Do lume de chão da cozinha da minha avó materna, tal como a conheci nos anos trinta do século passado, ao forno de microondas, vai uma distância tão grande quanto o tempo que entretanto decorreu, em que, de menino passei a avô, reformado e utente dos transportes públicos com passe de terceira idade.
Esta cozinha, onde brinquei e briguei boa parte da minha infância com o meu irmão Mário, dois anos mais velho do que eu, situava-se na Rua de Frei Brás, três prédios abaixo da casa dos nossos pais, alargando-nos o espaço e as experiências. De porta sempre aberta durante o dia, como única fonte de luz, permitia-nos alterná-la com a rua ao sabor das nossas brincadeiras.
Além de ser aquilo que lhe dava o nome, era sala de tudo, de entrada, de jantar, de estar e, até, de dormir, se fosse o caso de algum parente, chegado de fora, ali ter de pernoitar. Era só pôr-lhe uma enxerga no chão e dar-lhe uma ou duas mantas. Num canto desta divisão multiusos havia o poço com água fresca, nunca analisada mas que nunca causou problemas. A contaminação dos aquíferos era um tema que ainda não preocupava ninguém.
O meu irmão Mário, o Marecas, como todos o tratavam, era o neto preferido da avó. Era o que passava mais tempo com ela, comendo e dormindo ali mais vezes do que qualquer um de nós, os irmãos. De vez em quando também eu lá almoçava ou jantava. Umas vezes eram sopas da panela com linguiça, toucinho do alto e carne da salgadeira, aromatizadas com raminhos de hortelã, outras vezes era açorda de bacalhau e outras, ainda, eram migas com carne entremeada, temperada de alho e pimentão, frita em banha. Ocasionalmente, havia sardinhas albardadas fritas em azeite. A meio da manhã ou da tarde, sempre que nos dava a fome, a avó dava-nos pão barrado com marmelada ou, à falta desta, com banha e açúcar.
Num tempo em que o frigorífico estava longe de ser o indispensável electrodoméstico dos dias de hoje, o cação e as sardinhas de barrica (em camadas com sal grosso de permeio) eram, praticamente, os peixes de maior consumo nas terras do interior. O bacalhau era ainda o “fiel amigo” e a carne fresca, um luxo. Num dia de festa, a avó matava uma galinha, outras vezes, um coelho. Por doença de alguém da casa, era a vez de um franganito.
Nos meses mais frios a avó acendia o lume de chão ao fundo da grande chaminé, tão grande que cabíamos todos lá dentro, ao borralho, sentados em mochos e cadeirinhas baixas. Tão grande que lá dentro cabia ainda uma mesinha onde duas pessoas podiam tomar uma refeição. O mesmo homem que, com uma carrocita e uma mula, fornecia os feixes de lenha ao padeiro da vizinhança, levava-lhe a lenha grossa e miúda que ela ia queimando com parcimónia, à medida das suas necessidades e das suas posses. Manhãzinha cedo, acendia o lume com a matula, nome que se dava a um trapinho sobrado da costura, embebido em azeite de fritar e, como tal, posto de parte para esse fim. Deixada a arder entre os gravetos, a matula transmitia o fogo às cavacas mais graúdas e estas, por seu turno, ao lenho maior, encostado à “boneca”, ao fundo da chaminé. Aí aconchegava uma cafeteira (também dita chocolateira) de barro, onde fazia o café (de cevada torrada e moída) para ela.
Para nós, à falta de leite, a avó fazia caldo de farinha, uma beberragem feita de água, farinha e açúcar, aromatizada com uma casquinha de limão e “ enriquecida” com uma colherzinha de banha “para dar sustento”. Vivia-se um tempo em que se valorizavam os alimentos mais gordos. Basta lembrar a frase corrente, “gordura é formosura”, para nos darmos conta dessa realidade. Neste mesmo lume de chão, ferventava, horas a fio, o cozido numa panela de barro e se aquecia a água para encher a botija que, à noite, se levava para a cama.
Um outro modo de fazer lume era o que usava o fogareiro de barro ou de ferro fundido. Os de barro eram baratos mas duravam pouco, ou porque estalavam com o calor, ou porque, num descuido, se partiam. Os de ferro resistiam a tudo, duravam uma vida mas eram mais caros. O fogareiro da avó era dos baratos No Inverno usava-o em complemento do lume de chão, alimentando-o com brasas que ia tirando dali. Nos meses em que não se servia da lareira, acendia-o, pegando-lhe fogo com a matula colocada entre os carvões, a que se seguia o avivar a chama com o abanico. À medida que este combustível doméstico da minha infância, ia perdendo calor, iam-se colocando novos carvões, a fim de manter o nível da temperatura necessário à confecção.
Nesse tempo a rede de distribuição de electricidade, em Évora, era rudimentar, assegurada por uma pequena central térmica, do lado de fora da muralha da cidade. Nem todas as residências beneficiavam desse conforto e a casa da avó pertencia a este conjunto. Ao fim do dia, acendia o candeeiro de petróleo, que pousava sobre a mesa, dando à casa a luz suficiente para o que nela se fazia àquela hora e nela se andar sem encalhar no que por ali estivesse. Trabalho necessitando de boa luz, como era a costura, fazia-se de dia, muitas vezes na rua, à sombra, se fosse Verão, ao sol, se o houvesse, em dias de Inverno. À hora de deitar, acendia uma vela, apagava o candeeiro e subia ao piso de cima, onde era o quarto de dormir.
A casa dos meus pais já tinha luz eléctrica e, embora tivéssemos uma grande chaminé na cozinha, não se fazia lume de chão. Tínhamos, sim, uma bancada de alvenaria com duas fornalhas a carvão. Eram os novos tempos e o progresso. Para a minha mãe, com mãos feitas ao dedal e às agulhas, e para o meu pai, escriturário, tinha de haver uma forma mais fina de usar o lume, mais consentânea com o seu dia-a-dia. Era assim que se pensava, e estas preocupações faziam a diferença entre os diversos protagonistas. Cozer um bolo ou assar uma perna de borrego, o que era uma necessidade em certas quadras festivas, obrigava-nos a recorrer ao forno do padeiro ou de alguém conhecido que o tivesse em casa. Um belo dia o meu pai comprou um fogão a lenha, todo em ferro, com uma caldeira em cobre e uma torneira em latão. Esta bela peça da serralharia de então só era acesa na ditas ocasiões. O resto do tempo não passava de um vistoso elemento decorativo, a meio da chaminé e a embelezar a cozinha. Um tostão era a recompensa que um dos filhos arrecadava pelo trabalho de lhe lixar, com lixa da mais fina, as partes de ferro a pedirem esse polimento (o aço inoxidável ainda estava por aparecer) e fazer brilhar, com solarina, o cobre da caldeira e o latão da pequena torneira.
Como hoje, o progresso não parava de avançar e eis que chega a nossa casa o então moderníssimo fogareiro a petróleo, da Casa Hipólito.
Mais ou menos paralelamente, a expansão dos fogareiros e fogões eléctricos, acompanhou a electrificação de, praticamente, todo o país, um progresso tecnológico que tem vindo a permitir a vulgarização dessa outra inovação que é o forno de microondas, electrodoméstico indispensável no ritmo vertiginoso das metrópoles, em perfeita conjugação com os congelados, os enlatados, os fast food e os take away dos dia de hoje.
11 comentários:
Olá Pofessor!sendo uma visitante assidua deste seu blog,não podia deixar de comentar o quanto me deixou nostalgica esta sua crónica.
Em todas as descrições eu lembro o meu tempo de menina,em minha casa só não havia o lume de chão,de resto é tudo uma cópia do que vivi.
Era-mos tão felizes com tão pouco....
Os meus respeitosos cumprimentos
Etelvina
Eu tenho "apenas" 62 anos (incompletos...) e lembro-me do acontecimento que foi comprar um frigorífico!
Pouco antes disso, lembro-me que uma tia minha punha os tachos junto de uma frincha da porta que dava para as traseiras da casa, para apanhar o fresco.
E isso não era na província, era em Lisboa (por volta de 1955)
Nos meses de Verão, a minha mãe envolvia num pano molhado a panela da sops que sobrasse do jantar e deixava-a ficar no parapeito da janela, ao fresco da noite.
Se assim nãi fizesse, a sopa azedava, como ela dizia.
E tem toda a lógica: provelmente a sopa não azedava. O azedar da sopa está relacionado com a presença de micróbios que têm um metabolismo fermentativo de que resulta a produção de ácido láctico. Ora quando a sopa está morna, como acontece no Verão, a temperatura é favorável à rápida multiplicação das bactérias lácticas, e por consequência à produção abundante de ácido, que rapidamente estraga a sopa. Ora, envolvento a panela num pano que se molhou em água fria, a uma temperatura mais baixa, e colocando-a ao fresco, devia manter o caldo a uma temperatura menos favorável à multiplicação das bactérias. É o (mesmo) efeito que procuramos obter quando colocamos alimentos no frigorífico. O frio do frigorífico não evita que os alimentos se alterem por acção microbiana, apenas retarda a velocidade do processo.
Desculpe, Professor, o atrevimento da hipótese explicativa.
Sendo de repolho, a sopa azedava mesmo. A canja também.
A minha mãe também deixava a panela muitas vezes dentro do lava-loiça com água.Para refrescar.
O frigorifico foi lá pra casa quando tinha os meus 6 anos. Como a televisão.
Tempos diferentes. Que não melhores para muitos.
Deixe-me acrescentar, José Baptista, que o pano molhado em volta da panela vai permitindo a evaporação da água. E a evporação é um processo físico que absorve calor ou, o que vai dar ao mesmo, faz frio.
É por isso que as bilhas de barro, sempre húmidas por fora, refrescam a água e é por isso que , estando transpirados, sentimos a frescura do vento.
Sim, sim. Agora percebo porque é que a minha avó guardava sempre água num "barril", creio que lhe chamávamos assim, de barro, com uma espécie de dois gargalos, um mais largo para entrar a água e outro, mais estreito, para a beber directamente ou para a vazar num púcaro. Insistia ela que no barro a água se conservava mais fresca. E era verdade, mas eu sempre supûs que me parecia mais fresca influenciado pela determinação com que a minha avó o afirmava.
Para que a água fique, de facto, mais fresca, a bilha não pode ser vidrada, pois é o facto de ser porosa que leva a água a infiltrar-se lentamente, atravessar as paredes, e depois a evaporar-se - provocando o dito arrefecimento.
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Quanto à conservação dos alimentos:
A temperatura está relacionada com o estado de agitação das moléculas.
Estando a comida mais fria, as reacções que levam à decomposição são, pois, retardadas.
Além disso, abaixo de certas temperaturas, os microorganismos responsáveis por essa degradação não se devem reproduzir. Ou será que hibernam?!
Tudo confere. O "barril" da minha avó não era vidrado. E era daquele que ela gostava...
Quanto aos micróbios: bactérias, leveduras, etc., há diversas espécies que têm diferentes temperaturas óptimas de desenvolvimento. Algumas espécies desenvolvem-se fantasticamente a temperaturas altas,de 35-40ºC, e essas gostam naturalmente da sopa morna. Outras espécies desenvolvem-se melhor a temperaturas mais baixas. É uma questão de metabolismo. Porém, as reacções metabólicas são catalisadas por enzimas, e é aí que reside o factor determinante da adaptação a diferentes temperaturas: cada enzima tem uma temperatura óptima de actuação...Claro que há uma temperatura abaixo da qual nenhuma enzima é capaz de actuar, por não haver energia cinética que permita o processo, e então as enzimas, que são proteínas, ficam inactivas. No entanto, basta subir a temperatura para essas enzimas retomarem a sua actividade, pois o arrefecimento não destrói a sua estrutura. É esta a razão por que a carne ou peixe descongelados se estragam e não podem voltar a ser congelados. As altas temperaturas têm um efeito diferente sobre a estrutura das enzimas: destroem-nas (alteram irreversivelmente a sua estrutura) e por isso os micróbios morrem. É por isso que usamos processos térmicos para esterelizar alimentos.
No meu comentário anterior, na última linha, onde escrevi "esterelizar" devia ter escrito "esterilizar".
Sendo, aprentemente, um bocadinho mais nova do que vocês, não posso contudo deixar de saudar um texto tão fresco (ou deverei dizer "tão quentinho"?)que me traz à memória os tempos da minha meninice, em casa da minha avó. Uma casa onde havia uma grande chaminé, uma enorme cozinha de telha vã, um poial dos cântaros - com a respectiva bilha de água sempre fresquinha em cima - e muitos candeeiros a petróleo que iluminavam as longas noites de Inverno passadas à lareira a discutir os recentes acontecimentos desse Verão quente de 1975.
Um ciberbeijinho
DD
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