Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (20)

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GRAUVAQUES

INTRODUZIDO na nomenclatura litológica, em 1789, por GS Otto Lasius, o velho termo mineiro alemão Grauwacke, ou pedra cinzenta (em inglês, graywacke), referente a uma rocha de origem sedimentar, estratificada, descrita nas montanhas do Hartz, na Alemanha, radica nos elementos germânicos grau, cinzento, e Wacke (1) que significa pedra friável.

Com mais de 15% de matriz, ocupando praticamente todos os vazios entre os grãos detríticos, os grauvaques são rochas coesas, consideradas as equivalentes paleozóicas e pré-câmbricas dos arenitos líticos do tipo dos fliches (2) alpinos. De fácies exclusivamente marinha profunda, em sequências que podem atingir vários milhares de metros de espessura, a sua génese está associada às correntes de turbidez ou de densidade, nos limites das margens continentais de então, e trazidos à superfície na sequência dos pregueamentos orogénicos de que resultaram as antigas cadeias montanhosas (mais ou menos destruídas pela erosão) onde os podemos observar.

Em conformidade com a fácies que os caracteriza, os grauvaques exibem granotriagem (3) e outros tipos de estruturas compatíveis com o transporte pelas referidas correntes de densidade, quer nos deltas e leques submarinos, quer nas orlas das planícies abissais.

De granularidade variável, os grauvaques contêm quartzo (20 a 50%), feldspatos sódicos e/ou potássicos, micas, litoclastos microquartzíticos, pelíticos e, muitas vezes, vulcaníticos.

No cimento, além de minerais argilosos, com destaque para a ilite e a clorite, é comum a presença de carbonatos (calcite e/ou dolomite), sílica e óxidos de ferro.

De cor habitualmente cinzenta, os grauvaques podem apresentar-se com tonalidades esverdeadas, acastanhadas, avermelhadas, etc., em consequência da inclusão de certos minerais corados, como são a clorite (verde) e os óxidos de ferro (amarelo, castanho, vermelho).

Constituindo, a par dos xistos argilosos, as rochas dominantes dos tempos antemesozóicos, os grauvaques são textural e composicionalmente imaturos, granulometricamente mal calibrados e com acentuado carácter anguloso dos clastos. Da matriz faz parte uma fracção primária, sinsedimentar, e uma outra, secundária, pós-deposicional, resultante de alterações de grãos minerais e líticos, mais ou menos instáveis, no decurso dos processos metassomáticos (4). Enquanto que os grãos de quartzo, muito estáveis, permanecem intactos, os litoclastos instáveis e os grãos de feldspato cedem material para a formação da matriz e do cimento, ou que se perde em solução, na proporção da sua instabilidade, podendo, mesmo, desaparecer. Quando presentes, os fósseis associados correspondem a organismos pelágicos.

Nos fliches antemesozóicos, os grauvaques alternam, mais ou menos ritmicamente, com xistos argilosos. Nesta alternância e tendo em conta os limites texturais convencionalmente aceites, os grauvaques de granularidade mais fina (com maior percentagem de matriz) caem no âmbito das rochas pelíticas. Quando, no terreno, se observa, em pormenor, uma sequência do tipo fliche como a do nosso Complexo Xisto-grauváquico, do centro e norte do país, ou a do Carbónico marinho do Alentejo, verifica-se que se passa insensivelmente de xistos argilosos, muito finos, a grauvaques e vice-versa, uma realidade que o artificialismo e a rigidez das classificações não contempla.

Via de regra, como acontece em Portugal e em todas as regiões do Globo afectadas pelas grandes orogenias paleozóicas (Caledónica e Hercínica ou Varisca), as rochas a que chamamos grauvaques sofreram os efeitos das acções metamórficas associadas a esse geodinamismo, mas num grau suficientemente pouco intenso que lhes não apagou a estrutura sedimentar e o carácter detrítico que os caracterizam. Assim sendo, alguns autores preferem designá-los por metagrauvaques (5). O metamorfismo que os marcou, ainda que ligeiro (anquimetamorfismo (6)), está sobretudo expresso nas transformações operadas sobre os filossilicatos (7), em especial na clorite e na ilite. Nestes termos e à semelhança dos xistos argilosos, que os acompanham, são considerados rochas metassedimentares embora, em termos de sistemática, continuem a ser classificadas entre as sedimentares.
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(1) -
Wacke - Termo usado na Alemanha para referir o basalto alterado que perdeu a cor e a coesão originais. O termo foi usado entre nós, em finais do século XIX, princípio do século XX, para referir um certo tipo de materiais piroclásticos, mais ou menos alterados, do Complexo Vulcânico de Lisboa-Mafra.

(2) - Fliche – Termo traduzido do inglês flysch, designa uma formação sedimentar marinha profunda, representada por sequência de turbiditos.

(3) - Granotriagem –– sedimentação detrítica gradada, isto é, os detritos mais grosseiros estão na base do depósito, seguindo-se, para o topo, detritos cada vez mais finos. Este tipo de gradação é característico dos turbiditos. O mesmo que granoclassificação e granocalibragem. Corresponde ao graded bedding dos autores de língua inglesa.

(4) - Metassomatismo – Substituição de um mineral por outro de composição diferente, o que acontece quer ao nível da diagénese quer ao nível do metamorfismo. O mesmo que metassomatose.

(5) - Metagrauvaques - Na realidade, o grauvaque é, normalmente, uma rocha que já sofreu metamorfismo, ainda que ligeiro, pelo que o termo metagrauvaque pode ser considerado redundante.

(6) - Anquimetamorfismo – Metamorfismo de muito baixo grau, fazendo transição com a diagénese. Caracteriza-se pela paragénese zeólito-prehnite.

(7) - Filossilicatos – Classe de silicatos caracterizada pela organização dos seus elementos em folhas paralelas, exemplificado pelas micas e pelos minerais argilosos. O termo radica no grego phyllon, folha.

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