segunda-feira, 21 de Julho de 2008

A mesa dos sessenta pés


MÃE E PAI, SEIS FILHOS, três eles e três elas, e uma tia viúva que nos ajudou a criar, era assim o tamanho do meu Natal de criança e de uma parte da adolescência. A mesa em que nos reuníamos às refeições, com duas abas que se abriam, mal chegava para tanta gente, tantos braços e bocas a comer e a falar, tanta cadeira a gemer.
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– Come, Lourdes! Está calado, Mário! Tem juízo, Chico, não irrites a tua irmã! Essas batatas são para comer até ao fim! Não ficam aí no prato! Não se come uma azeitona de uma só vez! Não se trata assim uma coisa que leva um ano a criar! À mesa não se fala! Tu, aí, põe-te direito na cadeira, e chega-te para a frente. – Era assim todos os dias, duas vezes ao dia.
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No final tinha lugar um ritual cumprido por todos os filhos que, após pedirem licença para se levantar, saíam do seu lugar e davam uma volta à mesa a desejar a cada um dos ainda sentados o tradicional «bom proveito», seguido de um beijo em cada face. Este ritual, que punha fim a um tempo de compostura controlada, marcava também o retomar da liberdade, das brincadeiras e das brigas, em crianças, e das discussões acaloradas ou das saídas à pressa dos rapazes, com destino ao seus próprios interesses, quando mais crescidos. As meninas ficavam em casa a ajudar a mãe e a tia...
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– Bom proveito, meu paizinho. – Era assim que dizíamos, com o pai ainda sentado, sempre mais pausado no final da refeição, para ele, também, uma oportunidade de repouso. À mãe e à tia, o mesmo acto de boas maneiras era dito já na cozinha ou a meio caminho, no levantar da mesa.
Nessa mesa festejámos em conjunto não sei quantas, mas muitas, consoadas. Era a «mesa dos sessenta pés», como dizia o pai. Dezoito das pessoas que a ela se sentavam, mais trinta e seis dos nove bancos e cadeiras e, ainda, mais os seus próprios seis pés. Tudo somado, dava os ditos sessenta pés.
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Na noite de Natal a mesa ficava diferente. Vestia-se com toalha própria, bordada, guardada de ano para ano. Diferentes eram também os pratos, os copos e os talheres e, sobretudo, diferente era a ementa, sempre a mesma e especial para essa noite. Nunca repetidas noutras ocasiões, tais iguarias davam-lhe o dom festivo da quadra e a sua memória ensalivava a espera da meia-noite.
Do menu, muito alentejano, o prato mais ligado à consoada sempre foi a carne de porco magra e entremeada, fritas em banha, depois de dois dias de barrada com alho e massa de pimentão, acompanhada com migas de batata sabiamente moldadas na tijela-de-fogo até ficarem num rolo com casquinha dourada, estaladiça. Havia ainda o rim de porco salteado em banha, com muito alho e louro e uma golada de vinagre, prato que a mãe fazia, mas não comia.
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– A mim, sabe-me sempre a xixi. Comam vocês, já que tanto gostam. É só por isso que os faço.
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– Dans le cochon tout est bon – gostava o pai de dizer sempre que se lhe deparava uma tal oportunidade, embora nunca tivesse sido um apreciador da carne do dito.
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Nas guloseimas sempre tivemos a enxovalhada, um bolo feito com massa do pão, perfumado de canela. E havia o arroz doce, o manjar branco...
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Tais pitéus, o sapatinho na chaminé, em criança, e a alegria do regresso à família, em crescido, foram coisas boas que recordo com sorrisos e, às vezes, com uma lágrima atrevida a querer passar por baixo do aro dos óculos.
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Desses tempos ficou-me a mesa. Depois de tantos anos e de muitas voltas, veio parar às minhas mãos. Está hoje em casa do meu filho Rui que a mandou consolidar e a restaurar num dos pés, meio comido pelo caruncho, na convicção, quero imaginar, de que voltará um dia a ser mesa de muitos pés.

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