Terminada a licenciatura em Geologia, em 1961, e sem qualquer preparação no domínio das ciências da educação, comecei imediatamente a leccionar, primeiro como assistente em aulas práticas e, só mais tarde, após o doutoramento, como regente de aulas teóricas. Os tempos eram outros e a tarimba do docente universitário desse tempo era passar pela maioria, senão todas, as disciplinas do Departamento. Quer em trabalhos práticos no laboratório e no campo, quer em auditórios, por vezes com mais de uma centena de alunos, os docentes dos anos 60 e 70 do século que virou eram conduzidos a uma visão eclética da área científica da respectiva licenciatura. Tal procura de ecletismo, consentida por uma então muito menor especialização do saber científico, estava bem patente nas modalidades de doutoramento e de agregação de então, marcadas por provas incidindo sobre a totalidade das disciplinas dessa área científica, em complemento das necessárias dissertações. O docente da minha geração criava a sua própria pedagogia, determinava-lhe os conteúdos, regia-a a seu modo e examinava os próprios alunos no final do ano ou do semestre.
Por razões diversas, umas bem conhecidas, outras não tanto assim, é frequente, numa qualquer turma, haver um, dois ou mais estudantes menos motivados, visivelmente desinteressados da matéria em estudo. Face a estes alunos, logo identificados nas primeiras aulas, adoptei uma estratégia que quase sempre resultou. Dava-lhes mais atenção, procurando estabelecer com eles um relacionamento de simpatia que lhes tornava agradável o convívio comigo e, consequentemente, a frequência às aulas. Colocava-lhes problemas muito simples, ajudando-os a resolvê-los sem que dessem conta dessa ajuda. Posto isto, elogiava os seus progressos e dava-lhes tratamento que lhes despertava auto-estima, os estimulava a gostar de saber e, por essa via, a gostar de estudar. Para as dúvidas e para recuperarem parte dos atrasos, contavam comigo sem reservas nem receios de revelar dificuldades. Estabelecida uma tal relação de simpatia e confiança, era fácil abordar temas que fossem dar à cidadania e ao dever cívico do estudante que é, em particular, estudar.
Este que foi o meu modo de conviver com os alunos, alegre, cordial, transparente e responsável, tinha como consequência a presença nas aulas da grande maioria dos alunos, do começo ao fim do curso. Uma grande aproximação entre nós intensificava-se nas saídas ao campo e tinha efeitos benéficos até durante os exames, em especial, nas provas orais. Nestas o examinando sentia-se na presença de quem lhe transmitia conhecimento, mas também de um amigo, e não na de um qualquer frio e distante examinador.
4 comentários:
O dever cívico de estudar
e gostar de saber,
são bases para se elucidar
e para a erudição conceber.
Seja no meio familiar,
seja no meio escolar,
a forma de os conciliar
deve o saber propalar!
Caro Professor Amorim,
Permita-me uma ligeira discordância da nota principal deste seu artigo, interessante como habitualmente, pelos temas e pela sua forma peculiar de os escrever, aprazivelmente evocativa e afectuosa, que logo nos cativa, ainda antes de concordarmos ou discordarmos do seu conteúdo.
A condição afectiva que aqui exalta e, de certo modo, preconiza para captar o interesse dos alunos não me parece obrigatória, nem essencial, para o êxito da missão do Professor. Pode ajudar, aceito, mas não a julgo imprescindível.
Tive também muitos Professores, desde a Primária até à Universidade e raros foram os que se distinguiram pela afectividade, mesmo descontando a maior frieza dos tempos.
Todavia, com alguns desses Professores, por natureza, mais austeros, distantes e frios que o normal, aprendi bastante, eu e todos os que ganhavam interesse nas matérias.
Esta predisposição para aprender, sim, me parece fundamental e ela, no meu caso, era fortemente incutida em casa, na família.
Toda a força persuasiva que, a tal respeito, os meus pais empregavam era exercida no sentido de respeitar a figura do Professor, tomar toda a atenção ao que ele dizia, acatar a sua eventual má disposição, nunca o propósito de afrontar o Professor me era inculcado, ainda que ele fosse antipático, severo ou distante, características dominantes, como sabemos, nesses ásperos tempos ante-abrilinos.
Hoje, a atitude sobreprotectora dos pais, para com os filhos, faz com que os alunos quase exijam encontrar nos Professores os substitutos dos seus progenitores, bem como se sintam, por regra, pouco predispostos para aceitar naqueles a ausência de afectividade que, erradamente, tomam por hostilidade, contando invariavelmente com a cobertura familiar, no caso de uma qualquer, normal, admoestação recebida, no âmbito da aprendizagem de matérias ou de atitudes, nem sempre imediatamente compreendidas ou assimiladas.
Esta parece-me ser, hoje, uma das principais dificuldades em instituir um ambiente propício ao nobre exercício de ensinar/educar, no que reafirmo ou reforço o que já deixei anotado nos comentários ao seu anterior artigo da velha Ardósia.
O tempo actual criou algum pavor irracional ao exercício da autoridade e daqui provêm muitos equívocos que têm prejudicado gravemente a missão de Ensinar/Educar as novas gerações, que, habituadas a excessivas tolerâncias, vão ficando mal preparadas para sobreviver profissionalmente num mundo deveras competitivo, que contrasta em absoluto com a indulgência em que, desde muito cedo, se vêem embaladas.
No final, ao entrarem na vida prática, recebem um choque brutal, cínico e desapiedado, encontrando dificuldades inesperadas de toda a ordem.
Disto, sim, há que ter receio; não, de as educar na base do rigor, do respeito dos Professores, do acatamento de uma disciplina, racional, equilibrada, justa, mas disciplina sempre e não uma complacência permanente, excessiva, geradora de todos os defeitos, que, desde logo, os deixa impreparados para a Vida.
Eis aqui o essencial da minha parcial discordância.
Peço desculpa pela extensão do presente comentário, um pouco maior que o habitual.
Bom início de semana e votos de continuada inspiração para geral fruição de todos os que aqui se reúnem.
Um abraço.
Peço desculpa do erro deixado. Obviamente que me dirigia ao Professor Galopim.
Nem o adiantado da hora, nem o excesso de escrita justificam o lapso cometido, de que busco penitenciar-me com este pedido formal de desculpa.
RESPOSTA AO COMENTÁRIO DE ANTÓNIO VIRIATO
Como diz no seu comentário, foi com esses Professores, por natureza, mais austeros, distantes e frios, que o meu nobre amigo aprendeu bastante. Isto, como também testemunha no seu texto, porque teve a sorte de ter ganho em casa interesse nas matérias. Foi realmente o que aconteceu consigo, nessa fundamental e benéfica predisposição para aprender, fortemente incutida em casa, no seio da família.
Respeitar a figura do professor, tomar toda a atenção ao que ele diz, acatar a sua eventual má disposição, severidade e distanciamento são capacidades que nem todos os estudantes cultivam em casa, restando ao professor duas atitudes: ignorar os alunos menos motivados e com problemas (que tem o dever de procurar identificar) ou procurar recuperá-los, e essa recuperação não a vi fazer pelos tais mestres austeros, frios e distantes. E eu conheci-os bem de perto, quer como aluno de todos os escalões de ensino, quer como colega de docência na Universidade, ao longo de quatro décadas. Esses magníficos professores funcionam bem com alunos motivados, não com aqueles a que me referi na minha última crónica, que ficam irremediavelmente entregues à infeliz condição que a família e a sociedade lhes proporcionaram.
Face a estes, é minha convicção, porque foi esta a minha experiência, que apenas uma relação de simpatia recíproca e afectividade permite a aproximação
necessária à sua recuperação como estudantes conscientes.
Nuca esta aproximação, que assenta na solidariedade e na lealdade, pôs em
causa o respeito mútuo exigível na relação professor/aluno.
Um abraço
Galopim de Carvalho
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