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.SE PUDÉSSEMOS FESTEJAR o aniversário do nosso planeta, à semelhança do que fazemos com os nossos amigos, teríamos de pôr na mesa um enormíssimo bolo com um incomensurável número de velas.
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Como consta das Sagradas Escrituras, afirmava-se, entre os hebreus, que a Terra fora gerada há cerca de seis mil anos, em apenas seis dias. Esta crença, mantida a ferro e fogo pela Igreja, paralisou o avanço do conhecimento científico neste domínio durante mais de dezassete séculos. Para o tempo bíblico, tido como o tempo da Terra e do Homem, os clérigos de então aceitavam aquela cifra e não mais. O começo da Terra era, praticamente, o começo do Homem e, também, o começo do tempo.
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Numa época marcada pela rigorosa observância aos dogmas impostos pela Fé, não era fácil chegar à imensidade do tempo geológico, uma realidade hoje indiscutível. A meados do século XVII o arcebispo primaz da Irlanda, James Ussher, após aturada pesquisa das sucessivas gerações constantes do Velho Testamento, dava a conhecer ao mundo que o Céu e a Terra haviam sido criados por Deus na tarde de Sábado, dia 22 de Outubro, do ano de 4004 a.C. E ponto final!
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Conceber um tempo para trás da criação do Homem e falar de milhões de anos na história da Terra foram, pois, conquistas árduas, e tantas vezes trágicas, da Ciência sobre o dogmatismo religioso e conservador da Igreja, instituição dominante, atenta e severa, na Europa medieval e renascentista. Era, assim, muito arriscado investigar o tempo geológico, pois isso questionava a Divina Génese, e a fogueira desencorajava os mais ousados. A este propósito, escreveu Claude Allègre: «Entre as disciplinas científicas que se confrontaram com as crenças religiosas, a geologia é uma daquelas em que os choques foram mais violentos».
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Na segunda metade do século XVIII, Georges Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), procurava iludir a vigilância exercida pelos seus superiores eclesiásticos, dizendo que os seis dias da Criação constantes das Escrituras deveriam ser entendidos como espaços de tempo dos quais o “Historiador Sagrado” não determinara a duração. Com este artifício apaziguador, Buffon estendia a 75 mil anos a idade da Terra. Tais números, ínfimos, face ao que era a sua convicção profunda, mas não revelada publicamente, constituíam um desafio à versão da Igreja. Adepto e defensor das ideias de Descartes, segundo as quais, à semelhança dos restantes planetas do Sistema Solar, a Terra era vista como um grande corpo a perder calor desde o seu início em fusão, Buffon conduziu os seus cálculos admitindo uma determinada taxa de arrefecimento. Esta concepção, corroborada por grandes pensadores como Kant e Laplace, e o “grande” número de anos avaliado, quando comparado aos escassos milhares de anos bíblicos, constituíram revelações audaciosas que punham em causa a crença tradicional. Acusado pelos seus superiores hierárquicos de afirmações contrárias à Fé, Buffon foi alvo de perseguições e passou dificuldades na Faculdade de Teologia da Sorbonne. Era ousadia a mais e, assim, este homem de ciência foi forçado a retratar-se e a declarar que não tinha qualquer intenção de contradizer o texto das Escrituras e que rejeitava o que, nos seus escritos, dizia respeito à formação da Terra e tudo o mais que contrariasse a narrativa de Moisés. Todavia, os 75 mil anos divulgados por Buffon, representam uma cifra ínfima da que tinha na ideia, na ordem de três milhões de anos, conforme consta dos seus escritos inéditos.
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A semente estava lançada. Para os espíritos libertos havia um longo tempo anterior ao Homem, durante o qual a Terra evolucionara por conta própria. Era o tempo geológico a impor-se ao pensamento e a questionar o tempo bíblico.
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James Hutton (1726-1797), considerado, por muitos, o pai da geologia moderna, ao reflectir sobre a formação das montanhas e sua destruição por efeito dos agentes erosivos, concebeu a Terra como uma máquina plena de energia e, praticamente, eterna. Tal concepção partia de um pressuposto seu, mais tarde desenvolvido por Charles Lyell (1797-1895), pressuposto que, na essência, procurava no presente a chave para desvendar os enigmas do passado. Conhecido por princípio do actualismo, os seus promotores mostraram que os fenómenos geológicos foram os mesmos que têm lugar no mundo actual. Esta é, aliás, uma premissa básica da Física, que consiste na manutenção das leis naturais no espaço e no tempo.
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Concomitantemente desabrochava uma nova concepção da vida, para a qual a evolução biológica necessitava de muitíssimo tempo, constituindo um outro sério desafio aos ensinamentos da Igreja. Charles Darwin (1809-1882) tinha, nesta visão dilatada do tempo, o suporte necessário às suas ideias sobre a evolução das espécies. Com base em estimativas da velocidade da erosão de certas formações do SE de Inglaterra, este ilustre naturalista chegou a um valor na ordem dos 300 milhões de anos para o tempo geológico. Porém, esta cifra acabou por ser consideravelmente reduzida para 96 milhões de anos pelo professor de Geologia de Oxford, John Phillips, seu contemporâneo, com base numa suposta taxa de sedimentação para a globalidade das formações estratificadas.
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Por essa altura, Georges Cuvier (1769-1832) havia demonstrado que, contrariamente à doutrina da Igreja, a Terra percorrera uma longa caminhada evolutiva muito antes da aparição do género humano, deixando testemunhos (os fósseis) de sucessivos “mundos prévios” onde viveram seres diferentes dos que hoje nos rodeiam, todos eles extintos. Este ilustre naturalista dividiu o tempo da Terra em três épocas que baptizou de antediluviana, diluviana e pós-diluviana. A primeira era caracterizada por ele como uma época de escuridão, sem a presença do Homem, em que o planeta fora habitado por monstros e sujeita a fenómenos naturais não explicáveis pela experiência do presente. As épocas seguintes, a diluviana e a pós-diluviana, constituíam, segundo o naturalista, uma aceitação explícita da visão bíblica. Interpretadas à luz das Escrituras, estas duas épocas, marcadas pela presença do Homem, eram, na sua opinião, sede de acontecimentos semelhantes aos que observamos nos dias de hoje. Posteriormente, muitas foram as tentativas de cálculo da idade da Terra, todas elas na ordem dos milhões de anos. As cifras encontradas ultrapassavam, em muito, os limites consentidos pelos textos sagrados, mas estavam ainda aquém da imensidade preconizada por Hutton e seus discípulos.
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Entretanto, o físico inglês William Thomson (1824-1907), mais conhecido como Lord Kelvin, debruçou-se sobre a relação entre a temperatura interna do planeta, em arrefecimento, e a sua idade. Profundo crente na existência de uma ordem divina, usou os seus vastos conhecimentos de termodinâmica e o cálculo matemático, que dominava perfeitamente, na determinação da idade da Terra, tendo estimado entre 20 a 98 milhões de anos o nascimento do nosso planeta, acrescentando que ele se teria tornado habitável há 20 a 40 milhões de anos. Confrontada entre estes números saídos da física, por via matemática, e os outros, estimados por naturalistas a partir de valores supostos de velocidade de erosão ou de sedimentação, a comunidade científica da época não hesitou. Os números de Kelvin, tidos por mais credíveis, faziam baixar drasticamente a idade da Terra, arrasando a vastidão do tempo pressuposta nas concepções de Hutton e de Darwin. Aparentemente irrefutáveis, as premissas utilizadas e as vénias pela física e pela matemática conduziram a valores que geólogos e biólogos tinham sérias reservas em aceitar.
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Em 1896, o físico francês Becquerel descobria a radioactividade, e em 1903, Marie e Pierre Curie anunciavam que os sais de rádio libertavam constantemente calor, mantendo uma temperatura sempre acima da do ambiente. Por esta altura, o físico inglês Strutt deduzia que os minerais com elementos radioactivos forneciam calor às rochas que os continham e Rutherford, prémio Nobel da Química, afirmava que a Terra não arrefecia, como afirmava Kelvin, O calor da crosta terrestre deixava, assim, de ser apenas um calor residual da fornalha primitiva, para passar a ser, também, sede de aquecimento fornecido pela radioactividade das rochas, pois que a desintegração dos elementos radioactivos, contidos em alguns minerais das rochas, libertava constantemente enormes quantidades de calor, o suficiente para manter a temperatura à superfície da Terra. Era o fim do arrefecimento global que servira de fundamento aos cálculos de Kelvin.
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Tendo trocado a Física pela Geologia, o inglês Arthur Holmes tornou-se o primeiro responsável pela revisão e aperfeiçoamento da escala do tempo geológico e, em 1931, concluía que a idade da Terra não seria inferior a 1600 milhões de anos e que, provavelmente, poderia exceder os três mil milhões. Sabemos hoje, ou melhor, julgamos saber, que o nosso planeta é bem mais velho. A sua idade é muito próxima da que foi determinada nas rochas mais antigas da crosta lunar e que ronda os 4570 milhões da anos, sendo de cerca de 4280 milhões a idade das mais velhas rochas conhecidas, em Nuvvuagittuq, no nordeste do Canadá.
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Texto adaptado do livro do autor, “COMO BOLA COLORIDA – A Terra, Património da Humanidade”, Âncora Editora, Lisboa, 2007