Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

MEMÓRIAS FARDADAS (8)

A vénia pela matemática
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NEM SEMPRE gostei de matemática. Aprendi a tabuada com a minha mãe que, enquanto costurava, me mandava recitá-la desde o dois vezes dois, quatro ao nove vezes nove, oitenta e um, numa cantilena de que a minha geração se lembra com saudade. Na escola primária, vá que não vá. A aritmética e a geometria prenderam a minha atenção e até gostei de fazer aqueles problemas complicados, na 4ª classe (4.º ano), de um tanque com 6,50 m de comprimento por 3, 20 m de largura e 1,75 m de fundo, recebe água de uma torneira, à razão de 7,5 litros por minuto. Quanto tempo demora este tanque a encher, até transbordar?

Mas no Liceu as coisas não correram tão bem, certamente por culpa minha, mas também, seguramente, por deficiência dos professores que me não souberam abrir o caminho e estimular o suficiente. Neste contexto, fui um aluno sofrível até ao 7.º ano (o actual 11.º), transitando de ano sempre coxo, como dizia o meu pai. E, como era previsível, nesse último ano, tive boas notas em todas as disciplinas, mas chumbei em matemática. E foi o melhor que me podia ter acontecido. Fiquei um ano a repetir esta matéria com um outro professor, este sim um verdadeiro mestre a ensinar e cativar os alunos. Era algarvio e, logo nas primeiras aulas, o Dr. Seruca procurou avaliar a bagagem dos seus novos alunos e eu era um deles.

- Se não souberes bem e se não te familiarizares com as bases da matemática, que são as coisas mais simples deste mundo, nunca gostarás desta disciplina. Pelo contrário, se aprenderes a lidar tu cá, tu lá com elas, irás ver que a matemática é uma das coisas mais lindas! – E continuou. – A matemática é como uma escada que se sobe, degrau a degrau, desde o primeiro até ao mais alto que se puder.

Na sequência desta conversa que, só por si, me predispôs a encetar uma nova maneira de ser aluno, passei a sentir prazer nas aulas deste professor. Voltei, por assim dizer, ao rés-do-chão da matemática e, encorajado e acompanhado por ele, fui subindo essa escada, ao longo desse ano, até ao patamar que, em cumprimento do programa, me era exigido. E passei no exame com uma boa nota que, associada ás obtidas nas outras disciplinas, me dispensaram do exame de admissão à Faculdade.

A geologia, ramo do conhecimento no qual desenvolvi toda a minha actividade docente e de investigação percorre muitos dos seus caminhos de mãos dadas com diversos domínios da matemática (trigonometria, cálculo diferencial, integral, vectorial e tensorial, probabilidades, erros e estatística, entre os mais utilizados). Áreas de investigação como cristalografia, tectónica, geofísica, petrologia, geoquímica e sedimentologia não prescindem destas ferramentas. Estou, pois à vontade para afirmar que, entre nós, povo, na grande maioria, inculto nesta e em muitas outras coisas do saber científico, generalizou-se uma injustificável vénia pela matemática, vénia que atesta este mesmo lamentável padrão nacional.

Corria o ano de 1953, os 108 cadetes a frequentarem o Curso de Oficiais Milicianos, na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, representavam uma razoável concentração de gente com qualificações académicas de nível universitário, nos campos científico e tecnológico, onde a matemática é uma constante.

- O fundamental é ter conhecimentos de matemática – dizia um dos nossos instrutores, um alferes do quadro permanente, muito convencido, num jeito mal disfarçado de aludir e valorizar a sua passagem pela Universidade. Com efeito, os candidatos às carreiras do exército e da marinha, à semelhança dos estudantes de engenharia, tinham de concluir umas tantas cadeiras, no âmbito dos chamados preparatórios, onde cabiam disciplinas da área da matemática. Só depois ingressavam na então Escola do Exército.

Este e outros jovens oficiais, talvez por se sentirem mais inseguros entre aquela população de universitários, muitos deles já licenciados, não paravam de fazer referência às cadeiras feitas na Faculdade E entre as constantes manifestações de vivência científica de nível superior, as passagens pela matemática eram ali sempre as mais invocadas. Estava, então, já instalada a vénia dispensada a esta disciplina, atitude que, ainda hoje, é um sinal de menoridade entre os portugueses. Ser-se bom em matemática, para além da crença generalizada e abusiva de cabal demonstração de inteligência, impunha-se ali como um certificado de boa craveira intelectual a somar às elevadas qualidades do verdadeiro militar.

É verdade que os cálculos necessários ao tiro de artilharia, sempre de longe e sem o alvo à vista, constituíam matéria da matemática. Só o cálculo permitia conhecer a trajectória do projéctil, determinar o ângulo de inclinação a dar ao canhão ou proceder à correcção do tiro. Também na topografia o cálculo das distâncias, altitudes e outros parâmetros, a partir dos ângulos medidos com o teodolito, utilizava diversas ferramentas matemáticas. E, dizia o alferes:

- Quem não tiver preparação matemática, especialmente na trigonometria, está lixado. Não chega lá.

Mas a verdade é que esses cálculos nada tinham de complicado. Havia uma marcha estereotipada para a sequência de operações a fazer e havia tabelas para tudo. Era um tempo anterior às calculadoras de bolso, aos computadores e aos respectivos programas. Todos os cálculos eram feitos à mão, com as então vulgares réguas de cálculo e, por vezes, com as calculadoras mecânicas de dar à manivela.

Assim, dizia ainda o nosso instrutor, estas tarefas não estavam ao alcance de um gajo de Letras ou de Direito e, por isso, esses iam para Infantaria, os coitados. Logaritmos, senos e co-senos, tangentes e co-tangentes tinham de ser tratados por tu. Eram o pão-nosso de cada dia. Daqui se podia concluir que os mais dotados, os craques, éramos nós e ele, claro. Artilharia era outra coisa!

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