Domingo, 28 de Agosto de 2011

O que eles fizeram pelas Ciências da Terra (9)

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George-Louis Leclerc
(Conde de Buffon)
(1707-1788)

MAIS CONHECIDO por conde de Buffon, foi um naturalista, matemático e escritor francês. As suas teorias influenciaram duas gerações de naturalistas, entre os quais se contam Jean-Baptiste de Lamarck (1744 - 1829) e Charles Darwin (1809 - 1882). Como matemático, correspondeu-se com o homólogo suíço Gabriel Cramer. Inspirado em Gottfried Wilhelm Leibnitz e em Johann Gottlieb Lehmann, Buffon foi o centro de todo o pensamento na história natural da segunda metade do século XVIII.

Frequentou o Colégio dos Jesuítas a partir da idade de dez anos e, em seguida, a Universidade de Angers. Começou por estudar Direito, mas o seu interesse rapidamente se virou para a matemática e, em especial, para as ciências naturais. Alheio às verdades bíblicas, escreveu sobre biologia, geologia e mineralogia, na sua monumental “História Natural”, em 36 volumes.
Precursor de Lamarck e Darwin, George-Louis Leclerc é considerado um dos maiores biólogos do seu tempo, tendo sido um dos primeiros a estudar cientificamente a origem das espécies. Em 1776, num pioneirismo evolucionista, disse que os animais procedem de outros animais.

Em Paris, conheceu Voltaire e outros intelectuais, ingressou na Academia das Ciências e tornou-se, em 1739, o intendente (director) do Jardim do Rei (depois Jardin des Plantes), reunindo aí espécies zoológicas e botânicas, ampliando-o e convertendo-o em museu e em centro de investigação científica, embrião do actual e prestigiado Muséum National d'Histoire Naturelle.

Na obra que escreveu de parceria com Louis-Jean-Marie Daubenton, A Teoria da Terra, editada em 1747, de grande divulgação na época e um sucesso editorial, expõe a sua concepção sobre a origem dos planetas. Defendeu que a Terra, à semelhança dos outros planetas do Sistema Solar, nascera de uma porção arrancada ao Sol por uma outra estrela que lhe passou ao lado. Segundo ele, essa porção de matéria solar incandescente tomou forma esferoidal e arrefeceu na sua capa superficial, restando-lhe calor interno suficiente para gerar a fusão dos magmas e alimentar o vulcanismo.

No que se refere à sua visão (errónea) de uma origem do nosso planeta num acidente “catastrófico”, como o descrito, Bufo não teve seguidores. Mas, na sua ideia de um interior muito quente, ele seguiu a concepção do seu conterrâneo René Descartes (1596-1650), que olhava a Terra como um sol abortado, que arrefeceu e solidificou externamente, mas conservando o fogo central.

Nesta convicção de um planeta a perder calor, corroborada por grandes pensadores como o alemão Emmanuel Kant (1724 - 1804) e o francês Pierre Laplace (1740 – 1827), Buffon procurou avaliar a idade da Terra e, nesse sentido, aseando os seus cálculos na taxa de arrefecimento do ferro, testada no seu laboratório, em Montbard, ele admitiu, em 1749, que a Terra fora gerada há 75 mil anos.A sua visão da Terra e do Sistema Solar e o número de anos que avaliara, considerado imenso quando comparado aos escassos seis milhares de anos bíblicos, constituíram revelações audaciosas que punham em causa as crenças religiosas tradicionais. Assim, como medida de prudência, o grande naturalista francês colocava a hipótese de que os seis dias da Criação, ensinados no Génesis, poderiam querer dizer seis longos períodos de tempo, dos quais o «Historiador Sagrado e Supremo» não determinara a duração. Não obstante esta cautela, Buffon foi alvo de perseguições e passou dificuldades na Faculdade de Teologia da Sorbonne. Os seus superiores hierárquicos acusaram-no de afirmações contrárias à Fé. Para eles, estas ideias de Buffon representavam uma ousadia inaceitável e, assim, este homem de ciência foi forçado a retractar-se e a declarar que não tinha qualquer intenção de contradizer o texto das Escrituras e que rejeitava o que, na sua obra escrita, dizia respeito à formação da Terra e tudo o que contrariasse a narrativa de Moisés.

Os 75 mil anos, divulgados por Buffon, representam, no entanto, um valor ínfimo ao que era a sua ideia inconfessada sobre a idade do planeta. Em manuscrito, que deixou aos seus seguidores, indica 3 milhões de anos para a história da Terra, dizendo que “quanto mais alargarmos o tempo, mais nos aproximamos da realidade” e, acrescentava com ironia, “todavia, é preciso encurtá-lo o mais possível para o confrontarmos com o poder limitado da nossa inteligência”.

Na sua obra “Épocas da Natureza”, publicada em 1749, concebe sete etapas à semelhança das épocas de que falavam os autores antigos e que, para ele, foram ditadas pela progressão do arrefecimento do planeta.

Na primeira destas épocas formaram-se os planetas segundo a visão explanada na sua “Teoria da Terra”.

Na segunda surgiram as rochas e elevaram-se as montanhas. Buffon admitia a origem ígnea do granito, o que o coloca entre os primeiros plutonistas, e defendia que o lento arrefecimento do globo estaria na origem dos enrugamentos testemunhados pelas montanhas.

Na terceira, a água, até então no estado de vapor, condensou e cobriu grande parte do globo, inclusive muitas terras actualmente emersas.

Na quarta, as águas desse mar universal recuaram e esse recuo foi o responsável pelo aprofundamento dos vales. Nesta mesma época os vulcões entraram em actividade.

Na quinta, falou da ocupação das terras do norte por animais e plantas.

Na sexta, admitiu a separação dos continentes.

Na sétima e última, disse que se começou a fazer sentir a presença do homem.
Deve dizer-se que as épocas de Buffon, que a ciência mostrou não terem realidade científica, eram um mero fruto do seu pensamento. Não tinham qualquer suporte em observações no terreno. Eram, em grande parte, ditadas pelo que ele acreditava serem as leis gerais da Natureza.

Numa outra perspectiva, igualmente errónea, Buffon dividia a história da Terra em dois episódios maiores: o da origem, no qual reinou o fogo, seguido de outro, muito mais longo, durante o qual se formaram as estruturas geológicas por acção das águas do mar.

Para se referir aos fósseis, nomeadamente as conchas, que defendia serem restos de moluscos marinhos desaparecidos, usava a expressão “espécies perdidas”, criada dois séculos antes por Bernard Palissy, muito antes do nascimento da paleontologia como ciência. Esses fósseis convenceram-no da presença de um mar que, no passado, ocupara as terras onde os encontrava, hoje deslocado, confirmando, assim, as conclusões de Leonardo da Vinci, divulgadas mais de dois séculos antes. Buffon fez a primeira síntese das observações geológicas dos seus contemporâneos e dos que o antecederam e apresentou a geologia (disciplina nascida com o italiano Ulisse Aldrovandi, a meados do século XVII) como uma ciência de carácter histórico, dominada pelas relações entre as terras emersas e o mar.

Repetindo uma ideia antiga desenvolvida na enciclopédia dos Irmãos da Pureza, em finais do século X, afirmou que as terras hoje a descoberto foram fundos marinhos e, assim, propôs que se observasse e estudasse o fundo do mar actual para que se descobrisse o que se passou em tempos idos. Esta visão é uma notável antecipação do caminho que conduziu à moderníssima concepção da geologia à escala global, bem esplanada na Teoria da Tectónica de Placas.

Como homem mais de gabinete e laboratório do que de campo, Buffon procedeu a experiências levando areias ao fogo e obtendo, assim, material de aspecto rochoso, coeso e duro. Com esta metodologia Buffon visava combinar comportamentos físico-químicos observáveis no presente e, com isso, inferir acerca de eventos do passado da Terra. Este e outros procedimentos afins revelam uma atitude perante a geologia a que mais tarde foi dado o nome de actualismo, doutrina que inovou muito antes de Hutton e Lyell.

George-Louis Leclerc foi um grande lutador pela verdade da ciência, contra os dogmas impostos pela Igreja católica romana. A história da Terra ia começar a ser desvendada.

1 comentários:

José Batista disse...

Mais um belíssimo texto, a permitir que muitos aplainem as arestas da ignorância. Por isso o li ontem e hoje o reli. Com o mesmo gosto. O que está escrito assim tem a vantagem de ser claro. Coisa que vai rareando nos novos modos de escrever das sumidades que mandam no "ensino". A este texto voltarei ainda, antes de o "roubar" (devidamente identificado) para o arquivo pessoal que vou ampliando.
Muito obrigado.