E AS AZINHEIRAS MINGUAM

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O SENHOR CAMILO era o mordomo da Sociedade Harmonia Eborense nos anos quarenta e cinquenta. De nacionalidade espanhola, dizia-se à boca pequena que era refugiado da Guerra Civil. Nunca soube ao certo se era ou não, nem isso me interessava nessa altura. Cedo conquistou a estima e a muita amizade de todos os que com ele privavam, acabando por se tornar figura querida da cidade. Barrigudo, de meia-idade, de ralos cabelos grisalhos e farto bigode a tapar-lhe metade da cara macia e sempre risonha, o senhor Camilo era uma figura carinhosa e doce, mesmo no seu “portunhol” que nunca perdeu. Este homem bom, com provas dadas de grande amizade pela nossa família, tinha um gosto muito particular pela arte dos sabores e introduziu em muitos dos seus amigos o hábito de “pinchar”. A cozinha do senhor Camilo era um salão confortável, enorme, onde as frutas e os legumes, artisticamente dispostos em belos cestos e outros recipientes, eram sempre motivo de decoração. Do mesmo modo que os vinhos, as mercearias e os mais variados utensílios, de todos os tamanhos e feitios, davam ao espaço uma organização estética a condizer com os aromas sempre ali reinantes, entre os quais o do seu inseparável charuto. Ali saboreámos todas as guloseimas que sempre tinha para nos regalar. Para nós, crianças, que ali passámos muitos dos nossos tempos livres, no jogo da glória, no dominó e, mais tarde, no do bilhar, o senhor Camilo ficou-me na memória como o avô que não tive.

– Quieres un helado, hijo mio? No le digas nada, que te dé um regalo.

Nesse tempo os homens saíam sempre depois de jantar. O meu pai reunia-se com os amigos na Sociedade e aí passava o serão, as mais das vezes, em torno do bilhar. Vê-lo jogar era uma festa, sempre animada por assistência numerosa e atenta. Vê-lo ganhar enchia-me de uma vaidade gostosa. Ouvir os elogios do outro jogador, acompanhados das convencionais pancadinhas com o taco no soalho, em sinal de aplauso, faziam-me transbordar de satisfação. Tantas vezes que, nas séries de duzentas carambolas, ele as fazia de seguida, sem que o companheiro tivesse tido oportunidade de pegar no taco. As bolas, a puxar e a seguir, com massés, tabelas secas ou outras habilidades, acabavam sempre por se juntar num canto. Aí, o meu pai iniciava a “série americana”, algo monótona, diga-se, mas de uma precisão extrema. Sempre juntas, as três bolas, tacada a tacada, iam dando a volta à mesa. E se alguma se afastava demasiado, era de imediato recolocada no devido lugar com uma tacada aberta que a enviava e trazia de volta, a morrer, como se dizia. Havia sempre um voluntário que, no final, contava em voz alta as derradeiras carambolas.

–... cento e noventa e sete, cento e noventa e oito, cento e noventa e nove... duzentas!

– Boa tacada! - Gritava alguém, excitado pela qualidade da última carambola, espectacular, de amplo desenho geométrico, alargado às várias tabelas.

Seguiam-se os aplausos, ruidosos, as felicitações e os comentários, só então se quebrando o silêncio em que decorriam as partidas.

– E tu, já sabes jogar? – Perguntou-me, um dia, o senhor Firmino, colega de emprego do meu pai, acrescentando – Filho de peixe sabe nadar.

Eu apenas sorria, vaidoso, encolhendo os ombros e olhando para o pai como que esperando que respondesse por mim.

– Lá irá, lá irá – dizia ele, rematando com uma frase que só mais tarde entendi. – Os chaparros crescem e as azinheiras minguam.

domingo, 6 de Setembro de 2009

Flutuantes como Espuma

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SENDO O CRESCIMENTO da litosfera oceânica um facto plenamente comprovado, sabendo-se que os enrugamentos montanhosos não são suficientes para compensar esse alastramento e, uma vez que a Terra não está em expansão, é forçoso que haja, em simultâneo, destruição de litosfera, o que acontece ao longo das chamadas zonas de subducção, por mergulho e reabsorção por fusão no manto. Estas zonas estão associadas quer a arcos insulares, isto é, conjuntos de ilhas vulcânicas que se alongam em arco (Curillas, Aleutas e outras), quer a margens continentais de tipo andino, de que é exemplo a margem frontal à cordilheira dos Andes, no bordo ocidental da América do Sul. Nos arcos insulares, o contacto estabelece-se entre duas placas oceânicas em aproximação e, então, qualquer uma delas pode mergulhar sob a outra. Nas margens de tipo andino, a aproximação põe em confronto uma placa continental e uma oceânica, sendo esta que, por ser mais densa, mergulha, no geral, sob a outra. Parte dos sedimentos acumulados na margem continental, ao longo de dezenas de milhões de anos, acabam por ser enrugados e emergir, participando na formação de montanhas, como é o caso nas várias cadeias recentes (Alpes, Andes, Montanhas Rochosas, entre outras), ainda em construção e, portanto, activas. Quando a subducção engole a totalidade da placa oceânica situada entre dois blocos continentais em aproximação, eles acabam por colidir. Foi o que aconteceu nos Himalaias, há uns 40 milhões de anos, em resultado da colisão da Índia com o Sudoeste da Ásia. Nesta região verifica-se uma excepção à generalizada flutuabilidade da crosta continental. Uma porção considerável do continente indiano deslizou sob o continente eurasiático, sendo a causa da elevação do planalto do Pamir.

Tendo muita dificuldade em mergulhar no manto, os continentes encerram as mais antigas rochas do planeta, algumas com mais de 4000 milhões de anos. São, por assim dizer, entidades permanentes à superfície do planeta, quais jangadas à deriva. Flutuantes como a espuma, as placas litosféricas estão sujeitas a fragmentações, translações e subsequentes rearranjos, sempre à superfície do globo. Claude Allègre chamou-lhes l’écume de la Terre, a espuma da Terra. Mesmo o desgaste que sofrem, por erosão, não os destrói. Com efeito, os sedimentos resultantes da sua erosão acumulam-se nas respectivas margens e são-lhes devolvidos em episódios orogénicos posteriores.

domingo, 30 de Agosto de 2009

Vista Cansada

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HIPERMETROPIA, como se diz no jargão médico, tão ao gosto dos profissionais, sempre foi para a grande maioria do povo “vista cansada”. É aquela perda progressiva de visão ao perto que a grande maioria começa a dar-se conta por volta dos 40 a 50 anos de idade. É o franzir dos olhos ou o afastar das páginas do jornal quando se desejam ler as letras mais miudinhas, é o enfiar, a tacto, a linha no orifício da agulha. Com o uso e o passar dos anos, a vista cansou-se. Felizmente que há lentes que fazem aquilo que os nossos olhos já não conseguem fazer e que é focar a imagem na retina.

Nos anos da minha meninice e adolescência, a par dos dois oftalmologistas da cidade de Évora, com consultório aberto a uma clientela mais endinheirada, ainda persistiam os oculistas ambulantes que percorriam o país, de feira em feira. Um destes feirantes, que conheci, vinha todos os anos pela Feira de São João. Montava um pequeno toldo, sob o qual estendia uma banca onde dispunha o material que trazia: dezenas e dezenas de pares de óculos, de muitos tamanhos e feitios, todos eles completos, isto é, com as lentes já montadas. Não se fazia ali qualquer avaliação prévia da deficiência ocular dos interessados. Cada um colocava nos olhos um par, ao acaso, e num pedaço de jornal e experimentava a eventual melhoria que o mesmo lhe proporcionava. Ia escolhendo e pondo de lado e, ao fim de muitas tentativas, das duas uma: ou, por sorte, encontrava uns óculos que lhe melhorassem a visão, ou acabava por desistir porque nenhum dos ali à sua disposição lhe resolvera o seu problema.

O senhor Alberto oculista, assim era conhecido, configurava um homem de uma certa idade, de pequena estatura, algo franzino, míope, de cabelo grisalho, ralo e liso. A bata, um tanto roçada pelo uso e que já não era bem branca, dava-lhe, apesar disso, o ar de eficiência e respeito profissional pretendido. De espanador na mão, ia removendo o pó, sempre muito, constantemente depositado sobre o delicado artigo exposto, e afugentando as moscas, também muitas, que lhe invadiam o espaço, fugidas do brasido naquelas tardes de finais de Junho no grande espaço térreo que ainda hoje é o Rossio de São Brás.

Era, sobretudo, gente do campo, com poucas posses, que fazia o grosso da sua clientela e, nesta, predominavam as mulheres. Dos homens só alguns sabiam ler, pelo que eram sempre poucos os que sentiam a necessidade de ir ao oculista. Viam ainda muito bem o chão onde enterravam a enxada ou o macho que lhes puxava o arado. Mas para as mulheres ver ao pé era crucial, apenas “por mor” da costura.

- Enfiar as linhas na agulha, é que me custa. É a minha neta que mas enfia. – Lamentava-se uma quintaneira, uma das muitas habitantes das redondezas que todos os anos só nesta ocasião vinham à Feira em busca do que ali podiam comprar e também para encherem a alma de multidão, luzes, cores, sons e festa, depois de meses e meses de isolamento, silêncio, solidão e luz de petróleo ou candeias.

- Passajar, vá que não vá, é a tacto. Pregar um botão é a mesma arrelia. Falta-me a vista. – Dizia ela para o senhor Alberto, que a ouvia ao mesmo tempo que procurava o par que melhor servisse esta sua possível cliente. Depois de várias tentativas e escolhido um que lhe pareceu adequado, deu-lhe uma limpeza com a flanela, que trazia no bolso superior da bata, e ajeitou-o na cara da mulher.

- Experimente lá estes, tiazinha - disse o oculista, ao mesmo tempo que lhe passava para a mão meia folha do “Notícias d’ Évora”. – Veja lá se consegue ler aí nas letras mais pequeninas?

- Leve lá daqui o jornal, criatura de Deus, “quê cá nã sê ler”! Eu trouxe aqui com que tirar a prova. – Disse a mulher, com ar de quem brinca com a sua própria mágoa, enquanto buscava na mala o trapinho onde espetara uma agulha e enrolara um pedaço de linha.

- Estes são uma maravilha! – Exclamou entusiasmada a quintaneira depois de, logo à primeira tentativa, ter enfiado a linha no buraquinho da agulha. Até vejo os fiozinhos mais fininhos. Louvado seja Deus!

domingo, 23 de Agosto de 2009

Nada se cria...

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Lavoisier no seu laboratório

Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, arrazoado que, ainda meninos, aprendemos e recitámos de cor, é a expressão filosófica da conhecida lei da conservação de massa, formulada pelo grande químico francês Antoine Lavoisier (1743-94), guilhotinado na voragem da Revolução Francesa. Este mesmo princípio regulador das reacções químicas aplica-se também, como não podia deixar de ser, às rochas. Com efeito, as rochas não se criam a partir do nada. São sempre o produto de uma transformação a partir de outros materiais, que tanto podem ser outras rochas preexistentes, como detritos minerais (sedimentos), ou substâncias químicas dissolvidas nas águas como, ainda, restos esqueléticos (conchas, carapaças, etc.) de seres vivos.

As primeiras rochas formadas na crosta primitiva nasceram da transformação, por solidificação, da parte externa de um oceano de magma à escala global. Estas primeiras rochas são classificadas de magmáticas e o magma primordial que lhes deu origem foi, por seu turno, o resultado da diferenciação do planeta por transformação dos materiais condensados a partir do que restou da nébula solar.

As rochas geradas num dado ambiente são aí estáveis e reflectem as características físicas (temperatura e pressão) e químicas desse mesmo ambiente, quer através das suas composições mineralógicas, quer através das suas texturas, expressas pelo tamanho, forma e disposição ou arranjo dos respectivos minerais. Quando mudam de ambiente (ou porque se deslocam de um ambiente para outro, ou porque houve modificações ambientais no local onde se encontram), as rochas ficam instáveis e tendem a adaptar-se aos novos parâmetros, transformando-se. Muitos dos minerais das rochas geradas a grande profundidade, onde a pressão e a temperatura são elevadas, alteram-se quando ascendem à superfície, dando origem a produtos que irão participar na formação de rochas sedimentares. Neste processo, os sedimentos acumulados e ainda incoesos podem sofrer acções que passam por expulsão da água intersticial, compactação, cimentação e, quase sempre, recristalização dos seus minerais, num conjunto de processos conhecido por diagénese, litificação ou petrificação, três expressões que querem dizer transformação do sedimento em pedra. Se as rochas sedimentares forem levadas a afundar-se na crosta, vão ficar submetidas a pressões e temperaturas crescentes com a profundidade, transformando-se mais ou menos intensamente, originando rochas que classificamos de metamórficas. Podem, inclusivamente, dar origem a rochas magmáticas, e isso acontece sempre que as condições de temperatura, pressão e quantidade de água presente atinjam valores que as levem à fusão, gerando magmas secundários, assim designados para os distinguir dos magmas primários, isto é, os que têm origem no manto, como são os que geram os basaltos das dorsais oceânicas.

Os processos geradores, ou transformadores, das rochas sucedem-se ciclicamente, segundo uma sequência que, por vezes, se fecha e se repete, que alguns autores referem por ciclo geoquímico da litosfera. Poderíamos dizer, em linguagem figurada mas expressiva que, ao transformarem-se umas nas outras, as rochas nascem, vivem e morrem, como aliás, tudo na Natureza. O nosso planeta é, pois, uma máquina complexa de reciclagem de rochas, que se alimenta de umas para dar origem a outras, tendo por fonte de energia, para umas (as ígneas e metamórficas), o muito calor interno que ainda conserva e, para outras (as sedimentares), a inesgotável radiação solar. Esta reciclagem constante e permanente explica, entre outras particularidades da crosta, a relativa escassez de rochas muito antigas.

domingo, 16 de Agosto de 2009

Carne quebrada, nervo torto

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FOI UM TEMPO em que a única vacina era a que se dava contra a varíola, enfermidade grave, tantas vezes fatal, conhecida de toda a gente por bexigas, pois deixava os poucos que lhe sobreviviam marcados pelas inúmeras pequenas cicatrizes das vesículas pustulentas espalhadas por todo o corpo, particularmente visíveis no rosto.

Uma entorse num artelho ou num pulso resolvia-se, via de regra, com escaldões num alguidar com água e sal, quase a ferver. Aí se mergulhava o pé ou a mão, procurando resistir ao intenso calor o tempo considerado necessário. Por último, apertava-se a articulação com uma ligadura, no sentido de a imobilizar e reduzir o inchaço. Depois era esperar uns dias até o incómodo passar. Nos casos mais difíceis de resolver por esta via, a minha mãe recorria a uma vizinha tida por muito virtuosa, para que ela “cosesse” o torcegão. Conheci a virtude desta senhora uma vez que torci um pé no sítio do tornozelo, teria eu uns oito ou nove anos. Chegado a casa dela, a senhora mandou-me sentar à sua frente, numa cadeirinha baixa, pegou-me no pé torcido e ajeitou-o sobre os seus joelhos. A seguir tirou-me a ligadura, encostou um novelo de lã cinzenta à zona mais inchada e começou a “cosê-lo” com uma agulha grossa onde enfiara um pedaço de lã do mesmo novelo, sem o habitual nó na ponta do fio. A agulha e o fio iam entrando e saindo desta fofa bola ao ritmo de uma reza, dita em surdina, para mais ninguém ouvir. Recebida da sua mãe à hora da morte, guardá-la-ia consigo enquanto vivesse e só, ao sentir-se morrer, a transmitiria à mulher que ela entendesse merecer tal virtude. Aintervalos de tempo, como se de um refrão se tratasse, perguntava em voz bem audível.

- O que é que eu coso? – E a minha mãe respondia, por mim.
- Carne quebrada, nervo torto! – E a senhora confirmava.
- Isso mesmo é que eu coso!

Terminada a cosedura, repôs-me a ligadura e recomendou-me repouso e mais uns escaldões. O incómodo acabou por passar e tudo voltou ao normal alguns dias depois. Habituada que estava na assistência à doença, numa casa de família com seis filhos, a minha mãe passou a assumir, sempre que necessário, o papel da virtuosa senhora. Muniu-se de um novelo e de uma agulha a preceito mas, não conhecendo a tal reza, substituía-a por Padres-nossos e Ave-Marias, com idêntico bom resultado. Em sua muito convicta opinião, o que contava era a fé com que rezava.

Muitos anos mais tarde, o meu irmão Mário, a trabalhar em Lisboa, sofreu um pequeno acidente vascular cerebral que o deixou com uma ligeira, mas notada, assimetria facial e alguma dificuldade na articulação da fala. Segura da sua fé, a mãe foi desencantar o novelo de lã e a agulha, há muito guardados, e, às escondidas do médico, tantas vezes, rezando, lhe “coseu” aquele lado da cara que, passados uns meses, tudo voltou ao seu sítio. Era crença da minha mãe que tinham sido, sobretudo, as suas orações que o haviam curado. Felizmente, ninguém procurou desviá-la desta sua profunda convicção.

domingo, 9 de Agosto de 2009

O chão que Lisboa pisa

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COM MUITAS RARAS EXCEPÇÕES o cidadão de Lisboa não conhece nem a natureza nem a história do chão que pisa e no qual assentam as fundações do prédio onde vive. Que sabe ele da sua história para trás do dia em que o malogrado Martim Moniz ficou entalado entre as portas do Castelo? Sabe, de facto, muito pouco. Mas ainda sabe menos de tudo o que aqui aconteceu antes do primeiro humano ter pisado estas terras, milhares de anos atrás e do que se passou nesta região há milhões de anos.

Não sabe que o lioz, ou seja, o calcário usado na construção dos Jerónimos, da Torre de Belém, do Palácio da Ajuda, e da maior parte da cantaria e estatuária locais, nasceu num mar muito pouco profundo, de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Nesse mar raso, há cerca de 95 milhões de anos, populações imensas de moluscos, a que chamamos rudistas, com conchas mais espessas do que as das ostras, cobriram os fundos e, proliferando uns sobre os outros, edificaram, camada após camada, os estratos de calcário que ainda podemos ver, por exemplo, na Avenida Calouste Gulbenkian, sob o aqueduto das Águas Livres, ou na base do bairro dos Sete Moínhos, à entrada de Lisboa pela ponte Duarte Pacheco.

Mas voltemos ao chão de Lisboa, dizendo que os seus habitantes também não sabem que a maior parte da pedra negra das velhas calçadas da cidade é basalto, ou seja, lava consolidada de vulcões que aqui estiveram em grande actividade há uns 70 milhões de anos. Ignoram que no tempo imenso que se seguiu a este mar de fogo e cinzas, toda esta região evoluiu num ambiente continental marcado pela secura do clima, propício a grandes enxurradas, como as que ainda se podem observar na Calçada de Carriche, nas camadas sedimentares repletas de calhaus arredondados (cuja idade remonta aos 40 milhões de anos) e à deposição de calcários lacustres como os de Alfornelos e da Brandoa. Não se dão conta que o mar aqui regressou depois, há cerca de 23 milhões de anos, e que aqui se gerou, de novo, um ambiente construtor de calcário, mas, desta vez, por um grupo de minúsculos invertebrados coloniais – os briozoários – à semelhança dos recifes de coral. Por último, não lhes ocorre que as diversas fábricas de cerâmica, hoje desactivadas ou demolidas, que aqui moldaram o barro extraído dos próprios locais, só existiram porque esse mar recuou e passou a haver nesta região, há pouco mais de uma dezena de milhões de anos, intensa deposição de sedimentos argilosos acumulados numa paisagem aplanada, vestibular de um grande rio, povoada por mastodontes (grandes herbívoros ancestrais dos elefantes), grandes crocodilos e muitos outros animais entretanto extintos, cujas ossadas desenterradas dos respectivos sedimentos são objecto de estudo dos paleontólogos.

Páginas desta história, milagrosamente conservadas na densa malha urbana, são visíveis em alguns raros afloramentos rochosos nas ruas da capital. Porque escaparam ao camartelo ou porque não foram encobertos pelo betão ou pelo asfalto, são testemunhos valiosos que aqui nos ficaram desses tempos antigos. À semelhança de um qualquer património construído, aceite como um monumento, também certas ocorrências geológicas devem ser entendidas como tal e, assim, merecer-nos a atenção e o cuidado de os legarmos aos vindouros como documentos de um património natural que a civilização, o progresso e, também, a ignorância foram destruindo ou soterrando.

Após alguns anos de estagnação posteriores à presidência, na Autarquia, de João Soares e à devotada acção do vereador Rui Godinho na defesa e valorização dos geomonumentos de Lisboa, a actual vereação retomou esse trabalho, estando neste momento a concluir o que havia sido iniciado e a estender esta mesma preocupação a sítios entretanto referenciados por funcionários com preparação geológica adequada.

Bem-hajam por isso!

quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

A Volta

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NUM DOS NOTICIÁRIOS TELEVISIVOS do serão de ontem, dia 5 de Agosto, dei por mim a prestar atenção ao início de 71ª Volta a Portugal em Bicicleta, um contra-relógio energicamente disputado na Avenida da Liberdade, só me desinteressando da notícia depois de ver a nova promessa, Cândido Barbosa, vestir a camisola amarela.

Vieram-me, subitamente, à memória o Alves Barbosa, um adolescente como eu nos anos 50, e o saudoso Joaquim Agostinho. Deste, que muitos consideram o maior ciclista português, ficou-me uma nostalgia salpicada de mágoa e alguma tristeza. De tudo o que a seu respeito me foi dado conhecer, sobretudo através da comunicação social, guardei dele a ideia de um homem bom, senhor de uma humildade que só os grandes sabem ter, de uma coragem e de uma generosidade sem limites. Não houve uma vez que, estando em Torres Vedras, não fosse em romagem ao homem e ao desportista, no singelo e admirável monumento com o qual, em boa hora, a autarquia decidiu perpetuar-lhe a memória.

A sua morte estúpida, em 1984, por falta de assistência adequada, dói fundo em muitos dos seus concidadãos, entre os quais eu, que nem o conhecia pessoalmente, nem nunca me interessara pelo popular desporto que tão nobremente praticou, nem mesmo em criança, quando o Faísca (José Albuquerque, de seu nome) era o rei do pedal e ainda estavam bem vivos os feitos do José Maria Nicolau, do Benfica, e do Alfredo Trindade, do Sporting, que se haviam disputado galhardamente nas Voltas entre 1931 e 1934 e os seus nomes continuavam na boca de graúdos e miúdos.

domingo, 2 de Agosto de 2009

As três cordas do navio

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Navio oceanográfico Almeida Carvalho
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MAIS POR CORTESIA do que para trabalhar, o Instituto Hidrográfico convidou-me a participar num dos muitos cruzeiros realizados no âmbito dos projectos de investigação em Geologia Marinha, de parceria com o Museu Nacional de História Natural, sob a minha responsabilidade. Corria o ano de 1989. Ancorado no porto de Leixões, o navio oceanográfico Almeida Carvalho ia zarpar, desta vez com o objectivo de permitir aos nossos investigadores e estagiários (bolseiros) procederem a amostragens de sedimentos finos (lodos), de profundidade, na vertente continental, ao lago da costa norte do país. Era Outono e o tempo estava magnífico, a convidar para uma semana de relaxe flutuante num mar chão, bem instalado e com mesa de muita qualidade, na agradável companhia do comandante e dos oficiais da guarnição. Sem responsabilidades ou incumbências operacionais fui, como em criança, aprendiz de todos os trabalhos inerentes à vida a bordo. O navio está sempre acordado. Seja dia, seja noite, o trabalho é sempre muito e igual. O que muda são os protagonistas. Enquanto uns dormem ou usam o tempo como lhes convém, outros fazem “quartos”, nome oficialmente usado para designar cada um dos turnos de quatro horas a cumprir por cada embarcado, seja ele da guarnição ou da equipa técnica. Os quartos da noite oferecem-nos um ambiente muito particular, agradavelmente marcado pela abundância de luz no navio, em contraste com a absoluta negridão envolvente. Os quartos da madrugada, os meus preferidos, permitiam-me dar continuidade ao meu hábito de escrever naquelas horas e admirar o nascer do sol no mar, uma novidade para quem, como nós, portugueses do continente, no mar, só testemunhamos ocasos. A essa hora mágica a superfície da água parecia óleo com reflexos metálicos acobreados, num espectáculo, para mim, inédito e inesquecível. Era o “mar de azeite”, como lhe chamam marinheiros e pescadores.

Entre as muitas coisas que, a bordo, acrescentei ao meu conhecimento, aprendi que na Marinha não há barcos. Só há navios. Fiquei a saber que no navio apenas existem três cordas: a corda do sino, a corda do relógio e “acorda que já são horas”. Tudo o mais são cabos. Fiquei ainda a saber que o nome deste navio ao serviço da Armada e do Instituto Hidrográfico entre 1972 e 2002 (abatido ao efectivo em 2006) evoca o Comandante Ernesto Tavares de Almeida Carvalho, português ilustre e autor de importantes trabalhos hidrográficos e oceanográficos ao largo das costas de Portugal e de Moçambique.

domingo, 26 de Julho de 2009

“O meu amigo leão”

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ERA DESTE AMIGO que falavam algumas das histórias que o meu pai me contava quando tinha vagar par tal. Sempre reinventadas, havia nelas um elemento comum e constante: “um grande e temido leão que se tornara amigo dele nos anos em que, ainda criança, vivera em plena selva africana”. Este seu amigo, de imensa juba e um rugido que fazia tremer de medo todos os restantes animais, segundo a imaginação do meu pai, ajudou a criá-lo. Caçava para lhe arranjar belos bifes, muito tenrinhos, e, como rei da selva que era, levava-o a passear e a conhecer outros habitantes daquelas paragens. Foi assim que o meu pai pôde brincar com macacos e conviver, de muito perto, com leopardos, crocodilos, hipopótamos, rinocerontes, elefantes, zebras, girafas, búfalos e muitos outros.

Das muitas histórias ouvidas, uma que depois reinventei para entreter os meus filhos, contava que, já ele era crescido e a viver em Évora, fora ao circo e qual não foi o seu espanto quando reconheceu o seu amigo leão entre um grupo de feras fazendo habilidades, a mando de um austero domador, de revólver à cintura e chicote na mão. Findo o espectáculo, o meu pai dirigiu-se às traseiras do circo e, pé ante pé, sem ninguém o ver, entrou no recinto onde estavam os animais. Aproximou-se cautelosamente da jaula onde lhe pareceu ver o leão da sua infância, não fosse enganar-se. Mas não se enganou. Aquele era bem o seu amigo que, de imediato começou a lamber-lhe as mãos e, ao mesmo tempo, lhe contava como fora capturado por homens muito maus que depois o venderam a um domesticador que, por sua vez, o vendeu para trabalhar no circo, a troco de uma miserável ração de carne, tantas vezes a cheirar mal. Então, o meu pai saiu, como entrara, e foi chamar um seu vizinho e amigo que, por sinal, era polícia. Acompanhado da autoridade, voltou ao circo, mas desta vez à vista de toda a família circense. Aí, o polícia mandou abrir a jaula que o meu pai apontou. O pessoal tentou resistir mas a cara de mau do agente e o pistolão que levava à cintura manteve-o em respeito. Aberta a jaula, o meu pai passou uma corda ao pescoço do leão, aos pulos de contentamento, e levou-o para casa através das ruas, àquela hora, desertas.

O meu pai pediu um tempo de férias no escritório onde trabalhava, fez as malas e levou-o de comboio para o Barreiro, onde apanharam o barco para Lisboa. Ao verem-no, com um leão à trela, as pessoas assustavam-se e faziam jeitos de fugir, mas o meu pai tranquilizava-as, levando-as a fazerem-lhe festas como se de um grande e mansinho cão se tratasse. No Terreiro do Paço e, a muito custo, conseguiu que um taxista os levasse ao Jardim Zoológico onde pediu para falar com o director. O propósito do meu pai era arranjar alojamento condigno para aquele seu amigo, até conseguir passagem para os dois num cargueiro que os levasse a um porto de África. O director, que era um homem muito simpático e amigo dos animais, disse-lhe logo que sim e até o ajudou a arranjar as ditas passagens. E, passados uns dias, lá foram num grande vapor que os desembarcou em Luanda. Com os marinheiros, em grande algazarra na amurada do navio, a dizerem-lhes adeus, o meu pai alugou uma pequena camioneta cujo motorista, por sorte, conhecia muito bem o caminho da selva onde ele e o seu amigo leão se tinham conhecido, anos atrás. E lá foram os três por aquelas picadas, até que chegaram a um sítio, no qual o leão pediu para pararem. Aos pulos de contente, o felino não parava de gritar: - Chegámos! Chegámos!

O meu pai pagou o aluguer e combinou com o motorista o dia em que ele deveria ir buscá-lo de regresso, pois queria ficar ali uns dias a descansar e a reviver os belos tempos da sua infância. O tempo que lá passou mal chegou para ver os animais que lá deixara, todos eles já com filhos e alguns com netos. No dia combinado lá estava o Serafim mais a camioneta para o trazerem de volta a Luanda. Com lágrimas, beijos e muitas lambidelas, o meu pai disse adeus ao seu amigo que a ficção permite que ainda lá esteja à espera de participar nas histórias de mais tantas gerações quantas quiserem os seus mentores.

domingo, 19 de Julho de 2009

Esposa, filha ou irmã da terra

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FAZ HOJE 40 anos que Neil Armstrong pisou o solo lunar, um facto notável que testemunha não só o poder da ciência e da tecnologia, mas também a bravura dos que protagonizaram aventura semelhantes, a começar pelos navegadores de quinhentos que deram “novos mundos ao mundo”.

Muito se escreveu e continua a escrever sobre o nosso inseparável e belo satélite natural. Da ficção à ciência, passando pela poesia, a Lua sempre esteve presente bem dentro das nossas vidas. Como geólogo, sempre esta nossa companheira ocupou parte importante da minha curiosidade. Acompanhei com o maior entusiasmo, sobretudo, através da imprensa escrita, a competição americano-soviética pela conquista do espaço, a meados do século que passou. Recordo o discurso do presidente John F. Kennedy, no início dos anos 60, em que afirmou que, até ao fim da década, a América enviaria uma missão tripulada ao solo lunar e trá-la-ia, em segurança, de volta à Terra. Recordo a madrugada de 20 de Julho de 1969, dia em que essa promessa foi cumprida, Colado ao televisor, vi, em directo, Neil Armstrong descer a escada da Apollo 11 e deixar no solo selenita a primeira pegada daquele passo gigantesco do génio humano.


Sem água nem atmosfera, não há na Lua o tipo de erosão que bem conhecemos na Terra. Por isso, o nosso satélite mostra-nos o mesmo visual de há mais de três mil milhões de anos. Uma superfície marcada por esparsos e vastos derrames de basalto – os chamados mares lunares – em contraste com vastíssimas regiões densamente pejadas de crateras de impacto meteorítico, pode ser vista por qualquer um com a simples ajuda de uns binóculos vulgares. Uma tal ausência de actividade erosiva faz com que a celebérrima pegada deixada pelo primeiro homem que ali chegou persista intacta por muitas dezenas de milhões de anos.

Aquando da minha estadia na capital dos franceses nos primeiros anos da década de 60, o nosso satélite era tema de ensino nas aulas de geologia da Universidade, ministradas pelo Prof. Charles Pomerol, cientista e grande divulgador, com quem tive frequente e proveitoso contacto. Ensinava ele que relativamente à origem da Lua se debatiam três concepções dominantes: A “Lua filha da Terra”, como uma porção desta que, desde muito cedo, se teria separado dela; a “Lua esposa da Terra”, como um corpo planetário estranho, vindo de algures e por ela capturado graviticamente; e a “Lua irmã da Terra”, de formação independente e simultânea, ambas geradas, lado a lado, nos primórdios da evolução do Sistema Solar. Para este professor, e segundo os elementos científicos então disponíveis, esta última concepção era a mais verosímil. Passaram quarenta anos de estudo intenso do nosso satélite e a convicção da maioria dos cientistas do presente é aquela que então se referia à Lua como filha da Terra.

Publicado no «DN» de 18 de Julho de 2009

domingo, 12 de Julho de 2009

Gostar de saber e dever cívico de estudar

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GOSTAR DE SABER é uma das chaves que abrem as portas ao binómio ensino-aprendizagem e, portanto, ao sucesso escolar e à valorização do indivíduo. A outra, não menos importante, é a consciência do dever cívico de estudar. Compete aos pais, em casa, e aos professores, na escola, desenvolver uma e outra.

Terminada a licenciatura em Geologia, em 1961, e sem qualquer preparação no domínio das ciências da educação, comecei imediatamente a leccionar, primeiro como assistente em aulas práticas e, só mais tarde, após o doutoramento, como regente de aulas teóricas. Os tempos eram outros e a tarimba do docente universitário desse tempo era passar pela maioria, senão todas, as disciplinas do Departamento. Quer em trabalhos práticos no laboratório e no campo, quer em auditórios, por vezes com mais de uma centena de alunos, os docentes dos anos 60 e 70 do século que virou eram conduzidos a uma visão eclética da área científica da respectiva licenciatura. Tal procura de ecletismo, consentida por uma então muito menor especialização do saber científico, estava bem patente nas modalidades de doutoramento e de agregação de então, marcadas por provas incidindo sobre a totalidade das disciplinas dessa área científica, em complemento das necessárias dissertações. O docente da minha geração criava a sua própria pedagogia, determinava-lhe os conteúdos, regia-a a seu modo e examinava os próprios alunos no final do ano ou do semestre.

Por razões diversas, umas bem conhecidas, outras não tanto assim, é frequente, numa qualquer turma, haver um, dois ou mais estudantes menos motivados, visivelmente desinteressados da matéria em estudo. Face a estes alunos, logo identificados nas primeiras aulas, adoptei uma estratégia que quase sempre resultou. Dava-lhes mais atenção, procurando estabelecer com eles um relacionamento de simpatia que lhes tornava agradável o convívio comigo e, consequentemente, a frequência às aulas. Colocava-lhes problemas muito simples, ajudando-os a resolvê-los sem que dessem conta dessa ajuda. Posto isto, elogiava os seus progressos e dava-lhes tratamento que lhes despertava auto-estima, os estimulava a gostar de saber e, por essa via, a gostar de estudar. Para as dúvidas e para recuperarem parte dos atrasos, contavam comigo sem reservas nem receios de revelar dificuldades. Estabelecida uma tal relação de simpatia e confiança, era fácil abordar temas que fossem dar à cidadania e ao dever cívico do estudante que é, em particular, estudar.

Este que foi o meu modo de conviver com os alunos, alegre, cordial, transparente e responsável, tinha como consequência a presença nas aulas da grande maioria dos alunos, do começo ao fim do curso. Uma grande aproximação entre nós intensificava-se nas saídas ao campo e tinha efeitos benéficos até durante os exames, em especial, nas provas orais. Nestas o examinando sentia-se na presença de quem lhe transmitia conhecimento, mas também de um amigo, e não na de um qualquer frio e distante examinador.

domingo, 5 de Julho de 2009

Pesamos mais na praia do que na montanha

TODOS SABEMOS que a massa de um corpo é a medida da quantidade de matéria nele contida e que o peso desse corpo é a força com que a Terra o atrai. Essa força gravítica, como nos ensinou Newton (1642-1727) e que todos decorámos na escola, é directamente proporcional às massas do planeta e desse corpo e inversamente proporcional ao quadrado da distância que separa os respectivos centros de gravidade. Uma vez que a Terra não é perfeitamente esférica, uma mesma massa tem pesos diferentes consoante os locais onde se encontra. Nos pólos, onde o raio do planeta é menor, qualquer corpo pesa mais do que no equador, onde o raio é cerca de 25km mais longo. No cimo do Monte Evereste (8 848m), os corpos pesam menos do que ao nível do mar. São cerca de nove quilómetros de diferença na distância ao centro do planeta. Podemos afirmar, então, que pesamos mais na praia do que na montanha.

Um outro factor interfere na referida força de atracção, e esse factor é a densidade das rochas do subsolo onde se proceda à pesagem de um corpo. Quanto mais densas forem essas rochas, maior é a força da gravidade. Assim, no mar, longe os continentes, um mesmo corpo pesa mais do que em terra, uma vez que a crosta oceânica, basáltica, é mais densa (2,9) do que a crosta continental (2,7), essencialmente granítica. Há, pois, uma relação estreita entre as anomalias da gravidade e o equilíbrio isostático.

Os gravímetros são aparelhos de alta precisão com capacidade para medir o valor da aceleração da gravidade em qualquer lugar, em terra ou no mar. A sua grande sensibilidade põe em evidência variações mínimas daqueles valores, em função da latitude, da altitude e da natureza geológica dos locais onde são instalados.

Através de cálculos matemáticos podemos sempre determinar o valor da aceleração da gravidade em qualquer ponto da superfície da Terra. Os valores medidos com o gravímetro necessitam de ser referidos à superfície do geóide e corrigidos de interferências de natureza geológica, a fim de serem comparados com os valores calculados. Verifica-se, então, que, em geral, os valores medidos e corrigidos não coincidem com os valores calculados matematicamente. A diferença entre estes dois resultados é entendida como uma anomalia da gravidade, passível de interpretação geológica. Consideram-se anomalias negativas quando o valor calculado supera o valor medido, e positivas na situação contrária. Nos continentes, as anomalias da gravidade são negativas e aumentam em valor absoluto nas regiões montanhosas, onde a crosta continental (menos densa) é mais espessa. Nos oceanos as anomalias são positivas e variam em função da estrutura do respectivo substrato.

«DN» de 3 de Junho de 2009

domingo, 28 de Junho de 2009

Ardósia da minha infância

PARA ALÉM DO GRANITO que conheci ao sentar-me nele, na soleira da porta da casa da minha avó, na rua de Frei Brás, em Évora, a pedra com que privei de perto foi a ardósia, uma espécie de xisto compacto que se deixa laminar permitindo talhar aqueles delgados rectângulos emoldurados, a que chamávamos, simplesmente, pedra, e nos quais as crianças da minha geração aprenderam a escrever as primeiras letras e os primeiros algarismos. Esta mesma ardósia ou lousa, aparada para fazer as vezes de telhas, exportámo-la para Inglaterra com o nome de "soletos", um aportuguesamento popular da palavra inglesa slate, com o mesmo significado. Acrescente-se que na ardósia, que todas a crianças levavam para a escola, se escrevia com lápis da mesma pedra, sendo curioso assinalar que lápis, do latim, lapis, quer dizer, precisamente, pedra.

- Amanhã começas a ir para a mestra Chica. - Disse a minha mãe ao mostrar-me aquela pedra preta, encaixilhada em madeira de pinho, acabadinha de comprar.

Ir para a mestra era uma promoção nos degraus da primeira infância. Dos vizinhos da minha idade, rapazes e raparigas, só eu ainda não frequentava aquela espécie de jardim-escola artesanal, onde a mestra, não sendo uma educadora diplomada como hoje acontece, era apenas uma das poucas mulheres que sabia os rudimentos da leitura e da escrita, que tinha jeito para lidar com crianças e que, assim, angariava uns tostões ao fim do mês.

Foi com a pedra enfiada na sacola de serapilheira novinha em folha e com uma caderinha alentejana empalhada, comprada no Alfredo cadeireiro que, pela mão da minha mãe, dei entrada na mestra Chica.

A sala de aula era a própria sala da casa, onde se almoçava e jantava, se trabalhava e se convivia em família. Digo bem, convivia, pois a telefonia e a televisão estavam longe de invadir os lares e, era falando umas com as outras, contando e ouvindo histórias, que as pessoas desfrutavam os seus tempos de lazer. Além da mesa, das cadeiras, do guarda-loiça e do aparador, lá estava a máquina de costura Singer e uma pequena bancada onde a mestra, ao mesmo tempo que ia entretendo os seus minúsculos pupilos, ia estendendo um melaço de açúcar, amarelado, espesso e quente que, depois de frio e endurecido, cortava em pedacinhos, com que fazia rebuçados para fora. Dizia-se “para fora” porque estas guloseimas caseiras, enroladas em papelinhos de diversas cores, eram fornecidas às lojas que lhas encomendavam e que, por sua vez, as vendiam a uma clientela jovem.

Era num espaço mais alargado desta, que era a maior divisão da casa, que uma meia dúzia de crianças, em idade pré-escolar, sentadas em cadeirinhas ou banquinhos de tamanho a condizer, com a dita pedra sobre os joelhos, procuravam desenhar as letras e os algarismos que a mestra escrevia para que elas copiassem. Muito longe da reconhecida actividade pedagógica dos actuais jardins de infância, apoiados em profissionais com preparação adequada, estar na mestra da minha infância, pouco mais era do que libertar as mães de então que, assim, podiam dispor de tempo para o muito trabalho doméstico que desenvolviam, onde não faltava a costura inerente a uma família inteira, numa época que roupa de casa e de vestir era quase toda confeccionada em casa.

Da mestra Chica ficou-me uma certa fixação à ardósia, não só a do pequeno objecto de estimação, que continuo a ter em casa, na cozinha, e onde se tomam notas próprias do dia-a-dia, como a do grande “quadro preto” da sala de aula que me acompanhou, como aluno, da primária à universidade, e onde durante quatro décadas, como docente, escrevi a giz, ao tempo em que esse auxiliar pedagógico não tinha a concorrência de retroprojectores, diapositivos e de todos os equipamentos electrónicos que marcam presença no ensino dos dias de hoje.

segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Paleontologia rejuvenescida

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TEVE LUGAR em Torres Vedras, de 07 a 10 de Maio, o “VII Encontro de Jovens Investigadores em Paleontologia” (EJIP), última edição de um projecto iniciado no país vizinho, sob a designação de “Encuentros de Jóvenes Investigadores en Paleontologia”. Ao contrário dos congressos científicos, tradicionalmente participados por especialistas, onde se apresentam e discutem as contribuições mais recentes para o progresso do saber, estes encontros têm com objectivo primeiro aproximar os estudantes e os recém-licenciados aos problemas inerentes à investigação deste importante ramo da Geologia, nas suas diversas vertentes.

Como afirmam os editores do respectivo livro de actas (PALEOLUSITANIA # 01), a adesão aos encontros anteriores tem registado progresso significativo, o que constitui um bom indicador da importância que o EJIP tem vindo a adquirir ao longo dos últimos anos.

Igualmente, estamos a assistir em Portugal, na última vintena de anos, a um aumento crescente da importância da Paleontologia. Uma das alavancas reconhecidas como motores responsáveis por este dinamismo foi e continua a ser a mediatização, entre nós, do fenómeno dinossáurio, expresso através dos seus ossos e das suas pegadas, promovida pelo Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa.

Com tal actuação, amplamente apoiada pelos media, cresceu o número de alunos nas licenciaturas na área das Ciências da Terra interessados na Paleontologia, bem com o número de projectos de investigação e de doutoramentos neste domínio. São hoje, entre nós, muitos os estudos publicados e comunicados em reuniões da especialidade, testemunhos de uma crescente revitalização deste sector do conhecimento científico. As trilobites gigantes de Canelas (Arouca), as bilobites do Geoparque Naturtejo, as pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque), de Vale de Meios (Santarém), da Serra d’Aire e as ossadas de diversas espécies destes animais desaparecidos descobertas e escavadas em várias regiões do país, com destaque para Batalha, Lourinhã, Pombal e Torres Vedras, têm vindo, com frequência, para a televisão e para as primeiras páginas dos jornais. As exposições sobre temas de Paleontologia chamam ao dito Museu centenas de milhar de visitantes e são já poucos os jornalistas que nos tratam por arqueólogos.

Uma consequência deste ressurgir foi a decisão dos organizadores do Encontro, até aqui sempre reunido em Espanha, de o realizar em Portugal.
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«DN» de 20 de Junho de 2009

domingo, 14 de Junho de 2009

Ler nas rochas

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DE HÁ MUITO que buscamos utilidade nas rochas e em muitos dos minerais que as formam ou nelas ganham existência. Do sílex dos nossos mais primitivos avós ao quartzo piezoeléctrico dos relógios de pulso dos dias de hoje, ou do breu explorado e usado como combustível, há milhares de anos, na Mesopotâmia ao crude, ao gás natural e ao urânio consumido nas centrais nucleares da modernidade, sempre o homem as utilizou como bens que a Natureza colocou ao seu dispor. Mas as rochas não podem deixar de ser vistas também como documentos valiosos de uma história só através delas passível de ser desvendada.
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Todos aceitamos naturalmente um velho pergaminho, uma catedral, uma ruína ou qualquer vestígio pré-histórico como documentos de um passado mais ou menos antigo. Do mesmo modo, as rochas, na sua diversidade e modos de ocorrência, podem e devem ser entendidas como documentos de uma outra história bem mais remota que, em vez de séculos e milénios, se desenrolou ao longo de milhões e até de milhares de milhão de anos.
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As rochas testemunham uma evolução planetária profundamente antiga, feita de lavas incandescentes, de dilúvios intermináveis, de longos Invernos gelados, de desertos abrasadores e de catastróficas colisões com outros corpos seus irmãos no Sistema Solar. Falam-nos de continentes à deriva e revelam-nos oceanos que se abriram e fecharam, deixando como testemunhos sucessivas cadeias de montanha, umas já desaparecidas, outras mais recentes, de relevo vigoroso e em plena ascensão. Durante essa evolução a vida surgiu e progrediu, sofreu extinções mais ou menos generalizadas e profundas e recompôs-se sempre, até chegar aos milhões de espécies que caracterizam a actual biodiversidade. De tudo isto ficaram-nos testemunhos arquivados nas rochas que, assim, nos permitem investigar também a história da Vida a que deram berço e suportam. As rochas são, pois, a memória da Terra, memória que pode ser lida e contada, bastando para tal que se conheçam os caracteres dessa escrita.
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Como documentos da evolução do nosso planeta, desde a sua origem até os nossos dias, podemos ler nas rochas, à semelhança do que faz o paleógrafo ao descodificar velhos pergaminhos, do que todos fazemos nos livros ou do que faz o músico ao trautear uma partitura. Decifrar a história da Terra passa, pois, por saber ler nas rochas através dos seus minerais, dos seus fósseis e de outros elementos nelas conservados.
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Publicado no «DN» de 6 de Junho de 2009

domingo, 7 de Junho de 2009

Petra

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A PALAVRA PEDRA chegou-nos, do grego, através do latim, petra, que traduz a ideia de uma entidade natural, rígida, coesa e dura, a que também chamamos rocha. Petra é a antiga cidade da Jordânia repleta de monumentais ruínas escavadas na rocha e Petróleo é o óleo saído do chão, de dentro das pedras, assim como o carvão-de-pedra é o que se extrai das entranhas da Terra, como se de pedra se tratasse. Petrologia é a ciência que estuda as rochas e petrólogos os seus cultores. Petrificados ficamos quando uma notícia nos gela o sangue e nos imobiliza. Petrificados estão os fósseis, ou seja, os restos dos seres vivos do passado que chegaram até nós. Pedra de moinho, pedra de afiar ou de amolar, pedra preciosa, pedra lascada e pedra polida, Idade da Pedra, pedra-mármore, pedra-pomes, pedra-ume, pedra-sabão, chuva de pedra, pedrinha de sal, pedrada, pedra no sapato são expressões que caracterizam o conceito empírico que todos temos de pedra como rocha. De pedra eram a ardósia e o lápis em que esboçámos as primeiras letras, sendo curioso assinalar que lápis, do latim lápis, também quer dizer pedra.

Empedernido diz-se daquele que é insensível como a pedra e pedernal ou pederneira é o sílex, que os nossos avós usavam nos bacamartes, ou que os tetravós destes lascavam, fazendo machados, facas e pontas de seta.

Pedra angular quer dizer fundamento, base ou suporte. Pedro, nome de gente, vem de pedra. «Tu és Pedro e sobre ti levantarei a minha Igreja» disse Jesus ao discípulo. São Petersburgo é o nome da antiga Petrogrado, na Rússia, em homenagem a Pedro, o Grande, e Petrópolis é a cidade brasileira assim chamada em memória do seu primeiro imperador, D. Pedro II de Portugal.

Pedra filosofal ou da sabedoria, que em árabe se diz, al kimia, foi o lema de um saber notável durante a Idade Média, nem sempre devidamente valorizado, onde radicam ciências como a Química e a Mineralogia.

Pedrógão, Alter Pedroso, Pedrouços e Pedrulha são topónimos relacionados com pedras. Aumentativo de pedra, pedrão deu padrão, o marco que os nossos navegadores deixaram na rota dos descobrimentos. Pêro é o nome arcaico de Pedro e Peres são os seus descendentes. Pêro Vaz de Caminha e Pêro da Covilhã são nomes conhecidos da nossa história e Pêro Botelho é o Diabo que não pára de rugir na caldeira que tem o seu nome, no sítio das Furnas, na ilha açoriana de S. Miguel. Peroliva, Peramanca e Perafita são nomes de sítios do Alentejo que evocam grandes marcos de pedra, através do prefixo pera, que traduz a mesma ideia. Tais pedras ou eram verdes (oliva) ou estavam mancas, isto é, tombadas, ou ainda se mantinham fitas, maneira antiga de dizer erguidas, na postura fálica em que as colocavam os nossos antepassados do período megalítico e que os pré-historiadores franceses divulgaram sob o nome de menhires, mantendo a expressão original bretã, men hir, que significa pedra comprida.
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Ampliação do texto publicado no «DN» em 6 de Junho de 2009

domingo, 31 de Maio de 2009

O Pirolito

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ENTRE GEÓLOGOS com menos de cinquenta anos de idade, quando se fala de pirolito (ou pirólito, como alguns preferem acentuar) apenas vem ao pensamento uma hipotética rocha do manto terrestre a partir da qual se segrega o basalto, de que temos boa representação nos Açores, e muito afim do que abundantemente se derramou na região entre Lisboa e Mafra, há pouco mais de 70 milhões de anos.
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Mas para mim, que vivi as minhas infância e adolescência nos anos 30 e 40 do século que passou, e para os homens e mulheres da minha geração, pirolito era um popular refrigerante, uma gasosa do tipo Seven-Up, contida numa garrafa de vidro muito especial. Especial, em primeiro lugar, porque não tinha rótulo nem a tradicional carica das gasosas e cervejas desse tempo e dos dias de hoje. Em sua substituição tinha um berlinde. Empurrado de baixo para cima, sob a pressão do gás, esta perfeita esfera de vidro colava-se a uma anilha de borracha junto ao gargalo, vedando eficazmente a dita garrafa. Especial era, ainda, a forma deste vasilhame, fabricado num vidro transparente esverdeado, testemunhando um certo grau de impureza da areia usada como matéria-prima. Impureza que os industriais vidreiros sabem ser devida a um certo teor de ferro que caracteriza alguns minerais habitualmente associados ao quartzo, o mineral francamente dominante das nossas areias. Essa forma distinguia-se por um estrangulamento abaixo do gargalo que impedia o berlinde de cair para o fundo, ficando ali a badalar, numa sonoridade vítrea, inesquecível, sempre que a bandeávamos, num gesto que nunca deixávamos de repetir.
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Ainda na vidreira, com o vidro quente e ainda deformável, o artífice fazia-lhe o dito estrangulamento e introduzindo sobre ele o berlinde. Só depois afunilava o gargalo, deixando prisioneira aquela bolinha tilintante. Depois, na fábrica do refrigerante, a gasosa era introduzida na garrafa virada de boca para baixo e, uma vez concluído o enchimento, o berlinde caía, colando-se à anilha, por efeito da pressão do gás. Podia-se, finalmente, endireitar a garrafa, metê-la numa das doze células das muitas grades de madeira, em que viajavam a caminho dos estabelecimentos onde eram servidas a rapazes, raparigas e mulheres. Os homens bebiam cerveja.
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Sempre que uma destas garrafas se quebrava, aproveitava-se o berlinde para jogar um jogo praticado no chão, em terra batida. Um jogo que vinha de gerações anteriores, hoje quase esquecido e que entreteve, horas e horas, anos a fio, os rapazes da minha geração.

Por falar em berlinde, ocorre-me um episódio protagonizado por um dos mais ilustres geógrafos portugueses. Foi na Reitoria da Universidade de Lisboa, por volta dos anos 60 do século que virou. Corriam as provas de doutoramento de um jovem assistente da Universidade de Coimbra. Fazendo uso de um discurso correcto e, até, brilhante, este doutorando não dispensava, a propósito de tudo e de nada, de aludir às suas proezas como desportista em diversas modalidades. Terminada a exposição e iniciada a argumentação, o meu saudoso mestre Orlando Ribeiro, no seu reconhecido bom humor e na sua verbal eloquência, disse, a certa altura da sua intervenção, dirigindo-se ao candidato a doutor, algo que procuro transcrever de memória, mas que respeita o essencial: «Não posso também deixar de o felicitar pelas suas qualidades desportivas. Felicito-o tanto mais porque, devo confessar, o único desporto que pratiquei foi o berlinde mas, mesmo assim, perdia sempre!»

domingo, 24 de Maio de 2009

Museu Geológico

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PATRIMÓNIO DE UMA RESPEITADA e saudosa instituição pioneira, nascida em 1857, sob o reinado de D. Pedro V, com a designação de Comissão Geológica do Reino, o Museu Geológico é a memória, que teima em não morrer, de uma instituição que prestigiou o País durante cerca de um século e meio, inexplicavelmente extinta em 2003, num grave atentado à Geologia portuguesa e sentida ofensa aos seus cultores.
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Nos tempos mais recentes, que me foi dado testemunhar, e sob a designação oficial de Serviços Geológicos de Portugal (desde 1917), foi notável a parceria que esta nobre instituição desenvolveu com as universidades nacionais, em especial com a de Lisboa, sobretudo, através dos professores Carlos Teixeira, Orlando Ribeiro e Torre de Assunção, meus mestres. A cartografia geológica do território nacional teve então progressos reconhecidos. Foram muitos os docentes desta Universidade que concluíram os seus doutoramentos com o suporte logístico dos Serviços Geológicos, e foram muitos os geólogos destes mesmos Serviços que se doutoraram na Universidade de Lisboa sob a orientação científica de alguns dos seus professores.
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Por portaria oficial de 1859, a velha Comissão Geológica do Reino ficou instalada em Lisboa, no 2º piso do edifício do antigo Convento de Jesus, na Rua da Academia das Ciências, e é aí que resiste o Museu Geológico, uma relíquia do século XIX, que não pode deixar de ser visitado. Este, que é o mais completo e valioso arquivo da geodiversidade portuguesa, foi constituído aquando da criação da citada Comissão, em especial, a partir dos exemplares colhidos pelos pioneiros e grandes vultos nacionais das Ciências da Terra, Carlos Ribeiro, Nery Delgado, Paul Choffat e por muitos outros que lhes seguiram as pisadas.
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Além do seu enorme valor científico, tem grande interesse histórico e museológico, uma vez que foi nas suas instalações que nasceram a Geologia e a Arqueologia portuguesas, como escreveu o Prof. Magalhães Ramalho, o seu incansável defensor e actual director. Igualmente, a vastidão das salas, o mobiliário e o modelo expositivo muito marcado pelas concepções museográficas e pelo estilo da época, conferem-lhe um carácter único no País, cuja importância patrimonial é reconhecida por especialistas dos vários cantos do mundo.
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As suas vastas colecções, nomeadamente, as de Paleontologia, Estratigrafia, Arqueologia e Pré-história do Homem, revestem-se de grande interesse científico como material de referência, continuando abertas aos investigadores nacionais e estrangeiros.
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Visita a não perder.

domingo, 17 de Maio de 2009

SENHOR ENGENHEIRO

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- Ser engenheiro em Portugal é ser cidadão de primeira -, dizia um velho amigo meu, com anos e anos de trabalho de campo, nos saudosos Serviços Geológicos de Portugal, calcorreando montes e vales, umas vezes pela torreira dos estios, outras, por entre chuva, lama, e geadas de engadanhar pés e mãos, longe dos cómodos do lar, onde vinha aos fins de semana para estar com mulher e filhos e mudar de roupa.
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- É vê-los na política, nos conselhos de administração e em tudo o que são bons tachos -, dizia e continuava a desabafar. - Até num serviço como o meu, em que a geologia foi e continua a ser a razão de ser da sua existência, quem é que decide e manda? É um geólogo? Não! É um engenheiro, claro!
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Não é difícil perceber que esta era a razão principal daquela “pedra no sapato” do meu amigo geólogo, não só de profissão, mas também de coração, face à classe dos engenheiros. Nada que se compare com o tempo de permanência no terreno cumprido por este meu colega, também eu somei dias, semanas e meses de trabalho de campo, nos fins-de-semana e férias de anos e anos de docência. Numa destas andanças, fui protagonista de um episódio que dava razão a este meu amigo. Um belo dia, nos anos 70, andava eu entre a Vidigueira e Marmelar, de martelo na mão e uma bússola de geólogo pendurada ao pescoço, marcando, na Carta Militar 1:25 000, a natureza dos terrenos que ia reconhecendo, quando um pastor, acomodado à sombra de um sobreiro, curioso de me ver por ali naqueles preparos, meteu conversa comigo na sequência do «boa tarde» que lhe dirigi.
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- Então o senhor engenheiro aguenta este sol, sem chapéu na cabeça?
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Conversa puxa conversa e o homem sempre a tratar-me por engenheiro, até que resolvi dizer-lhe:
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- Olhe, amigo, não me trate por engenheiro, que é coisa que não sou. Engenheiros são esses fulanos que andam aí a marcar os pontos para as estradas e para os postes das linhas de alta tensão.
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A esta resposta, que não esperava, o pastor mirou-me de alto a baixo, intrigado.
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- Então, vossemecê não é engenheiro? Estão, não é nada? Tem de ser qualquer coisa que eu não estou a ver o que seja, - disse, por fim, como que a solicitar-me que lhe satisfizesse a curiosidade.
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Expliquei-lhe, então, o que fazia. Falei-lhe do terreno areento que tínhamos debaixo dos pés, do barro que havia bem perto dali e que se tornava lama pegadiça no Inverno, dos seixos, bem visíveis e abundantes à superfície do solo, semelhantes aqueles que se viam lá em baixo, na ribeira. Expliquei-lhe o porquê dessa semelhança e acrescentei:
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- As pessoas que, como eu, trabalham no campo, a ver e a estudar as rochas, chamam-se geólogos. Assim como há médicos e advogados, há geólogos. É uma profissão como outra qualquer.
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- Sim senhor -, respondeu, - agora já entendi.
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A sombra do Quercus era agradável e convidava à conversa. O badalar de um ou outro chocalho era relaxante e relaxante era também o rafeiro, sonolento, estendido ali ao lado. Sentado no chão e encostado a uma cortiça de nove anos, pronta a arrancar, ali fiquei com ele à conversa até à hora a que o Land Rover me aguardava no sítio combinado da estrada, pondo fim a mais um dia de trabalho de campo.

domingo, 10 de Maio de 2009

Açores, um laboratório vulcanológico desaproveitado

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Vulcão do Pico
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JÁ O TENHO ESCRITO por diversas vezes e afirmado em vários fóruns que é lamentável que não se promova uma certa regionalização no ensino da Geologia, nesta e noutras parcelas do território nacional. Aqui, onde o programa oficial é exactamente o mesmo que vigora nas escolas do continente, os professores, ao cumpri-lo obrigatoriamente, não lhes resta tempo para abordar, sequer, a única matéria face à qual dispõem de exemplos didácticos bem concretos, variados e abundantes.
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No conjunto das suas nove e belas ilhas, os Açores são um laboratório vulcanológico do maior interesse, excepcional, tendo em conta, não só as múltiplas expressões de uma prolongada e complexa actividade vulcânica passada e presente, como também o quadro tectónico, à escala global, onde se inserem, dada a sua localização no encontro de três grandes placas litosféricas (americana, eurasiática e africana), num chamado “ponto triplo”, sobreposto a um muito provável hot spot (ponto quente), entendido como uma imensa fonte de calor em profundidade, no manto superior, e sem esquecer as investigações em curso nos fundos marinhos envolventes, com destaque para o hidrotermalismo a nível do substrato oceânico.
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Vêm estas considerações a propósito da recente instalação, no Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA), em São Miguel, de um terminal electrónico que vai possibilitar ao cidadão, em geral, e aos estudantes, em particular, a observação em tempo real de alguns vulcões activos neste nosso planeta e ouvir as explicações que sobre eles são dadas por especialistas. Inserido na Rede Vulcanológica Internacional, o OVGA é mais um argumento a favor desta possibilidade de permitir à Região Autónoma promover o ensino, a sério, da Vulcanologia e demais temas a ela associados, nomeadamente, Petrologia, Geoquímica, Geodinâmica, Sismologia, Geotermia, entre os mais destacáveis.


Caldeira de colapso do Faial
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Cones vulcânicos imponentes e embrionários, testemunhos dos mais variados tipos de actividade, desde as escoadas lávicas de basalto às violentamente explosivas, com pomitos e ignimbritos, caldeiras de colapso, macro e microssismos, fumarolas e outras expressões de vulcanismo residual, há de tudo nestas belas paisagens da Macaronésia.
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E uma coisa é certa. A experiência mostra que um ensino deste tipo, praticando e aprofundando um dado tema, cria hábitos de trabalho e incentiva a procura da excelência, com reflexos positivos numa melhor atitude face às restantes disciplinas curriculares.

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«DN» de 9 de Maio de 2009

domingo, 3 de Maio de 2009

Cientistas em acção

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NOS DIAS 22 A 24 DO MÊS QUE PASSOU, teve lugar em Estremoz, no Centro de Ciência Viva desta cidade alentejana do mármore, o 4º Congresso Nacional de Cientistas em Acção, um evento de elevado alcance pedagógico dirigida aos nossos juvenis e adolescentes dos ensinos básico e secundário, público e privado, ao qual acorrem alunos oriundos dos mais variados pontos do País. Com o intuito declarado e, do meu ponto de vista, conseguido, este encontro, a todos os níveis inédito entre nós, visa desenvolver o contacto e a partilha de ideias entre estes estudantes, entre eles e os professores acompanhantes e os organizadores do Congresso, no essencial, universitários com larga experiência no âmbito da cultura científica e tecnológica. Pretende-se, assim, atrair jovens para a Ciência e a Tecnologia, tanto nas vertentes da investigação como nas do desenvolvimento, para além da inovação ao espírito científico, através da concepção e realização de pequenos projectos nestas áreas do conhecimento.
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É fascinante e, até, comovente, assistir ao empenho, à seriedade com que, em particular, os mais pequeninos, 1º ciclo, apresentam e discutem os resultados das suas experiências e das suas pesquisas efectuadas nos mais variados tipos de documentos em papel ou electrónicos.
Tem tudo, como os dos crescidos, este congresso de iniciados. Tem moderadores, tempos de apresentação e de debate e, pausa para “café”que, na realidade, é para sumos e bolos secos. Tem apresentação de painéis e maquetas, Livro de Resumos e um crachá dos modernos, de pendurar ao pescoço. Das 39 comunicações, 16 foram trazidas pelas crianças dos 1º e 2º ciclos, 14 pelos do 3º e 9 pelos do Secundário. Os temas cobriram temas tão variados como “Efeito da Música nas Plantas”, Mecânica dos Fluidos” e “Aldeia Auto-sustentável”. São três dias de festa, sobretudo para os mais pequenos. Nas pausas de almoço e entre as sessões, as correrias alegremente ruidosas no velho e belo claustro do convento das Maltezas – edifício que alberga o citado Centro de Ciência Viva – contrastam com o silêncio e a compostura nas sessões de trabalho. Inscrições e estadia foram gratuitas, como já é costume. As instituições patrocinadoras locais encarregam-se desse “pormenor”, sem o qual nada disto seria possível.
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Grande exemplo a ser seguido por esse País!
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Estão de parabéns o dinâmico Centro de Ciência Viva, a Universidade de Évora e a Câmara Municipal de Estremoz.
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«DN» de 25 de Abril de 2009

domingo, 26 de Abril de 2009

Gravar Zeca por cima de Ravel

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NESSE TEMPO, há precisamente 35 anos, ainda conservava o hábito, que me ficara da juventude, de estudar até tarde, pela noite fora, com música de fundo num rádio-gravador portátil. Fora assim também em Paris, na preparação do doctorat en Sédimentologie e, mais tarde, em Lisboa, com a redacção da tese que me casou com a Universidade. Era o contrário do que faço agora, que acerto o horário pelo das galinhas, sendo na solidão e no sossego da madrugada que gosto de escrever. De igual entre esse tempo e o de agora, só a rádio com música de fundo.
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Se fosse hoje, tinha sido dos primeiros a ouvir o comunicado do Movimento das Forças Armadas, que viria a chamar-se Movimento dos Capitães. Mas ouvi “E depois do Adeus”, pelo Paulo de Carvalho, por mero acaso, numa daquelas muitas rodagens do botão do condensador, em busca do tal fundo musical. Porque sempre apreciei a sua belíssima voz, detive-me a ouvi-lo, na íntegra, sem saber que estava atento à senha que “abriu Abril”. Mas não ouvi a “Grândola”, pois já sintonizara uma qualquer música a contento. Recordo-me que estava a escrever um texto que foi inserido no livro de homenagem ao professor Orlando Ribeiro. Fruto de um trabalho que me proporcionou um prazer imenso, nessa noite eu estava a redigir uma análise comparada das fisionomias da Terra e da Lua, desenvolvida a partir das respectivas situações e características planetárias, no contexto do Sistema Solar. E, como de costume nesse tempo, deitei-me tarde.
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Dormia muito bem, quando a Isabel me acordou, excitada.
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- Acorda! Parece que há um golpe militar. Telefonou-me agora uma aluna. Diz que há tropas a entrarem na cidade, mas que não sabe de que lado estão.
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Instantes depois, preparava-me para pegar no telefone em busca de respostas, quando este voltou a tocar. Era um amigo.
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- Liga a rádio! - exclamou, entusiasmado. – Desta vez é a valer! São dos nossos!
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- Tens a certeza? Não será uma golpaça dos ultras?
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- Não! Garanto-te que são dos nossos! - E ele lá tinha as suas razões.

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Daí a momentos, ouvia-se a voz inconfundível do Luís Filipe Costa – “Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas” - logo seguida do inesquecível “On the waves”, que nos ficou como uma das marcas musicais mais profundamente gravadas dessa madrugada e dos dias de regozijo colectivo que se lhe seguiram, em festejo do fim do sufoco que foi a vida dos portugueses da minha geração.
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Sucediam-se os comunicados, intercalados por marchas militares e por aquelas cantigas, até então proibidas, do Zeca, do Mário Branco, do Luís Cília. Atento, eu ouvia e gravava, saltando de estação em estação. Como não tinha cassetes disponíveis, disse adeus ao Daphnis e Cloé, de Ravel, à Missa nº 1, de Bruchkner, e às Quatro Estações, de Vivaldi.
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Ainda conservo estas gravações e na primeira, cuja etiqueta não apaguei, em vez dos acordes melodiosos do poema sinfónico do compositor francês, ouvem-se as passadas firmes e cadenciadas do grupo coral alentejano a iniciar a libertadora “Grândola, Vila Morena”.
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Às nove horas saí de casa em busca de jornais e de convívio. As certezas da vitória avolumavam-se e a rua era uma romaria a crescer. Daí a pouco os cravos vermelhos floriam nas espingardas dos soldados, radiantes, fraternos e orgulhosos, e começava a ouvir-se «o povo, unido, jamais será vencido!». Recordo os risos, as lágrimas e os abraços dessa manhã radiosa.
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Nesse dia eu deveria receber, das mãos do Reitor da Universidade, o meu diploma de doutoramento e o anel de pedra azul celeste (uma espinela sintética a fingir água-marinha), a cor de Ciências, com as insígnias da Universidade, um martelo, uma trilobite e um dinossáurio gravados no ouro. A cerimónia, como não podia deixar de ser, foi adiada. Em casa, frente à televisão e com o rádio-gravador ao alcance da mão, e cassetes novas que fora comprar, gravei tudo o que me foi possível, relatos, comunicados, declarações, músicas libertas da proibição, auxiliado pelo Nuno, que ainda não tinha sete anos mas já manejava, à perfeição, estes equipamentos. O Rui, a caminho dos cinco, fazia bases e naves espaciais no meio de um mar de peças de lego espalhadas no chão.
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Texto retirado do livro do autor, “FORA DE PORTAS – Memórias e Reflexões”, Âncora Editora, Lisboa, 2008

domingo, 19 de Abril de 2009

Darwin tinha razão

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CONTRA A VISÃO DA IGREJA DE ENTÃO, que impunha para a idade da Terra uma cifra de escassos milhares de anos, o escocês James Hutton (1726-1797), considerado o pai da moderna Geologia, afirmava que os fenómenos geológicos tinham durações de muitos e muitos milhões de anos. Charles Lyell (1797-1875), continuador do pensamento de Hutton, advogava a necessidade de um tempo geológico suficientemente longo que permitisse explicar a grandiosidade dos efeitos da erosão e as consideráveis espessuras de sedimentos acumulados, na ordem de milhares de metros.
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No século seguinte desabrochava uma nova concepção da vida, para a qual a evolução biológica exigia muitíssimo tempo, constituindo um outro sério desafio aos ensinamentos da Igreja. Charles Darwin (1809-1882) encontrava nesta visão dilatada do tempo o suporte necessário às suas ideias sobre a evolução das espécies. Com base em estimativas várias, este ilustre naturalista chegou a valores na ordem das centenas de milhões de anos para o tempo geológico.
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Entretanto, o físico inglês, William Thomson (1824-1907), mais conhecido por Lord Kelvin, debruçava-se sobre a relação entre a temperatura interna do planeta, que supunha em arrefecimento, e a sua idade. Usou neste propósito os seus vastos conhecimentos de termodinâmica e o cálculo matemático, tendo estimado entre 20 a 98 milhões de anos o nascimento do nosso planeta, acrescentando que ele se teria tornado habitável há 20 a 40 milhões de anos.
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Confrontada entre estes números, saídos da física por via matemática, e os outros, estimados por naturalistas a partir de valores supostos de velocidade de erosão ou de sedimentação, a comunidade científica da época não hesitou. Os números de Kelvin, tidos por mais credíveis, arrasaram a vastidão do tempo pressuposta na concepção de Darwin, fazendo baixar drasticamente a idade da Terra, Aparentemente irrefutáveis, as premissas físicas utilizadas por Kelvin e a vénia pela matemática conduziram a valores que geólogos e biólogos não podiam aceitar.
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Com a descoberta da radioactividade, em 1896, passou a saber-se que os minerais com elementos radioactivos fornecem calor às rochas que os contêm. O calor da crosta terrestre não é apenas um calor residual da fornalha primitiva. É também o resultado da radioactividade associada às rochas. Foi o fim do arrefecimento global que serviu de fundamento aos cálculos do físico . Os valores para a idade da Terra (4570 milhões de anos), hoje aceites pela comunidade científica, dão plena razão ao ilustre naturalista, bem como ao igualmente ilustre geólogo James Hutton.

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«DN» de 11 de Abril de 2009

domingo, 12 de Abril de 2009

“Quanto mais radioactiva, melhor”

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JÁ LÁ VAI O TÃO AFAMADO tempo das termas e das águas medicinais, um privilégio de uns tantos, nascido em finais do século XIX. Preteridas progressivamente pela imensa, poderosa e democratizada oferta turística associada ao litoral e, sobretudo, às praias, as que ainda existem são relíquias da arquitectura e exploração hoteleiras do primeiro quartel do século XX. A par do seu uso, nos próprios locais, com instalações adequadas, algumas dessas águas passaram a ser comercializadas engarrafadas. Captadas, entre outras, ao longo de uma importante falha geológica, a mesma rotura da crosta terrestre que determinou a extensa depressão que se estende, para norte da Régua, até Verin (Ourense), já em Espanha, passando pela bela e fértil veiga de Chaves. Estas águas, ao circularem no granito, recebem dele, por contaminação, uma certa dose de radioactividade a níveis que, parece estar provado, não têm efeitos indesejáveis sobre a saúde de quem a bebe.
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Recuando à passagem do século XIX ao XX, com a descoberta da radioactividade, por Becquerel, em 1897, e do rádio, pelo casal Marie e Pierre Curie, em 1902, vamos assistir à utilização deste elemento químico radioactivo, associado ao urânio (elemento que, nessa altura, era considerado um material sem qualquer utilidade) na nossa mina da Urgeiriça (Nelas), numa então novíssima terapêutica, a designada radioterapia, ainda hoje aplicada em oncologia, já não com o dito elemento rádio, mas com substitutos mais eficazes e de manipulação menos perigosa, como é, por exemplo, o cobalto radioactivo. Radioactividade era, assim, nesses anos, o dernier cri em medicina. Como tal, a palavra tinha uma conotação altamente positiva, tendo-se tornado comercialmente interessante. Neste enquadramento, assistiu-se à valorização deste processo natural na publicidade destas águas que, além de carbonatadas sódicas e carbogasosas, com base em análises disponibilizadas pela então Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos, passaram a estar rotuladas, de “fortemente radioactivas”.
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Nessa época ninguém imaginava o que viriam a ser, anos depois, os trágicos acontecimentos de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, com mais de 200 000 mortes de civis. Com esta tragédia a radioactividade passou, de imediato, a estar associada à bomba atómica, uma associação sempre renovada com os lamentáveis acidentes em centrais nucleares como foram os de Three Miles Island, na Pensilvânia, em 1979, e de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. Radioactividade tornou-se, assim, palavra proscrita e, nessa medida, a sua alusão nos rótulos e na publicidade destas águas desapareceu como por encanto.

quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Património geológico do Alentejo

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Pulo do Lobo

O CHÃO QUE PISAMOS NO ALENTEJO, desde a planície a perder de vista aos alcantilados rochosos da Serra de S. Mamede, não foi sempre como hoje se nos apresenta. Mudou radicalmente no decorrer de uma velhíssima história geológica. Com as suas planuras, vales e serranias, a paisagem alentejana, bem como a de todo o interior do País e da Península Ibérica, é o que resta de uma grande cadeia montanhosa, com mais de trezentos milhões de anos, que percorreu o que é actualmente o sul da Europa e o noroeste africano. Quase completamente arrasada pela erosão no decurso dos tempos que se lhe seguiram, pôs a descoberto toda a complexidade das suas entranhas, hoje esventradas, de que fazem parte diversos tipos de rochas geradas em profundidade, a partir de magmas incandescentes, e muitos outros, representados por rochas formadas nos mais diversos ambientes, desde desertos áridos e florestas tropicais a mares quentes e frios, litorais e profundos, etc., muitas delas transformadas ao longo dessa imensidade de tempo. Esta grande cadeia de montanhas resultou, por seu turno, do enrugamento e elevação de milhares de metros de espessura das respectivas camadas rochosas, a maior parte das quais acumuladas no fundo de um grande oceano que aqui existiu há mais de 600 milhões de anos e que se fechou na altura, à semelhança do que está a acontecer ao Mediterrâneo, com a consequente elevação dos Alpes e das montanhas a eles associadas.
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Temos, pois, aqui documentos de uma longa e complexa história que sabemos e podemos contar.
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Dos antiquíssimos terrenos da região de Arronches - Campo Maior, terras emersas ao tempo desse oceano, às actuais planícies aluviais do Sado, com escassos milhares de anos, estão representadas, nesta que é a maior província de Portugal, formações geológicas de todas as eras da história da Terra.
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Os mármores de Estremoz - Vila Viçosa, Viana e Trigaches, a Faixa Piritosa, em especial, em Aljustrel e na região de Neves - Corvo (Castro Verde - Almodôvar), importantes reservas de cobre, estanho, zinco e chumbo, e, ainda, a perspectiva animadora de exploração do ouro em Montemor-o-Novo, constituem georrecursos mineiros da maior importância para o país. Mas, para além deste valioso património económico no domínio da actividade extractiva, são muitas as ocorrências geológicas espalhadas por este “Aquém - Tejo” com valor como georrecursos culturais, classificáveis como monumentos naturais, na medida em que são documentos decifráveis, tantas vezes grandiosos e espectaculares, dos mais variados episódios de uma história muito antiga, não só local e regional, como nacional e, por vezes, global. Com dimensões que vão de um simples afloramento rochoso, a um sítio ou a toda uma paisagem, tais monumentos continuam à espera de ser convenientemente salvaguardados, antes que o progresso civilizacional, o betão e o asfalto os engulam e destruam para todo o sempre. Numa época em que os Parques Geológicos e o Turismo de Natureza proliferam por todos os países com preocupações ambientais, urge localizá-los, valorizá-los e dotá-los de condições de visibilidade para fruição por parte do grande público, permitindo-lhe conhecer a sua história mais antiga e, ainda, uma melhor integração no todo natural.
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Sem esquecer uma parte importante do Geoparque Naturtejo (uma honrosa realidade no nosso território), incluem-se, entre as mais conhecidas ocorrências, algumas pedreiras e minas desactivadas ou esgotadas, como as do Lousal e São Domingos, que, para além dos aspectos geológicos, guardam testemunhos relacionáveis com a vida das respectivas populações, numa espécie de arqueologia industrial do maior interesse histórico, etnográfico e sociológico.

domingo, 5 de Abril de 2009

Embrujo de Sevilha

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CORRIA O ANO DA GRAÇA de 1959, há precisamente meio século, era eu aluno finalista e estagiário, como auxiliar de investigação, no Centro de Geologia Pura e Aplicada, dirigido pelo professor Carlos Teixeira, quando, para grande alegria minha, o director me incluiu na representação portuguesa ao Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências, a decorrer em Sevilha. Nessa altura eu tinha entre mãos o estudo sedimentológico de um conjunto de amostras dos depósitos areno-argilosos que colhera no decurso de uma excursão à Bacia do Mondego, na invejável companhia dos professores Pierre Birot e Orlando Ribeiro e do filho deste último, António, o meu colega e amigo de há meio século, nesse tempo ainda estudante, como eu. Esta excursão, guiada por estes dois mestres, pioneiros numa metodologia dos estudos geomorfológicos, substancialmente assente no cabal conhecimento dos materiais sedimentares resultantes da erosão do relevo, foi decisiva na escolha da linha de investigação que caracterizou o essencial da minha actividade profissional. Foi nesta linha que me iniciei no estudo sedimentológico dos referidos materiais e que, com base nele, preparei a minha primeira comunicação científica. Foi também a primeira vez que saí para o estrangeiro, tendo conhecido uma Espanha pobre, mais pobre do que nós, ao contrário dos dias de hoje. Os trabalhos do Congresso decorreram normalmente e dele apenas me lembro do quase incontrolável nervosismo que me dominou até ao momento em que o moderador me chamou para apresentar o que foi o meu primeiro trabalho científico.
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À margem do congresso ficou-me, bem gravado na memória, um episódio protagonizado por uma jovem assistente da nossa Faculdade, também ela congressista. Vivia-se uma época em que era frequente adquirir certos artigos espanhóis, trazidos por contrabandistas e chegados ao consumidor através de mecanismos que não interessa agora analisar. Um desses artigos era o Embrujo de Sevilla, apreciadíssimo perfume da Myrurgia, uma poderosa concorrente das grandes marcas francesas de então.
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Acontece que esta jovem não sabia que embrujo, em castelhano, quer dizer encantamento. Para ela, significava, pura e simplesmente, “embrulho”. E foi com esta ideia em mente que entrou numa perfumaria, na Sierpes e, trocando, subsconscientemente, embrulho por cartucho, se dirigiu ao balcão e, com aquele à vontade dos portugueses que julgam saber falar castelhano, pediu, num “portunhol” que lhe pareceu adequado, um frasco de “Cartucho de Sevilha”.
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Pela sonoridade da expressão pronunciada por esta portuguesa, a senhora que a atendeu não teve dúvida em perceber o que ela queria.
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- Embrujo de Sevilla, quiere usted decir!
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- É isso, desculpe – anuiu, descontraidamente, a nossa compatriota, que pagou e saiu satisfeita por ter comprado ali um bom perfume e a um preço muito mais em conta do que o que pagava em Lisboa.

domingo, 29 de Março de 2009

Inter e transdisciplinaridade em geologia

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TENDO COMO OBJECTIVO o conhecimento da história da Terra e da Vida, no contexto da realidade física do Universo, a Geologia é um dos ramos científicos que mais tem recorrido à interdisciplinaridade. E, ao procurar a unidade do saber na perspectiva da globalidade do real, a Geologia segue também os caminhos da transdisciplinaridade, tal como a definiu G. Berger, em 1972. Com efeito, não é possível abarcar a complexa e longa história do planeta (cerca de 4600 milhões de anos) sem o recurso às muitas disciplinas que a integram, entre outras, Física, Química, Biologia, e, ainda, disciplinas do âmbito da Matemática, como Probabilidades e Estatística, Cálculo Vectorial, Cálculo Tensorial, etc. A demonstrá-lo estão alguns dos mais importantes domínios da Geologia, como, por exemplo, Mineralogia, Cristalografia, Petrologia, Geoquímica, Geofísica, Tectónica, Geocronologia, Paleontologia, Estratigrafia, Vulcanologia e, ainda, nos de carácter tecnológico e aplicado como a Hidrogeologia e a Geologia de Engenharia, entre outros.
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Restringindo-nos à realidade que nos é dada observar à superfície da Terra, citam-se, como demonstração destas interdisciplinaridade e transdisciplinaridade:
.........as rochas e os minerais, o seu quimismo, as leis da Termodinâmica que lhes ditam as respectivas naturezas e, ainda, a Física do Estado Sólido no que se refere às estruturas cristalinas;
.........a alteração das rochas e os solos, com os inúmeros factores físico-químicos e biológicos intervenientes (dilatação e contracção térmicas, solubilidade, hidrólise, oxidação–redução, bioquimismo associado à matéria orgânica, à fauna e à flora do solo, etc.);
.........a erosão, o transporte e a sedimentação, face às leis da Mecânica Clássica (newtoniana), no campo gravítico terrestre, com relevo para as estudadas no domínio da Hidráulica;
.........os fósseis e a respectiva sistemática, como veículos ao estabelecimento da história da biodiversidade;
.........a elevação das montanhas, o vulcanismo e os sismos, como manifestações do calor interno do planeta através, nomeadamente, da convecção térmica;
.........a planetologia comparada, e as leis fundamentais da Física e da Química, a Astrofísica, a Astroquímica;
.........as explorações mineiras, do petróleo, dos aquíferos subterrâneos e geotecnia, e as suas inevitáveis ligações à Economia, à Sociologia e às Ciências Políticas.
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Nestes termos, a Geologia, para além dos aspectos científicos fundamentais e dos aspectos práticos indispensáveis às sociedades humanas, tem vindo e vai continuar a dar resposta a problemas importantes habitualmente formulados no domínio da Filosofia.

domingo, 22 de Março de 2009

Divulgação científica e cidadania (Recordando Rómulo de Carvalho)

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DIVULGAR, NO SENTIDO DE ESPALHAR conhecimento entre o vulgo, pressupõe formas de comunicação acessíveis ao comum das gentes e, assim, a linguagem a usar, falada, escrita, audiovisual ou outra, tem de ser simples, sem perda de rigor, apelativa e agradável. Facultar e receber conhecimentos são acções que devem ser entendidas como actos de prazer, mas também de cidadania.
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Divulgar conhecimento científico entre os meus concidadãos de todas as idades e das mais variadas condições sócioculturais, prática que cultivei com relativa frequência, foi algo que procurei exercer em paralelo com a minha actividade profissional. Foi esta a melhor forma que encontrei para concretizar a minha maneira de estar, ao mesmo tempo, na Ciência e na Sociedade. Tudo começou há pouco mais de seis décadas, como adolescente, curioso de saber, mais amante dos campos e de suas gentes do que da instituição escolar que, então, tinha por desinteressante e rígida.
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Foi, com efeito, no meio rural que despertei para o gosto da divulgação do saber, gosto que me ficou e procurei desenvolver a par de uma intensa actividade igualmente gratificante de investigação científica e ensino na Universidade. Com alguns destes conterrâneos troquei os meus ensinamentos escolares com os seus conhecimentos frutos da experiência sentida e vivida na natureza. Eu explicava-lhes as diferenças entre fanerogâmicas e criptogâmicas, angiospérmicas e gimnospérmicas, tal como as aprendera nas aulas e nos meus livros, eles davam nomes a todas as ervas, arbustos e árvores das redondezas, distinguiam os cogumelos comestíveis dos venenosos e conheciam os ritmos fisiológicos de plantas e animais induzidos pelas variações climáticas decorrentes das quatro estações do ano. Eu descrevia-lhes a fermentação e eles abriam-me os sentidos aos odores e ao calor exalados nos montes de estrume. Eu ensinava-lhes a composição do ar e o papel do oxigénio na oxidação e eles levavam-me a ver a combustão lenta dos fornos de carvão.
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Foi no contacto com os camponeses que vi, na prática, a transformação da rocha em solo. A terra solta e as raízes que se lhe arrancavam, as folhas mortas e a microfauna desse fantástico ecossistema estavam ali ao dispor de quem quisesse observá-lo, cheirá-lo, esfregá-lo entre os dedos e sentir e ver os grãos de areia e o pó barrento associado. Do pó da terra à lama, ao barro e à argila ia um passo e, com mais outro, falava-se de cerâmica, dos tijolos e das telhas, quer das actuais quer das tégulas que os romanos por cá deixaram e, ainda, da tigela de faiança ou da chávena de porcelana fina. Falar da penicilina, das milagrosas qualidades germicidas deste, à época, novíssimo antibiótico, explicando-lhes, na medida do meu limitado horizonte de saber, o significado deste e de outros termos do jargão dos cientistas, era o começo de uma conversa que nascia a propósito do bolor do pão, de todos conhecido.
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Dois anos de serviço militar obrigatório, a meio de uma licenciatura em Biologia, deram continuidade a esta preocupação de trocar conhecimento e, sobretudo, de despertar o gosto pelo saber. Levar os soldados do meu pelotão de instrução, na maioria iletrados, a partilharem comigo os saberes deles e os meus foi algo que valorizou e deu sentido ao tempo que tive de quartel, como artilheiro, em serviço militar obrigatório.
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O saber científico, cujo desenvolvimento nas últimas décadas registou progressos consideráveis, afirma-se, cada vez mais, não só como veículo indispensável à preparação escolar e profissional, mas também como parte importante da formação global do cidadão. Nesta óptica, a divulgação científica interessa-lhe como elemento potenciador da sua capacidade de intervenção consciente, por exemplo, nas políticas de desenvolvimento e de ambiente, quaisquer que sejam as suas funções ou vocações no tecido social em que se insere. A pouca atenção ainda dada à divulgação da ciência, por muitas sociedades do presente, tem razões culturais, sociais e políticas bem conhecidas. É paradigmático o pensamento que diz «o poder do feiticeiro assenta na ignorância dos seus conviventes tribais».Neste quadro, cabe aqueles que tiveram o privilégio de estudar e que, por isso, atingiram níveis elevados de conhecimento, uma responsabilidade acrescida na qualidade de vida dos seus concidadãos

domingo, 15 de Março de 2009

Dois tipos de património que se complementam

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O actual Centro Cultural e de Congressos
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AVEIRO, A CIDADE DA RIA e dos moliceiros, tem no seu centro urbano um belo exemplo de conjugação de dois bens patrimoniais importantes na sua história. Um deles, construído, é a antiga fábrica de cerâmica de Jerónimo Pereira Campos, uma pérola da arquitectura industrial, em barro vermelho, do primeiro quartel do século XX. De grande relevância na história da economia local, esta grande e desactivada unidade fabril foi inteligentemente adaptada, em 1995, a Centro Cultural e de Congressos. O outro bem patrimonial, natural, é o barreiro anexo, do qual se extraiu, durante décadas, a matéria-prima, ou seja, a argila ali trabalhada na produção de telhas e tijolos. Conheci este barreiro, nos anos 60 e guardo dele uma bela fotografia na qual se pode ver um conjunto de camadas de argila, paralelas e horizontais, alternadamente brancas e acinzentadas, por vezes rosadas devido a impregnação ligeira de óxido de ferro.
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O barreiro nos anos de 1960
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Estas argilas não são mais do que sedimentos muito finos trazidos por via fluvial e acumulados numa área plana, próxima do mar, que caracterizou toda esta região, no final da Era dos Répteis, mais precisamente, no topo do Cretácico, há cerca de 65 a 70 milhões de anos. No seio destas argilas foram encontrados fósseis animais e vegetais que nos permitem reconstituir uma paisagem tropical, alagadiça, onde, entre outros, viveram dinossáurios, crocodilos, tartarugas e peixes de grandes dimensões. O barreiro em causa é o único e último testemunho, na região, desse tempo antigo, imediatamente anterior à grande extinção que marcou o fim da Era Mesozóica e o começo dos tempos modernos, com grandes mudanças no clima, na flora e na fauna.
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Em inícios de 1999 tomei conhecimento de que o executivo camarário se propunha aprovar o plano urbanístico de pormenor do centro da cidade, que abrangia a área envolvente do novo Centro Cultural e de Congressos. Entre outros equipamentos, este plano previa a construção de imóveis sobre o dito barreiro do qual restava um vulgaríssimo talude, oculto pela vegetação bravia, e um imenso fosso cheio de água estagnada, num conjunto cuja imagem, inestética e desagradável à vista, ocultava a sua real e natural beleza.
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O meu colega, Britaldo Rodrigues, na altura, professor na Universidade local e deputado municipal, promoveu uma sessão de esclarecimento, “Património Geológico de Aveiro – O barreiro da Fábrica Jerónimo Pereira Campos e a Extinção dos Dinossáurios”, que teve lugar na Biblioteca Municipal, a 22 de Abril de1999. Nesta sessão marcaram presença o então Presidente da Autarquia e alguns vereadores. Na minha intervenção, abordei o significado pedagógico e cultural do património geológico, em geral, e daquele barreiro, em particular, que, para além desse nível de importância, acumula o grande significado que teve como fonte da matéria-prima que deu azo a uma actividade económica local, de acentuada importância e à edificação do belo imóvel fabril, com o qual se conjuga lógica e harmoniosamente. Presente nessa sessão, o meu colega Miguel Telles Antunes, da Universidade Nova de Lisboa, chamou a atenção para o conteúdo paleontológico arquivado nas camadas de argila e seu significado na reconstituição do ambiente que ali se viveu nesse longínquo passado.
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Num exemplo raro de ligação íntima entre um património construído, histórico, e um outro natural, pré-histórico, que lhe deu origem, este conjunto no centro da cidade, como então e ali defendi, tem todas as condições para ser conservado e valorizado. Da conversa que, no final da sessão, travámos com os ilustres autarcas, ficámos esperançados na boa resolução deste caso. Lamentavelmente este propósito adormeceu algures, numa gaveta da autarquia, e o certo é que já passaram quase nove anos.
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Estado actual do barreiro
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Contactos recentes com a nova Vereação fizeram renascer a esperança neste velho projecto. O barreiro em causa bem como o “lago” (enchimento por águas pluviais, do covão que ficou da lavra) ainda ali estão, intactos e, portanto, a tempo de serem recuperados, complementando, assim, a valorização cultural e estética deste nobre espaço.

domingo, 8 de Março de 2009

«'Allosaurus': UM DINOSSÁURIO, DOIS CONTINENTES»

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Ilustração de Carlos Possolo
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TUDO COMEÇOU há pouco mais de vinte anos, quando, em Andrés, Santiago de Lintém, Pombal, o Senhor José Amorim procedia à abertura de caboucos, visando as fundações de uma edificação de apoio à sua actividade agrícola.
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Para sua grande surpresa, a escavadora pôs a descoberto um conjunto de grandes ossos fossilizados que de imediato concluiu, e bem, pertencerem a um dinossáurio. O terreno em questão, datado do Jurássico superior, com 153 a143 milhões de anos, consta de um arenito argiloso, por vezes margoso, depositado em ambiente predominantemente fluvial, sob clima quente, conforme se pode deduzir do tipo de sedimentos e dos restantes fósseis que encerram (peixes, crocodilos, gastrópodes, bivalves, pterossáurios, diversas plantas).
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Ilustração de Nuno Farinha

Ao contrário do que é frequente, o Senhor Amorim procurou ajuda e nessa procura acabou por chegar ao contacto com o Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, ao tempo em que eu ali trabalhava. Mas fez mais este agricultor. Louvavelmente, suspendeu a obra e disponibilizou-nos aquele terreno, graciosa e definitivamente, permitindo-nos os trabalhos de escavação paleontológica que ali pudemos levar a efeito, em grande parte no âmbito de um projecto de investigação do Museu, da minha responsabilidade, suportado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Como resultado das colheitas efectuadas e dos subsequentes estudos, os nossos paleontólogos puderam identificar o dinossáurio de Andrés, como um terópode (carnívoro) - Allosaurus fragilis - uma espécie já conhecida nos Estados unidos da América, em terrenos da mesma idade, numa formação geológica conhecida Morrison.

O facto de a mesmíssima espécie habitar duas regiões hoje separadas pelo Atlântico, permite concluir que, nesses recuados tempos, estes animais eram livres de circular de uma para a outra e que, portanto, a América do Norte e a Eurásia ainda não estavam separadas pelo oceano. Esta conclusão, que vem corroborar o que consta sobre a abertura e expansão dos oceanos e consequente deriva dos continentes é, por sua vez, reforçada pelo achado recente, em Casal Novo (Batalha), de ossadas de Stegosaurus, um herbívoro contemporâneo do referido Allosaurus, do lado de lá do Atlântico, encontrado nos mesmos terrenos.
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As ossadas deste gigantesco predador, aqui estudadas, e uma série de réplicas, em tamanho natural, de esqueletos dele e de outros seus contemporâneos, podem ser admirados, ao longo do presente ano, na magnífica exposição, a não perder, Allosaurus: UM DINOSSÁURIO, DOIS CONTINENTES”, recentemente aberta ao público no Museu Nacional de História Natural, na rua da Escola Politécnica.

Publicado no DN de 07 de Março de 2009

quinta-feira, 5 de Março de 2009

O alavão

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A VENDA DA TIA ROSALINA era mais do que um simples lugar de hortaliça. Em simultâneo, esta venda funcionava, por assim dizer, como vestíbulo de uma casa grande onde viviam três gerações de uma família. Esta minha tia-avó tinha alavão em casa, onde se fazia queijo de ovelha de muita qualidade. Desta actividade artesanal, caseira, ocupavam-se as três filhas, minhas primas, todas mulheres sem homem, uma viúva, uma divorciada e uma solteira. Havia ainda a Marieta, uma neta, por parte de um filho já falecido, adolescente, epiléptica e com alguma debilidade mental. Esta outra prima pouco falava. De grande doçura, sorria sempre, como resposta, e tinha, segundo diziam, mãos boas para os queijos.
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Na Primavera, todas as primas faziam queijo. As horas eram as ditadas pelo chegar das vasilhas do leite, que de pronto ia a ferver, com cardo, num enorme caldeiro no chão da lareira, ao fundo da enorme cozinha. A prima mais velha, a viúva, era mestra no juntar da quantidade de cardo necessária e na força a dar ao lume, avivando-o com feixes de lenha miúda. Lentamente o leite ia aquecendo, ganhando a espessura precisa. Terminada a coalhada, arredava-se o caldeiro para que arrefecesse.
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A francela era uma mesa de tampo levemente inclinado em rampa suave, com um rebordo aberto na extremidade mais baixa, por uma espécie de goteira. Sobre esta mesa o coalho era desfeito à mão, metido nos cinchos e apertado para que deixasse escorrer o soro. Sentados à volta deste aparato, numa divisão interior contígua à loja, as primas, e eu muitas vezes, íamos fazendo queijos, ouvindo e contando histórias. Com um grande púcaro de lata ia-se retirando do caldeiro o coalho que se vazava para cima da francela. Ao cair, abria-se, trémulo, sob o seu próprio peso, em superfícies curvas e lisas de um branco de porcelana vidrada.
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– Faz-se assim! – explicava-me uma das primas – Fazes uma concha com esta mão que agarra o cincho, assim! Depois vais enchendo a forma com a outra mão, até fazer “cagulo”. Agora com as duas mãos cruzadas, vai apertando devagarinho e rodando. Deixas escorrer o soro entre os dedos, assim!
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– Para fazer bons queijos têm de se ter mãos frias e magras como as da Marieta e as minhas! – acrescentava a prima solteira, magra como um junco, olhando para a sobrinha que sorria,
satisfeita.
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Enformados, os queijos iam sendo alinhados no topo da francela, de onde continuavam a escorrer. O soro serpenteava em fios por entre os restos esmigalhados do coalho, arrastando-os na descida até uma vasilha onde ia de novo ao lume para fazer o almece. Era o alimento que, nesses meses de alavão, servia de almoço ou jantar a muitos. Sopas de pão numa tigela, almece bem quente por cima, umas pedrinhas de sal, para uns, ou uma pitada de açúcar, para outros, estavam ali as proteínas de um pobre. Posto a escorrer num pano branco e lavado, o almece dava lugar ao requeijão, bem mais rico e apreciado por nós quando, com açúcar e canela, a mãe no-lo dava como sobremesa.
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Os queijos, ainda nos cinchos, iam sendo virados até que os “cagulos” deixados pelas conchas das mãos dessem lugar a duas superfícies com as marcas dos veios da madeira do tampo da francela, avivados pelo uso e pelas lavagens. Perdendo soro e secando com o tempo, estes cilindros de queijo acabados de enformar, de início sempre mais altos do que largos, iam baixando e transformando-se no aspecto e no sabor. Queijo fresco, no próprio dia, fresco com sal nos dias imediatamente a seguir, eram apreciados mais tarde, na chamada meia-cura. Depois de um tempo conveniente, em repouso nos caniços, quando chegasse a feira de São João, já seriam queijos curados, aromáticos e com olhinhos de gordura, desaparecendo rapidamente das canastras dos queijeiros, levados por clientes conhecedores do produto que compravam. Guardados no sal ou em azeite para o ano inteiro, faziam o conduto habitual das refeições com pão e navalha.

domingo, 1 de Março de 2009

Alentejanos, algarvios e cães de caça…

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COMEÇA ASSIM o ditado popular que termina dizendo: …É TUDO A MESMA RAÇA. Frequentemente lembrado ao meu ouvido por um beirão amigo, só falta acrescentar-lhe, em abono da verdade e em necessária e justa defesa dos visados, que se trata de uma raça de muito boa gente, com excepções, claro, que sempre as houve e há. Como alentejano que sou, divirto-me com esta opinião, do mesmo modo que me delicio com as conhecidas anedotas que muitos nos dedicaram, em especial, nos tempos que se seguiram à conquista da liberdade. Era como se houvesse um desejo ou uma necessidade subconscientes de minimizar este povo, por muitos relacionado com a maior força política organizada, logo surgida, e, para eles, tida por demasiado perigosa. É curioso notar, em abono desta tese, que, à medida que os anos foram passando e que o quadro político evoluiu para aquele que caracteriza os dias de hoje, as anedotas de alentejanos diluíram-se e evolaram-se como o fumo.
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Vêm estas considerações a propósito de uma visita que fiz recentemente ao Zoomarine, em Albufeira, no Algarve Este admirável recinto, prestigiante para o país, simultaneamente, pedagógico, científico, assistencial e de lazer, é sábia e eficazmente dirigido por um ilustre algarvio, biólogo de formação académica, Élio Vicente, um nome que muitos conhecem, bem vinculado ao dito parque e às suas notadas acções em defesa da fauna, com destaque para a fauna marinha.
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Sparky
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Foi uma visita inesquecível, especialmente guiada por este meu amigo, com direito a mergulho ao encontro dos espectaculares e simpáticos golfinhos-roaz (Tursiops truncatus, de seu nome latino) e a interagir com eles, num prolongado e delicioso convívio corpo a corpo. Pouco tempo depois nascia o Sparky, a nova mascote e a última grande atracção deste admirável espaço de sabedoria, recreio e protecção da Natureza.
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Estão de parabéns os algarvios, onde conto com grandes amigos, e nós, alentejanos, seus irmãos, neste Garb al Andaluz, de que herdámos genomas e cultura.

sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

E Darwin tinha razão

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A HISTÓRIA DO HOMEM, como elemento da biodiversidade, remonta aos primórdios da Terra. Mas a sua história mais recente, como hominídeo, começa há pouco mais de meia dúzia de milhões de anos, quando os seus primitivos antepassados se separaram de um tronco comum que partilhámos, entre outros, com os gorilas, orangotangos e chimpanzés. Nas últimas décadas, a paleontologia humana deu passos importantes à compreensão desta caminhada. Vários novos fósseis foram descobertos, nomeadamente em Atapuerca (Espanha), que vieram completar, mas também tornar mais complexa a cadeia ainda muito fragmentada da evolução humana.
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Quando, no século XIX, Darwin referiu esta ascendência, muitas foram as vozes, nomeadamente as da Igreja, viradas contra uma tal heresia. Hoje, o aprofundamento do estudo do ADN e dos genomas dão-lhe razão. No estado actual da ciência que se ocupa desta temática, gorilas, orangotangos e chimpanzés são, em pé de igualdade connosco, considerados hominídeos. A evolução da humanidade já não é vista como uma linha evolutiva única, linear e progressiva, mas como uma ramificação de espécies, em que ainda é difícil saber, exactamente, quais os ancestrais directos de Homo sapiens.
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O mais antigo hominídeo de que temos conhecimento surgiu no continente africano, na região do Tchade, há cerca de 7 milhões de anos, no Miocénico superior, tendo-lhe sido dado o nome de Sahelanthropus. Mais conhecido do grande público, o Australopithecus chegou bem depois. Os seus vestígios datam de há 4,4 milhões de anos. Era um indivíduo pequeno, com pouco mais de um metro de altura, e caminhava erecto como provam as suas pegadas deixadas em cinzas vulcânicas, hoje endurecidas pelo tempo. Como utensílios servia-se de paus e pedras à semelhança dos seus “primos” antropóides.
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Muito mais tarde, há uns 2,5 a 2 milhões de anos, surgiu o género Homo com habilidade para produzir utensílios de pedra, com os quais facilitava as suas tarefas de sobrevivência, capacidade que o distancia do Australopithecus. O volume do cérebro era maior e os maxilares alargaram-se, preparando-lhe as condições necessárias à fala. O seu nome genérico reflecte esta nova condição. As primeiras espécies de Homo viveram igualmente em África, de onde passaram à Ásia e à Europa.
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Um novo Homem dotado de maiores capacidades, o Homo sapiens neanderthalensis, ou Homem de Neanderthal, fez a sua aparição há apenas cerca de 200 mil anos, tendo-se extinguido há uns 30 mil. Foi nesta altura que um outro Homo aqui nos chegou, com uma ainda maior capacidade cerebral. Chamou-se Homo sapiens sapiens. Este nosso mais próximo antepassado trouxe com ele maior tecnologia e uma cultura mais sofisticada. Para além dos muitos utensílios indicadores do seu modo de vida, na caça, na pesca, no vestuário, ficaram-nos as belas pinturas rupestres que documentam aspectos importantes do seu dia-a-dia e retratam os animais com que partilhou o seu espaço.

quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Mitos e monstros

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Imagem retirada de «imagens.kboing.com.br»

MITOS E MONSTROS são dois conceitos que nos chegaram da Antiguidade Clássica; o primeiro, dos gregos, e o segundo, dos romanos. Narrativas tradicionais, os mitos estão relacionadas com a cultura ou com a religião dos povos que os criaram. Do domínio do fantástico, no geral, simbólicos, eram protagonizados por criaturas imaginárias, monstruosas ou não, que encarnavam, quer forças da natureza, quer situações da condição humana. Exclusivamente suportados pela crença, os mitos passaram de geração em geração, transformando-se mais ou menos como é próprio da transmissão oral e foi, através deles, que também conhecemos deuses, semi-deuses e heróis.
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Os monstros são seres irreais, muitas vezes gigantescos, aterradores e ameaçadores. Todos eles disformes, foram, porém, concebidos utilizando partes maiores ou menores de indivíduos bem reais no quadro da biodiversidade, misturando-os ao sabor da intencionalidade narrativa. São as escamas, a língua bífida e as garras reptilianas dos dragões, o rabo de peixe das sereias, o espigão do narval ou o corno do rinoceronte no unicórnio, os cornos de bovídeo no minotauro, o corpo de cavalo quase inteiro no centauro ou os cascos e outras referências ao bode, no diabo. A origem da maioria das criaturas míticas populares é hoje interpretada como o resultado de encontros reais com animais ou vestígios destes (fósseis) cujas forma e natureza foram incorrectamente descritas e, certamente, distorcidas.
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Membro de uma raça de gigantes com um só olho, vamos encontrar os ciclopes na mitologia grega. Segundo a lenda, eram gigantescos e temíveis. O seu nome, que quer dizer "olho redondo", alude ao único e grande olho que possuíam no centro da testa. Devoradores de homens, eram gerados a partir da rocha e do fogo. O ciclope era, na realidade, um elefante. O lendário unicórnio tem sido presença frequente na mitologia desde há milhares de anos. É uma criatura mágica de cavalo com um único chifre na testa. Possuía, segundo a crença, poderosas propriedades curativas. Dizia-se que protegia contra o veneno e curava todos os males, desde a embriaguez à epilepsia. Os dragões dos mitos ocidentais foram símbolos do poder e do mal. No Oriente, pelo contrário, eram vistos como criaturas celestiais, sábias e dóceis, simbolizando o poder imperial e o estatuto divino. A sua origem poderá estar relacionada com as ossadas fósseis de dinossáurios. É por isso que, em chinês, Kong-Long (terrível dragão) quer dizer dinossáurio.
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É destes e de outros que nos fala a sugestiva mostra de monstros robotizados e dos respectivos mitos, da conceituada empresa japonesa, Kokoro, intitulada “MITOS & MONSTROS”, patente ao público, até 10 de Maio de 2009, no Centro de Exposições do Freeport, de Alcochete, apenas aos fins-de-semana e dias feriados, das 12 às 18 horas.
A não perder.
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Publicado no «DN» de 21 de Fevereiro de 2009

domingo, 22 de Fevereiro de 2009

O alumínio

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NA MINHA INFÂNCIA, tudo o que servisse como utensílio de cozinha de ir ao lume era, sobretudo, de ferro esmaltado ou de barro vermelho. Nalguns casos usavam-se os de cobre ou de latão. Os de alumínio não estavam ao alcance de toda a gente.
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Não obstante ser o 3.º elemento químico mais abundante na crosta terrestre, logo a seguir ao oxigénio e ao silício, o alumínio, isolado em 1924 pelo dinamarquês Hans Christian Oersted, era um metal de produção complexa e dispendiosa, só utilizado em materiais de qualidade e, portanto, caros. A sua vulgarização a baixo preço só foi possível na sequência da sua fácil obtenção industrial, em meados do séc. XX, por via electrolítica (processo Bayer), a partir do bauxito, uma capa de alteração ao nível do solo, comum nas regiões quentes e húmidas, do presente e do passado, a partir de rochas ricas em minerais com alumínio, como são, por exemplo, os feldspatos. Após esta etapa da então moderna tecnologia metalúrgica, este elemento ultraleve passou a ter intensa utilização em múltiplas indústrias, entre as quais, o fabrico de uma vasta gama de utensílios de cozinha, a aeronáutica e a da hoje vulgaríssima calha de duralumínio.
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Foi a partir desses anos 50 do século passado que as “barracas do alumínio” passaram a ser a grande atracção das feiras por todo o país, com multidões à espera que lhes saísse, em rifa, um trem de panelas, de tachos ou de cafeteiras, entre muitos outros utensílios de uso doméstico. Em Évora, na feira de São João, a “barraca do alumínio” era um enxame de gente desenrolando papelinhos numerados, na expectativa de levar para casa, e por pouco dinheiro, algo que a boa sorte lhes colocasse nas mãos. A loiça de cozinha e de ir à mesa, fabricada neste metal, vulgarizou-se, sobretudo, pelo seu baixo custo. Amolgava-se mas não se partia e era particularmente leve. O meu amigo e senhor Teófilo, funileiro (latoeiro) à Porta Nova, com quem aprendi os rudimentos de soldar a estanho, sentiu bem na sua economia essa invasão do alumínio no quotidiano dos seus habituais fregueses Os múltiplos objectos que produzia em folha-de-Flandres, a vulgaríssima lata, passaram a ter muito menor procura. O progresso acabou por colocar no mercado outros materiais, como o pyrex, o teflon, o ferro fundido e o aço inoxidável, relegando os utensílios de alumínio à condição de produtos menos procurados. Na minha infância, fazer a sopa numa panela de alumínio ou aquecer café numa cafeteira do mesmo metal eram operações raras e, por assim dizer, um luxo. Hoje é uma operação vulgarizada mas em declínio, não pelo custo desses utensílios, mas, sobretudo, pela invasão dos novos materiais.

quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

Cocaria

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“Cocaria”, Pintura de Henrique Pina
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FOI NUM DIA QUENTE E SECO de Julho, dos finais dos anos 40 do século que passou, com o sol quase a pino, na Herdade das Cortiçadas, ali para os lados de São Sebastião da Giesteira. Eu, o meu irmão Mário e mais dois companheiros calcorreávamos os campos amarelecidos do restolho da última ceifa, nesse tempo, ainda feita a braços de homem e mulher, de foice numa mão e dedeiras de cana a proteger os dedos da outra.
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Vencida uma suave colina, deparava-se-nos, na planura que se abria aos nossos olhos, a locomóvel fumegante, accionando a grande debulhadora de madeira e ferro, há algum tempo e à distância, anunciada pelo matraquear cadenciado daquela espécie de locomotiva do século XIX. Concebida para se deslocar de seara em seara, ano após ano, sempre no pino do calor, fazia a debulha do trigo de várias herdades e encharcava a camisa da dezena de homens que andavam com ela.
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Era a grande azáfama à nossa frente, ruidosa, escaldante e poeirenta, lançando no ar nuvens de moínha amarelada que inflamava os olhos de quem os não protegesse com uns óculos rudimentares próprios para esse trabalho. Enquanto uns homens iam alimentando, com molhos, a voracidade da máquina, outros iam empilhando os fardos de palha que dela saíam a um ritmo alheio ao seu cansaço.
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Não longe desta cena, à sombra de uma velha azinheira, a cocaria era uma correnteza de panelinhas de barro aconchegadas ao brasido ali atamancado com a lenha que havia à mão. Uma mulher, cuja tarefa era vigiar este cozinhado colectivo, ia dando, a cada panelinha e de vez em quando, a conveniente volta, operação que consistia em pegar-lhe pela asa e dar-lhe uma sacudidela rápida e certeira, fazendo com que o que estivesse por baixo passasse para cima e que o que estivesse por cima fizesse o invés. Estava ali, aferventando baixinho, quase pronto, à espera do meio-dia, o jantar dos homens. A meio daquele alinhamento, destacava-se uma panelinha maior. Era a dela e do marido ali ao lado, na debulha.
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- Ora então, bom dia! - Disse um dos meus companheiros, quando nos aproximámos, de olhos postos no cântaro encostado ao grosso tronco da árvore, fazendo adivinhar frescura, sob a única sombra ao nosso alcance.
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- Bom dia é como quem diz. - Respondeu a mulher plena de bom humor e em jeito de bom acolhimento. - Já estamos quase na boa tarde.
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Deu-nos água fresca com o delicioso sabor a barro e satisfez-nos a curiosidade no respeitante aquela cozinha ali improvisada no chão.
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- Nós chamamos-lhe cocaria. Já no tempo do meu avô era assim que se dizia. Cada um traz a sua panelinha e o avio que quer ou pode. A maioria traz um naco de toucinho e outro de chouriço e, às vezes um pedacito de carne da salgadeira. Junta-lhes uma cabeça de nabo, uma batatita e uma ou outra verdura com que fazem, chama-lhes a gente, umas sopas de carne. Migam-lhes pão à medida da vontade que têm e, depois, alguns deles estendem-se por aí, à sombra, e dormem a sesta até que o ganhão os acorde para acabarem a jorna até o Sol-pôr.
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O resto da tarde ficámos a conviver e, até, a ajudar naquilo que pudemos. Montámos, ali mesmo, acampamento, ceámos do que tínhamos e passámos o serão a conversar com o trabalhador que ficou de guarda às máquinas. Quando demos por terminada a confraternização, o meu irmão comunicou:
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- Amanhã vou à venda a São Sebastião da Giesteira comprar o que for preciso para fazermos sopas de carne.
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- E não te esqueças do raminho de hortelã. – Disse um dos companheiros, mas que o sono não me permitiu saber qual deles.

domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Lá longe, no Arizona

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NUMA DAS ÚLTIMAS VEZES em que participei no Gem & Mineral Show, de Tucson, não quis deixar de fazer a quase religiosa peregrinação ao monumental Grand Canyon do Colorado, que tem aqui, no Arizona, a sua mais grandiosa expressão e onde, pela primeira vez, me deparei, no concreto, com a enormidade do tempo geológico. Estão ali à vista, nos mil e seiscentos metros de fundura deste vale, cerca de dois mil milhões de anos, pouco menos de metade da história do nosso Planeta.
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Grand Canyon
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Nessa deslocação pelos espaços subdesérticos do Far West americano, percorremos, as planuras eriçadas de picos rochosos do Monument Valley, emblemática paisagem que John Ford divulgou por esse mundo através dos seus inesquecíveis westerns, e emocionei-me no bordo da Meteor Crater, um buracão com mais de um quilómetro de diâmetro e quase 200 metros de fundura, aberto, há cerca de 50 000 anos, num planalto desértico, pela queda de um gigantesco meteorito.
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Monument Valley
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Visitámos, ainda, uma pequena jazida com pegadas de dinossáurios, vistosamente anunciada à beira da estrada. Chegados ao local, marcado por uma espécie de barraca de madeira, com artesanato à venda, de onde sobressaía a bijouterie, à base de turquesa, surgiu-nos um navajo, com uma vassoura de cabo comprido nas mãos, e um crachá que o identificava como guia.
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Pegadas de dinossáurios carnívoros

.A vassoura era para ir varrendo a areia que o vento ia transportando para dentro daquelas depressões tridáctilas deixadas pelos carnívoros que por ali andaram há mais de 200 milhões de anos. À medida que varria, o índio ia-nos dando, no seu inglês, aquelas explicações que dava a toda a gente na sua condição de guia. No fim da visita, este homem, que só não era um dos perseguidos pelos cow boys de John Ford, porque usava chapéu como o dos “camones”, calçava botas de tacão alto, blue jeans e camisa country, virando-se para nós, surpreendeu-nos ao dizer «are you portugueese?!». Face à surpresa que todos manifestámos, começou por dizer que, em criança, tinha frequentado a escola numa missão católica espanhola, que aprendera aí a falar o castelhano. Explicou, depois, que percebia perfeitamente a nossa conversa e que, por isso, devíamos estar a falar português. Sabia que Portugal ficava ao lado da Espanha, que a capital era Lisboa, banhada pelo rio Tejo, e que o presidente se chamava Mário Soares. Entusiasmado pela nossa admiração, falou-nos do Benfica e do Eusébio, que achava o maior jogador do mundo, e de Amália Rodrigues e do fado, que gostava de ouvir.

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Este descendente, em linha directa, dos asiáticos que há milhares de anos atravessaram o estreito de Bering, submerso pela calote polar gelada, relegado nos confins da reserva que os colonizadores europeus lhe deixaram, no seu próprio torrão natal, sabia mais do que se passava fora do local onde vivia do que a média dos seus concidadãos ditos civilizados.

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DN de 24 de Janeiro de 2009

quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Um bolo com muitas velas

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SE PUDÉSSEMOS FESTEJAR o aniversário do nosso planeta, à semelhança do que fazemos com os nossos amigos, teríamos de pôr na mesa um enormíssimo bolo com um incomensurável número de velas.
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Como consta das Sagradas Escrituras, afirmava-se, entre os hebreus, que a Terra fora gerada há cerca de seis mil anos, em apenas seis dias. Esta crença, mantida a ferro e fogo pela Igreja, paralisou o avanço do conhecimento científico neste domínio durante mais de dezassete séculos. Para o tempo bíblico, tido como o tempo da Terra e do Homem, os clérigos de então aceitavam aquela cifra e não mais. O começo da Terra era, praticamente, o começo do Homem e, também, o começo do tempo.
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Numa época marcada pela rigorosa observância aos dogmas impostos pela Fé, não era fácil chegar à imensidade do tempo geológico, uma realidade hoje indiscutível. A meados do século XVII o arcebispo primaz da Irlanda, James Ussher, após aturada pesquisa das sucessivas gerações constantes do Velho Testamento, dava a conhecer ao mundo que o Céu e a Terra haviam sido criados por Deus na tarde de Sábado, dia 22 de Outubro, do ano de 4004 a.C. E ponto final!
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Conceber um tempo para trás da criação do Homem e falar de milhões de anos na história da Terra foram, pois, conquistas árduas, e tantas vezes trágicas, da Ciência sobre o dogmatismo religioso e conservador da Igreja, instituição dominante, atenta e severa, na Europa medieval e renascentista. Era, assim, muito arriscado investigar o tempo geológico, pois isso questionava a Divina Génese, e a fogueira desencorajava os mais ousados. A este propósito, escreveu Claude Allègre: «Entre as disciplinas científicas que se confrontaram com as crenças religiosas, a geologia é uma daquelas em que os choques foram mais violentos».
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Na segunda metade do século XVIII, Georges Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), procurava iludir a vigilância exercida pelos seus superiores eclesiásticos, dizendo que os seis dias da Criação constantes das Escrituras deveriam ser entendidos como espaços de tempo dos quais o “Historiador Sagrado” não determinara a duração. Com este artifício apaziguador, Buffon estendia a 75 mil anos a idade da Terra. Tais números, ínfimos, face ao que era a sua convicção profunda, mas não revelada publicamente, constituíam um desafio à versão da Igreja. Adepto e defensor das ideias de Descartes, segundo as quais, à semelhança dos restantes planetas do Sistema Solar, a Terra era vista como um grande corpo a perder calor desde o seu início em fusão, Buffon conduziu os seus cálculos admitindo uma determinada taxa de arrefecimento. Esta concepção, corroborada por grandes pensadores como Kant e Laplace, e o “grande” número de anos avaliado, quando comparado aos escassos milhares de anos bíblicos, constituíram revelações audaciosas que punham em causa a crença tradicional. Acusado pelos seus superiores hierárquicos de afirmações contrárias à Fé, Buffon foi alvo de perseguições e passou dificuldades na Faculdade de Teologia da Sorbonne. Era ousadia a mais e, assim, este homem de ciência foi forçado a retratar-se e a declarar que não tinha qualquer intenção de contradizer o texto das Escrituras e que rejeitava o que, nos seus escritos, dizia respeito à formação da Terra e tudo o mais que contrariasse a narrativa de Moisés. Todavia, os 75 mil anos divulgados por Buffon, representam uma cifra ínfima da que tinha na ideia, na ordem de três milhões de anos, conforme consta dos seus escritos inéditos.
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A semente estava lançada. Para os espíritos libertos havia um longo tempo anterior ao Homem, durante o qual a Terra evolucionara por conta própria. Era o tempo geológico a impor-se ao pensamento e a questionar o tempo bíblico.
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James Hutton (1726-1797), considerado, por muitos, o pai da geologia moderna, ao reflectir sobre a formação das montanhas e sua destruição por efeito dos agentes erosivos, concebeu a Terra como uma máquina plena de energia e, praticamente, eterna. Tal concepção partia de um pressuposto seu, mais tarde desenvolvido por Charles Lyell (1797-1895), pressuposto que, na essência, procurava no presente a chave para desvendar os enigmas do passado. Conhecido por princípio do actualismo, os seus promotores mostraram que os fenómenos geológicos foram os mesmos que têm lugar no mundo actual. Esta é, aliás, uma premissa básica da Física, que consiste na manutenção das leis naturais no espaço e no tempo.
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Concomitantemente desabrochava uma nova concepção da vida, para a qual a evolução biológica necessitava de muitíssimo tempo, constituindo um outro sério desafio aos ensinamentos da Igreja. Charles Darwin (1809-1882) tinha, nesta visão dilatada do tempo, o suporte necessário às suas ideias sobre a evolução das espécies. Com base em estimativas da velocidade da erosão de certas formações do SE de Inglaterra, este ilustre naturalista chegou a um valor na ordem dos 300 milhões de anos para o tempo geológico. Porém, esta cifra acabou por ser consideravelmente reduzida para 96 milhões de anos pelo professor de Geologia de Oxford, John Phillips, seu contemporâneo, com base numa suposta taxa de sedimentação para a globalidade das formações estratificadas.
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Por essa altura, Georges Cuvier (1769-1832) havia demonstrado que, contrariamente à doutrina da Igreja, a Terra percorrera uma longa caminhada evolutiva muito antes da aparição do género humano, deixando testemunhos (os fósseis) de sucessivos “mundos prévios” onde viveram seres diferentes dos que hoje nos rodeiam, todos eles extintos. Este ilustre naturalista dividiu o tempo da Terra em três épocas que baptizou de antediluviana, diluviana e pós-diluviana. A primeira era caracterizada por ele como uma época de escuridão, sem a presença do Homem, em que o planeta fora habitado por monstros e sujeita a fenómenos naturais não explicáveis pela experiência do presente. As épocas seguintes, a diluviana e a pós-diluviana, constituíam, segundo o naturalista, uma aceitação explícita da visão bíblica. Interpretadas à luz das Escrituras, estas duas épocas, marcadas pela presença do Homem, eram, na sua opinião, sede de acontecimentos semelhantes aos que observamos nos dias de hoje. Posteriormente, muitas foram as tentativas de cálculo da idade da Terra, todas elas na ordem dos milhões de anos. As cifras encontradas ultrapassavam, em muito, os limites consentidos pelos textos sagrados, mas estavam ainda aquém da imensidade preconizada por Hutton e seus discípulos.
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Entretanto, o físico inglês William Thomson (1824-1907), mais conhecido como Lord Kelvin, debruçou-se sobre a relação entre a temperatura interna do planeta, em arrefecimento, e a sua idade. Profundo crente na existência de uma ordem divina, usou os seus vastos conhecimentos de termodinâmica e o cálculo matemático, que dominava perfeitamente, na determinação da idade da Terra, tendo estimado entre 20 a 98 milhões de anos o nascimento do nosso planeta, acrescentando que ele se teria tornado habitável há 20 a 40 milhões de anos. Confrontada entre estes números saídos da física, por via matemática, e os outros, estimados por naturalistas a partir de valores supostos de velocidade de erosão ou de sedimentação, a comunidade científica da época não hesitou. Os números de Kelvin, tidos por mais credíveis, faziam baixar drasticamente a idade da Terra, arrasando a vastidão do tempo pressuposta nas concepções de Hutton e de Darwin. Aparentemente irrefutáveis, as premissas utilizadas e as vénias pela física e pela matemática conduziram a valores que geólogos e biólogos tinham sérias reservas em aceitar.
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Em 1896, o físico francês Becquerel descobria a radioactividade, e em 1903, Marie e Pierre Curie anunciavam que os sais de rádio libertavam constantemente calor, mantendo uma temperatura sempre acima da do ambiente. Por esta altura, o físico inglês Strutt deduzia que os minerais com elementos radioactivos forneciam calor às rochas que os continham e Rutherford, prémio Nobel da Química, afirmava que a Terra não arrefecia, como afirmava Kelvin, O calor da crosta terrestre deixava, assim, de ser apenas um calor residual da fornalha primitiva, para passar a ser, também, sede de aquecimento fornecido pela radioactividade das rochas, pois que a desintegração dos elementos radioactivos, contidos em alguns minerais das rochas, libertava constantemente enormes quantidades de calor, o suficiente para manter a temperatura à superfície da Terra. Era o fim do arrefecimento global que servira de fundamento aos cálculos de Kelvin.
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Tendo trocado a Física pela Geologia, o inglês Arthur Holmes tornou-se o primeiro responsável pela revisão e aperfeiçoamento da escala do tempo geológico e, em 1931, concluía que a idade da Terra não seria inferior a 1600 milhões de anos e que, provavelmente, poderia exceder os três mil milhões. Sabemos hoje, ou melhor, julgamos saber, que o nosso planeta é bem mais velho. A sua idade é muito próxima da que foi determinada nas rochas mais antigas da crosta lunar e que ronda os 4570 milhões da anos, sendo de cerca de 4280 milhões a idade das mais velhas rochas conhecidas, em Nuvvuagittuq, no nordeste do Canadá.
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Texto adaptado do livro do autor, “COMO BOLA COLORIDA – A Terra, Património da Humanidade”, Âncora Editora, Lisboa, 2007

domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Um grande museu no fim do mundo

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À SEMELHANÇA DOS ESTADOS UNIDOS da América, da China ou da Mongólia, o Canadá está entre os países que maior número de espécies de dinossáurios tem trazido ao conhecimento científico. E a expressão pública que melhor evidencia essa importante contribuição para o engrandecimento e visibilidade da Paleontologia, é o Royal Tyrrel Museum of Paleontology, em Drumheller, num amplo e desolado vale a norte da província de Alberta, integrado no Dinosaur Provincial Park, criado em 1955. Esta reserva natural foi classificada e está protegida como Património Mundial da Humanidade (World Heritage), pela UNESCO. Para além da pradaria primitiva e dos fundos aluviais do Red Deer River (Rio do Veado Vermelho), o parque abrange uma vasta extensão de badlands, isto é, terrenos desertificados, constituídos por camadas sedimentares horizontais de natureza areno-argilosa, profusamente sulcados por barrancos. É destas camadas, datadas do Cretácico superior (77 a 74 milhões de anos), que se retiraram, em quantidade e em óptimo estado de conservação, a maioria dos fósseis de dinossáurios expostos neste magnífico Museu. Criado em 1985, cujo nome evoca o geólogo Joseph Burr Tyrrel, dos Serviços Geológicos do Canadá, que, em 1884, descobriu naquela região os primeiros ossos de um grande carnívoro, parente muito próximo do conhecido Tyrannosaurus rex, a que deu o nome de Albertosaurus (do nome da província canadiana de Alberta). Desde então, e durante mais de um século de explorações, foram escavados nestes terrenos e descritos cerca de uma centena de espécies de dinossáurios e de outros vertebrados seus contemporâneos.
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Em Novembro de 1995 tive o prazer e a honra de ser convidado pela direcção da Casa do Alentejo de Toronto a participar nas festividades da “XII Semana Cultural Alentejana”. Foi através de Vasco Osvaldo Santos, um luso-canadiano de quem nos tornámos amigos. Como não podia deixar de ser, programei uma visita às badlands do Drumheller Valley e ao citado Museu.
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Para visitar o Tyrrel Museum, uma pérola nos confins do mundo, houve que voar algumas horas até Calgary, capital da província de Alberta, sobre miríades de lagos escavados pelo gelo da última grande glaciação, a Wisconsin, como por lá se diz. No máximo da sua expansão para sul, há uns 20 000 anos e à semelhança do que aconteceu na Europa e na Ásia, o glaciar árctico atingiu esta latitude, sulcando os terrenos por onde passou. Ao recuar, por fusão, o gelo deixou uma vastíssima paisagem repleta de depressões convertidas depois em lagos de todos os tamanhos. A hora a que sobrevoei esta região proporcionou-me um espectáculo inesquecível. Cerca de 10 000 metros abaixo, milhares de “espelhos” reflectiam o sol, fazendo-o entrar, de baixo para cima, pelas janelas do Boeing.
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O trajecto até Drumheller foi feito em rectas intermináveis, traçadas numa planura imensa, quase como uma mesa de bilhar. Comparativamente, a chamada planície alentejana seria considerada uma paisagem montanhosa. Foi uma corrida de cerca de duas horas entre campos de trigo e, pontualmente, aqui e ali, os característicos engenhos de bombear petróleo bruto, quais enormes e isolados passarões de ferro, em lento e cadenciado sobe-e-desce.
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Drumheller é uma muito pequena cidade, numa paisagem semidesértica, provinciana, ao estilo de muitas do oeste americano, de onde sobressai, na periferia e em altura, a característica construção de madeira para guardar o cereal. Perdida para lá da pradaria, nas chamadas badlands (terra de barrancos e inculta), viu a sua pacatez invadida por formigueiros de gente que por ali tem de passar a caminho do Tyrrel. Este fabuloso museu, situado a uma dezena de quilómetros mais à frente, no citado vale, é um oásis no tórrido e ressequido Verão local e um conforto suficientemente aquecido no gelo branco do Inverno. Do hotel nesta cidadezinha, um enorme bloco de betão a condizer com a afluência à única oferta turística local (o Dinosaur Provincial Park) guardo recordação da simpatia e afabilidade do pessoal, do tamanho desmesurado dos quartos e das camas, de uma cozinha sem graça, deslavada, muito americana, e de uma zurrapa, tipo Mateus Rosé envinagrado. Além deste “néctar”, só cerveja e coca-cola.
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A meio da noite, o silêncio e a vastidão da planura sem fim eram atravessados pelo silvo interminável, cantante, do comboio. Quais serpentes quilométricas, estas composições que atravessam o continente de costa a costa, puxados por uma máquina à frente, empurradas por uma outra atrás e, às vezes, com mais outra, a meio, a ajudar, demoram tempo e mais tempo a passar, matraqueando nos carris num “pouca-terra” que parece não mais acabar. Muito antes anunciado pelos seus silvos, só muito, muito depois esses sons se apagam na lonjura do horizonte.
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Nos vários dias que durou a nossa vista ao Tyrrel, tivemos, ao nosso serviço, um taxi, um carrão americano dos anos 50, conduzido por uma mulher grande e desembaraçada, tipo cow boy do Far West, que nos ia levar, pela manhã, e trazer, ao fim da tarde e que, simpaticamente, deu umas voltas connosco a fim de nos mostrar a sua cidade. No museu, um restaurante self service, possibilitava-nos uma refeição vulgar, rápida e sem história, permitindo-nos o tempo necessário à observação pormenorizada dos conteúdos e das soluções museográficas utilizadas e, ainda, o convívio, em termos profissionais e humanos, com os colegas canadianos. A acrescentar à memória desta frutuosa e agradável estadia, recordo um certo embaraço que experimentei ao ser solicitado para proferir uma palestra para o staff da casa, sobre dinossáurios em Portugal. Formado numa geração em que imperava a francofonia, o meu inglês falado ou escrito deixa muito a desejar. Mas como os nomes dos fósseis são universais, em latim ou latinizados, como os nomes das nossas jazidas não têm tradução e com o auxílio de algumas dezenas de diapositivos (que sempre viajavam comigo), acabei por lhes transmitir a informação que me foi ali possível.
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Este museu, um deslumbramento para os que gostam dos dinossáurios, situado a milhares de quilómetros de distância dos potenciais interessados, complementado por um bem organizado e eficaz serviço de apoio pedagógico, dirigido, preferencialmente aos grupos escolares, recebe anualmente, imagine-se, uma média de 250 000 visitantes idos de todo o mundo. Mais do que a maioria dos museus das grandes cidades.
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Este museu, no fim do mundo, longe de tudo e de todos e o seu enorme sucesso são a prova mais evidente do poder atractor dos “grandes bichos”. Esta evidência deveria ser motivo de reflexão por parte de quem, entre nós, detém o poder mas, infelizmente, não tem sido. Lembremo-nos do estado de abandono e da consequente e irremediável degradação das jazidas de Carenque, da Praia Grande e do Cabo Espichel.