PELITOS
Em suspensão nas águas, as argilas acabam por decantar ou sedimentar por imobilização destas, fazendo-o, muitas vezes, depois de flocularem, isto é, de se aglutinarem entre si, constituindo agregados de partículas, mais rapidamente atraídos para o fundo.
Muita da poeira atmosférica é constituída por finíssimas partículas argilosas e siliciclásticas, de dimensão equivalente, levantadas do chão pelo vento, em tempo seco. É frequente, por exemplo, em Lisboa, no Verão e na sequência de “borrifos” de chuva, com vento suão, essa precipitação estival ser algo lamacenta, uma vez que incorpora as referidas poeiras vindas do Alentejo e, até, do norte de África. Nestas ocasiões, o fenómeno é particularmente bem visível nos pingos de lama sobre a pintura brilhante dos automóveis estacionados na cidade e dá-nos a confirmação do transporte destes materiais em suspensão na atmosfera.
Muita da poeira atmosférica é constituída por finíssimas partículas argilosas e siliciclásticas, de dimensão equivalente, levantadas do chão pelo vento, em tempo seco. É frequente, por exemplo, em Lisboa, no Verão e na sequência de “borrifos” de chuva, com vento suão, essa precipitação estival ser algo lamacenta, uma vez que incorpora as referidas poeiras vindas do Alentejo e, até, do norte de África. Nestas ocasiões, o fenómeno é particularmente bem visível nos pingos de lama sobre a pintura brilhante dos automóveis estacionados na cidade e dá-nos a confirmação do transporte destes materiais em suspensão na atmosfera.
A maior parte das rochas habitualmente adjectivadas de argilosas, como são os xistos argilosos, só o são no aspecto. Na realidade, são formadas por uma mistura de partículas realmente argilosas (argilominerais) com outras de silte, no qual predomina o quartzo. Representam cerca de 80% das rochas sedimentares.
São muitas e diversas as ocorrências de rochas silto-argilosas nas séries continentais siliciclásticas mesozóicas e cenozóicas, onde constituem, geralmente, intercalações lenticulares no seio de arenitos, uma associação a que já se fez a devida referência. Muitas das “argilas” citadas na nossa bibliografia geológica referente a estas unidades estratigráficas são, de facto, misturas silto-argilosas. Correspondem, no conjunto, aos mudstones (1) (de mud, lama) dos geólogos de língua inglesa, termo que os brasileiros traduziram como lamito, um nome que ainda não entrou no nosso vocabulário da especialidade.
Quando os pioneiros alemães faziam uso do termo pelito (do grego pelos, lama) e os americanos introduziam o termo lutito (do latim lutu, lama, vasa) para designar o mesmo tipo de sedimentos silto-argilosos, estava-se ainda longe de separar as duas classes dimensionais (siltes e argilas) neles reunidas e só mais tarde definidas na escala, internacionalmente aceite, de Wentworth (1922). Com o mesmo significado granulométrico de pelito, o lutito é, para alguns autores, restrito aos materiais não coesos (móveis), reservando-se o primeiro destes dois nomes para as correspondentes rochas consolidadas.
Em 1834, o inglês Charles Lyell introduziu na literatura geológica o termo loess, por adaptação do termo vulgar germânico Löss (do alemão lose, friável, não coeso). O loess foi então definido, entre os geólogos, como um depósito sedimentar detrítico, não estratificado, mais fino do que as areias finas, friável, não coeso, de origem eólica em ambiente periglaciário, contendo uma fracção terrígena (essencialmente silte+argila) e, por vezes, uma outra, calcária.
Quando impregnados de água e, por vezes, misturados com matéria orgânica, como acontece nos solos, os sedimentos silto-argilosos constituem o que vulgarmente de designa por lama (do latim, com a mesma grafia, que significa atoleiro, charco), que corresponde à boue dos autores franceses, ao mud e ao loam dos ingleses, ao Loehm dos alemães e ao fango (2) dos nossos irmãos ibéricos.
Geralmente silto-argilosas, as varvas (3) foram inicialmente definidas como depósitos lacustres subactuais finamente laminados (à escala milimétrica ou inferior) com alternância de finos leitos argilosos (escuros devido à presença de matéria orgânica) e siltíticos (claros), indicadores da variação dos processos físicos, químicos e biológicos decorrentes da alternância gelo-degelo nos glaciares a montante. Cada par de lâminas (clara e escura) equivale, pois, a um ano e, assim, as varvas têm sido utilizadas em geocronologia absoluta (4), em depósitos do Quaternário.
A rematar esta referência aos pelitos ou lutitos, resta aludir a alguns nomes de uso corrente. Barro (do latim hispânico, barrum) designa um material argiloso impuro, independentemente da sua origem, que tanto pode ser sedimentar (na sequência da deposição, no essencial, de partículas argilosas), como residual (na sequência da alteração de uma rocha preexistente rica em aluminossilicatos, como são os feldspatos)). Entendem-se por impurezas do barro os detritos líticos e minerais (no geral, quartzo, feldspato, micas, etc.) bem como as impregnações de óxidos e hidróxidos de ferro responsáveis pelas habituais colorações avermelhadas (hematite) e amarelo-acastanhadas (limonite). Outros nomes, muito menos frequentes, para designar o barro são terra de greda (5), (termo caído em desuso) e mataca e tijuca (no Brasil). Nas classificações anteriores ao séc. XIX, o barro figurava na classe das “terras”, razão pela qual os franceses ainda usam o termo terre, os ingleses earth e nós ainda utilizamos expressões como terracota, terra sigilata, terra de pisoeiro, terra rossa e a já referida terra de greda.
Como produtos de alteração, no âmbito das chamadas rochas residuais, recordam-se os barros vermelhos de Ral (Ferreira do Zêzere), Santa Catarina (Tomar), Menoita (Guarda) e no Alentejo, por alteração quer dos xistos, quer de plutonitos básicos, quer do grande filão dolerítico que percorre esta província de NE para SW. Com conhecido interesse na agricultura cerealífera, também os chamados “barros de Beja”, negros, resultaram da alteração dos gabrodioritos locais. Igualmente residuais são os caulinos associados aos granitos e gnaisses da faixa litoral a norte de Aveiro (já atrás referidos, a propósito dos saibros) e, ainda, as esmectites resultantes da arenização dos gabrodioritos de Benavila (Avis).
(continua)
--(1) - Mudstone - Termo introduzido na terminologia geológica, em 1839, pelo geólogo inglês R. Murchinson, para referir uma rocha xistenta, muito friável, do Silúrico do País de Gales.
(2) - Fango - Relacionada com este termo, dispomos, em português, da palavra fangoterapia, o tratamento clínico com lamas.
(3) - Varva - Termo introduzido por G. Ger, em 1912, a partir do sueco varv.
(4) - Geocronologia absoluta – Permite conhecer a idade em anos.
(5) - Greda - Do latim creta, argila. O mesmo étimo está na origem do termo cré, usado para designar o calcário friável que deu o nome ao Cretácico e a Creta, a ilha mediterrânea.
1 comentários:
muito obrigada!
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