Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

O QUE ELES FIZERAM PELAS CIÊNCIAS DA TERRA (14)

Carlos Ribeiro
(1813 – 1882)

FUNDADOR da geologia portuguesa, iniciou os seus estudos neste domínio a meados do século XIX, sendo, praticamente, o único estudioso que, na época, se ocupava deste tipo de investigação. Tendo reconhecido o trabalho de observação realizado no terreno como via essencial ao prosseguimento dessa mesma investigação, inovou a cartografia geológica, uma prática quase inexistente no panorama científico da geologia portuguesa. Foi o primeiro geólogo português que, no quadro dos conhecimentos de então, estabeleceu a sucessão estratigráfica dos terrenos de Portugal continental, sendo considerado o fundador da estratigrafia portuguesa. Carlos Ribeiro viajou por diversos países da Europa e manteve correspondência regular com os mais eminentes geólogos da época.

Nascido de uma família de poucos recursos, conseguiu, com muito empenho e com o apoio de amigos, finalizar os estudos que o habilitaram a ingressar no ensino superior. As lutas liberais arrastaram-no para o serviço militar e, terminados os conflitos, em 1834, retomou os estudos na Academia Real de Marinha e, depois, na Escola do Exército, concluindo, em 1837, os cursos de artilharia e de engenharia com distinção. Em 1840, estando em serviço no Porto, no 3º Regimento de Artilharia, deu seguimento à sua vocação para uma carreira técnico-científica, frequentando, com notoriedade, o curso da Academia Politécnica. Colocado na Companhia das Obras Públicas de Portugal, foi encarregado de dirigir a construção da estrada de Lisboa às Caldas da Rainha e da de Carvalhos a Ponte de Vouga, obras que lhe puseram à frente dos olhos a natureza dos terrenos esventrados no traçado daquelas vias, intensificando grandemente o seu interesse pela geologia.

Em 1849, começou trabalhar nas minas de carvão do Cabo Mondego e do Buçaco. Três anos depois foi convidado, por Fontes Pereira de Melo, para chefiar a 4ª secção da Repartição Técnica da Direcção Geral de Obras Públicas, com a missão de superintender a actividade das minas e pedreiras e os trabalhos geológicos do reino, em início de organização. Em 1855, em conjunto com Francisco António Pereira da Costa, lente de Mineralogia e Geologia da Escola Politécnica de Lisboa, elaborou a Lei de Minas e, nos anos que se seguiram, assegurou as funções de chefe do Serviço Geológico com as de chefe da Repartição de Minas e Pedreiras e, ainda, as de vogal do Conselho de Obras Públicas e Minas.

Com vista à elaboração da cartografia geológica do país, no seguimento de uma política de avaliação das nossa potencialidades no que respeita minas e pedreiras, foi criada, em 1857, a Comissão Geológica de Portugal (embrião do actual Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia), cuja direcção lhe foi confiada em partilha com Pereira da Costa. Este organismo foi reformulado um ano depois, dando surgimento à chamada 5ª Secção da Direcção dos Trabalhos Geodésicos, Topográficos, Hidrográficos e Geológicos do Reino, sendo Carlos Ribeiro nomeado o seu director, cargo que honrou até ao fim dos seus dias, em 1882, sucedendo-lhe outro grande nome da geologia portuguesa, Joaquim Filipe Nery Delgado.

Na década de 1850, Carlos Ribeiro traçou o primeiro esboço de uma carta geológica da região compreendida entre o Tejo e o Douro e uma outra do Alentejo, duas realizações que contribuíram para a elaboração do referido Mapa Geológico de Portugal, na escala de 1:500 000, e que Verneuil e Collomb utilizaram na elaboração do mapa geológico da Península Ibérica, publicado em 1864. O referido Mapa Geológico de Portugal, que concluiu, em colaboração com Nery Delgado, só foi oficialmente publicado em 1867.

Tendo estabelecido relações com Daniel Sharpe, um geólogo inglês com trabalho realizado e publicado em Portugal, corrigiu com acerto algumas das observações deste conceituado visitante.

Carlos Ribeiro desenvolveu diversos estudos de geologia mineira e de hidrogeologia, com destaque para o estudo do abastecimento de água à cidade de Lisboa, e foi o grande impulsionador dos estudos de arqueologia e pré-história em Portugal. Atribuem-se-lhe as descobertas das as grutas do Poço Velho (Cascais), das Antas do Monte Abraão (Belas) e do povoado de Leceia (Oeiras). Deve-se-lhe a importante descoberta em, 1863, dos “Concheiros de Muge” (idênticos ao célebres Kioekkenmoeddinger da Dinamarca), do período do Mesolítico, constituídos por um vasto amontoados de conchas de moluscos e outros restos de comida, encontrados junto desta povoação do vale do Tejo, associados a esqueletos humanos, objectos talhados em pedra e em osso e outros vestígios.

Este notável precursor da geologia portuguesa dedicou os últimos anos da sua vida em busca de vestígios de actividade humana (eólitos, erroneamente interpretados como utensílios líticos) nas formações miocénicas e pliocénicas da Bacia do Tejo.

Mercê de uma sua convicção (errónea) sobre a existência de um hominídeo, a que deu o nome de Homo taganus, segundo ele, surgido nesses tempos e autor desses utensílios, promoveu uma discussão que extravasou fronteiras, que remetia para o Terciário os começos da presença do Homem na Terra. Por seu empenho e para debate desta questão, teve lugar em Lisboa, em 1880, o “IX Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas”.

Membro de várias sociedades científicas, portuguesas e estrangeiras, Carlos Ribeiro foi galardoado com diversas condecorações nacionais e internacionais.

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