domingo, 30 de Outubro de 2011

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (8)

.
EXEMPLOS DE CONGLOMERADOS


FORMADOS por blocos que, em termos meramente sistemáticos e académicos, correspondem aos clastos de diâmetro mediano superior a 256mm, merecem destaque alguns depósitos conglomeráticos muito grosseiros. Os blocos mais arredondados ou boleados são próprios de ambientes litorais e fluviais de alta energia. Blocs, em francês, e boulders, em inglês, estes megaclastos correspondem aos “matacões” dos nossos colegas do Brasil. Outros depósitos ricos em blocos são as moreias glaciárias e as rañas.

De grande viscosidade e competência de transporte, o gelo dos glaciares arrasta consigo, arrancados às diferentes rochas por onde passa, clastos de todas as dimensões, entre enormes blocos de muitas toneladas e partículas com a dimensão das argilas, constituindo depósitos terrígenos muito heterométricos (1), conhecidos por moreias ou morenas.

Uma das principais características dos fenoclastos dos blocos e calhaus das moreias é o aspecto estriado da sua superfície, em resultado dos “arranhões” produzidos ao deslizarem uns de encontro aos outros e sobre as rochas das paredes e do fundo rochoso dos vales.

Para alguns autores, moreia é a totalidade do depósito, incluindo a matriz fina e, por vezes, abundante, de aspecto argiloso (“argila dos tilitos”), mas que, no geral, é essencialmente pó de rocha resultante do referido deslizamento e consequente trituração e moagem. Nesta concepção, as moreias correspondem aos till dos autores ingleses, de onde deriva tilito (tillite, na designação internacional), termo introduzido, em 1906, pelo geógrafo alemão Albrecht Penk (1858 – 1945), e que tem sido preferencialmente adoptado para designar as moreias antigas, bem consolidadas, como são as do Paleozóico e do Pré-câmbrico, testemunhos de antigas glaciações no hemisfério austral. Na lógica da nomenclatura petrográfica, foi dado o nome de morenito à moreia consolidada. Todavia, este termo, proposto como sinónimo de tilito, não colheu aceitação entre os geólogos e geógrafos, tendo caído em desuso. Para outros autores, moreia é o amontoado caótico de blocos, depois de perder, por erosão, os terrígenos mais finos. Especialmente nos glaciares de montanha, no limite que lhes é imposto pela diminuição de altitude, o recuo das línguas de gelo verificado nos meses de Primavera e Verão, deixa parte das moreias a descoberto. Nestas situações, os elementos menos grosseiros acabam por ser retomados pelos caudais próprios do degelo, indo alimentar depósitos de tipo aluvial, apelidados de flúvio-glaciários e, eventualmente, sedimentar em lagos, constituindo depósitos adjectivados de glácio-lacustres.

Mais viscosa do que a água, mas menos do que o gelo, a lama, ou seja, material essencialmente silto-argiloso embebido em água, tem grande competência ou, por outras palavras, grande capacidade de transporte. Nas regiões subáridas e áridas, a ocorrência de escoadas lamacentas, muito viscosas, dá origem a depósitos muito heterométricos, que alguns autores designam por tilóides (2), onde coexistem elementos terrígenos de granularidade variável, entre a dos blocos e as das partículas de dimensão argilosa (3).

As rañas são depósitos grosseiros a muito grosseiros, correlativos da evolução do relevo e do clima, num período de transição do Pliocénico para o Pleistocénico. Estas vastas e, por vezes, espessas acumulações, sempre despertaram a atenção de geógrafos e geólogos. Raña é um termo espanhol usado pelos naturais da região dos Montes de Toledo, para designar as vastas superfícies aplanadas, cobertas por depósitos conglomeráticos muito heterométricos, formando superfícies de sopé (glacis) de muito fraco declive (<2%), nas quais se embutiu a rede fluvial quaternária, isolando interflúvios de perfil trapezoidal, a que os geomorfólogos chamam “mesas”.

Para os geógrafos e geólogos ibéricos, o termo raña refere, não a topografia, mas os depósitos grosseiros a ela associados, formados por blocos e calhaus de quartzito e/ou quartzo filoniano envolvidos numa matriz areno-lutítica (4) avermelhada ou amarelada, tonalidades estas devidas à presença, respectivamente, de óxido de ferro (ocre vermelho, hematite) e hidróxido de ferro (ocre amarelo, em especial, limonite). Estes depósitos resultaram de derrames torrenciais e caóticos, originando extensos leques aluviais, muitas vezes coalescentes, e mantos de inundação, passando depois a escoamento fluvial anastomosado (entrançado) nas áreas distais e aplanadas. As rañas representam a última fase de aluvionamento pliocénico, sob um clima de características semiáridas a mediterrâneas, com estações secas e húmidas bem contrastadas.

Descritas em Espanha pelo geógrafo E. Hernandez Pacheco (1912), as principais rañas existentes em território nacional foram inicialmente estudadas, nos anos 40 e 50 do século passado, pelos geógrafos Orlando Ribeiro e Pierre Birot, na Beira Baixa e na região de Lousã-Arganil, e Mariano Feio, no Baixo Alentejo.

Entre nós distinguem-se duas fácies deste tipo de depósitos. Uma delas, a que O. Ribeiro chamou raña de sopé, caracterizada pela natureza essencialmente quartzítica dos megaclastos subarredondados, que podem ultrapassar um metro cúbico, com origem nas cristas de quartzito do Ordovícico existentes a norte e a sul da Cordilheira Central. Pertencem a este tipo os Conglomerados de Telhada e de Santa Quitéria, na Bacia do Mondego, os Conglomerados da Serra de Almeirim e de Vila de Rei e os associados à Formação de Falagueira, na Beira Baixa. A outra fácies, contemporânea, a que o mesmo autor deu o nome de raña de planície, bem representada no Baixo Alentejo, na Formação de Panóias e na Unidade de Mesas (Vidigueira), caracteriza-se pela natureza essencialmente quártzica dos fenoclastos, de dimensões muito mais reduzidas (<25cm de diâmetro mediano), geralmente angulosos a subangulosos, resultantes da erosão dos relevos de xisto profusamente atravessados por filões de quartzo.

(continua)
-
(1) - Com grande diversidade de calibres. Onde os clastos variam entre muito grosseiros e muito finos.
(2) - Semelhantes, no aspecto, aos tilitos (glaciários) embora com outra origem.
(3) - Nas condições climáticas destas regiões, a produção de argilas por alteração dos silicatos das rochas é muito fraca ou, praticamente, nula, o que não impede que haja partículas de dimensão argilosa, ou mesmo argilas detríticas provenientes da erosão de rochas sedimentares argilosas.
(4) - Essencialmente, silte e argilas, como ilite e caulinite.

Sem comentários: