Domingo, 1 de Janeiro de 2012

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (23)

A COMEÇAR o novo ano, numa tomada de consciência, que está a pôr em destaque a necessidade de uma mudança de mentalidades no sentido de, pelo trabalho, sobretudo pelo trabalho, procurar a excelência como um direito e um dever de cidadania, os professores, a quem disponibilizo muitas das horas dos meus dias, escrevendo em especial para eles, têm responsabilidades acrescidas.
E por ser evidente que quem ensina deve possuir um suporte científico e cultural à altura dessas responsabilidades, aqui deixo, nos textos e em notas de rodapé, parte do que a profissão e a vida me ensinaram.

E já chega de festas! Vamos começar o ano a trabalhar!

Por favor, divulgue estes textos entre os seus colegas e os seus alunos.
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ARGILITOS (continuação)

“Nenhum material extraído da Terra tem tantas e tão variadas aplicações como a argila...Desde há mais de 10 000 anos, o Homem vem usando a argila e para ela vai encontrando novas aplicações.”, escreveu o Prof. Celso Gomes, da Universidade de Aveiro, em 1998. Entre as múltiplas indústrias e artes que utilizam esta importante matéria-prima sobressaem os diversos tipos de cerâmica (porcelana, faiança, refractários, barro vermelho), o cimento, a fundição (nos moldes), o papel, a borracha, os plásticos, as tintas, os cosméticos, entre muitas outras.

Argilito é o termo da nomenclatura petrográfica, corrente no discurso sedimentológico. Corresponde, no essencial, ao conceito vulgar de argila (1) ou barro (2). Na indústria cerâmica da porcelana, na do papel e na de certas tintas utiliza-se uma argila muito pura, com a propriedade de se manter branca (3) depois de cozida. Esta argila merece o nome industrial de caulino (4), termo tecnológico e comercial, bem definido pelas especificações oficialmente estabelecidas para esta matéria-prima. A faiança é um outro tipo de cerâmica de cor entre o branco e o marfim, menos rica em caulino e mais porosa do que a porcelana, a que se associa uma argila mais plástica, como é a montmorillonite (5).


Do ponto de vista mineralógico o caulino é essencialmente formado pelos minerais argilosos caulinite e halloysite (6), dois silicatos (filossilicatos) hidratados de alumínio. Entre nós, merece especial referência o caulino da Senhora da Hora, a norte do Porto, resultante da alteração do granito da região e dele retirado por lavagem e decantação. As areias brancas, siliciosas, de Rio Maior, já referidas em texto anterior, exploradas com vista a importantes indústrias, fornecem também caulino, por lavagem, como valioso subproduto. As areias brancas de Coina, praticamente idênticas a estas e lamentavelmente desaproveitadas, seriam uma fonte “inesgotável” não só de areias especiais como de caulino.

Uma outra parte, não menos importante, da indústria cerâmica não exige tais requisitos e utiliza outros tipos de argilitos, menos puros (geralmente com óxido e hidróxidos de ferro associados) e que, uma vez submetidos às elevadas temperaturas da cozedura (de cerca de 1000oC), intensificam ou adquirem cor vermelha ou avermelhada. Estes argilitos, referidos a nível industrial e artesanal por barros vermelhos, existem em grande quantidade por todo o país, alimentando a volumosa indústria de tijolos e telhas, bem como toda a série de artesanato de loiças de barro espalhadas do Minho ao Algarve e às ilhas.



Dá-se o nome de barbotina a uma suspensão estável de argila na água, formando um líquido pastoso, lamacento, usado na indústria cerâmica. A barbotina é vertida em moldes (normalmente feitos de gesso) concebidos para a produção de utensílios e objectos decorativos cerâmicos.

Muitos dos barros vermelhos correspondem a depósitos sedimentares, abundantes entre nós nas Orlas Mesocenozóicas (em especial no Triásico, no Jurássico superior e no Cretácico inferior e final) e nas Bacias Cenozóicas. Outras ocorrências não correspondem a acumulações sedimentares, mas sim, como já foi referido, a capas de alteração das rochas do subsolo, em especial rochas ígneas básicas (gabros, doleritos, basaltos) e rochas xistentas (xistos argilosos e filádios (7)). Nas regiões pobres de rocha ou pedra susceptível de ser usada em alvenaria, recorria-se ao barro na preparação de adobe (8) e de taipa (9) com que se erguiam muros, casas e até castelos, como acontece nalgumas zonas do Baixo Alentejo.


Ainda em termos industriais, distinguem-se as chamadas argilas especiais, assim designadas em virtude da sua aptidão para indústrias geradoras de produtos de valor comercial mais elevado. Entre elas destacam-se o já referido caulino, as argilas refractárias (fireclay), as esmectites (10) e as argilas fibrosas, com particular relevo para a palygorskite (11).

Em Aguada (Águeda), Barracão (Leiria) e Pombal exploram-se argilas refractárias, utilizadas no fabrico de tijolos refractários e outras peças de cerâmica resistentes ao calor.

As argilas esmécticas ou esmectites, (greda, na nossa versão popular) reúnem um conjunto de minerais argilosos de granularidade muito fina, de aspecto saponáceo, com grande poder absorvente das gorduras, sendo, por isso, utilizadas, desde há muito, na indústria de tecelagem artesanal, para a pisar, lavar e desengordurar a lã. Por esse motivo são também conhecidas por argila de pisoeiro ou terra de pisoeiro (12) (terre à foullon, em francês e fuller’s earth, em inglês).

Outras propriedades deste tipo de argilas, tais como, expansibilidade e a tixotropia (13). Esta última torna-as utilizáveis, por exemplo, como lamas de sondagem, pois lubrificam a coroa da sonda durante e perfuração e suportam as paredes do furo, uma vez retirada esta. Também as tintas tixotrópicas utilizam esta propriedade na pintura de paredes e tectos. Com o pincel a deslizar sobre a superfície a pintar, a tinta comporta-se como um líquido. Com ele parado, na mão do pintor, no percurso da lata à dita superfície, aparenta estar seca e não pinga.

São várias as ocorrências de argilas esmécticas em Portugal, quer residuais, resultantes da alteração de rochas básicas (plutonitos, filões e vulcanitos), quer sedimentares. Do primeiro tipo destaca-se a referenciada sob o nome de bentonite (14), resultante da alteração do gabro-diorito de Benavila (Avis), no Alentejo. Como esmectites sedimentares merecem destaque as argilas intercaladas nas Arcoses de Coja e na Formação do Bom Sucesso, ambas na Bacia do Mondego, nas Formações de Silveirinha dos Figos e de Cabeço do Infante, na Beira Baixa e as do Complexo Montmorilonítico, incluindo as Argilas de Tomar, na Bacia do Tejo-Sado.

Relativamente às argilas fibrosas, são igualmente várias as ocorrências em território nacional, quase todas sedimentares, de idade paleogénica, com destaque para as intercaladas no Complexo de Benfica (Lisboa) e seus equivalentes nas Bacias Cenozóicas do interior do País. Como produto de alteração e a título de curiosidade, cita-se a ocorrência da variedade de palygorskite conhecida por cartão da montanha, preenchendo fendas no basalto da região de Lisboa-Mafra.
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O leitor interessado encontrará os elementos preambulares e complementares essenciais ao conhecimento dos argilitos, incluindo a localização, em Portugal, dos principais tipos, no capítulo “Bacias Sedimentares em Portugal”, no Vol. I “Geologia Sedimentar”, da Âncora Editora, no capítulo “Mineralogia da Fracção Argilosa”, no Vol. II, da mesma obra, e no capítulo “Pelitos ou lutitos”, no Vol. III, também da mesma obra.

(continua)

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(1) - Argila - Do grego árgilos, através do latim, argilla.

(2) - Barro - Termo muito antigo, de origem pré-romana.

(3) - A brancura do caulino resulta da, praticamente, ausência de óxido ou hidróxidos de ferro que constituem as principais “impurezas” dos barros vermelhos.

(4) - Caulino - A palavra deriva do nome da colina chinesa Kao Ling, no norte da China. Durante muito tempo, os ingleses chamaram-lhe china clay.

(5) - Montmorillonite – Do nome da localidade Montmorillon, na região administrativa de Poitou-Charentes, no departamento de Vienne, em França.

(6) - Halloysite - Designação em homenagem ao geólogo belga, Jean Baptiste d'Omalius d'Halloy (1783-1875).

(7) - Filádio - Xisto afectado por metamorfismo de grau baixo, caracterizado pelo aspecto brilhante devido à presença de sericite ou de clorite, dois filossilicatos próprios deste tipo de rochas. O mesmo que xisto luzente.

(8) - Adobe - Usado na construção civil mais rudimentar, é considerado um dos antecedentes do tijolo de barro. É um bloco em forma de paralelipípedo moldado artesanalmente em toscas formas de madeira, feito de barro não tratado (tal como é retirado do terreno), água e palha ou outras fibras naturais.

(9) - Taipa - Técnica de construção primitiva, à base de barro e cascalho, usada no levantamento de muros e paredes.

(10) - Esmectites – Do grego sméktikós, lavar, desengordurar. Grupo de minerais argilosos, composto por montmorilonite, hectorite, beidellite, saponite e nontronite).

(11) - Palygorskite - Do nome dos Montes Palygorsk, nos Urais, Rússia. Também conhecida por attapulgite (de Attapulgus, na Geórgia, EUA)

(12) - Pisoeiro – Artífice que, artesanalmente, lavava e desengordurava a lã usando o pisão.

(13) - Tixotropia - Em linhas gerais, consiste na possibilidade de uma suspensão argilosa em água adquirir grande viscosidade, em repouso, comportando-se quase como um sólido, e fluidez quando agitada.

(14) - Bentonite – Assim designada por ter sido descrita em Fort Benton, no Wyoming, EUA.

2 comentários:

José Batista disse...

Sim, senhor Professor. Vamos começar o ano a trabalhar. E a contar com a disponibilidade de quem, graciosamente, nos ensina e nos ajuda. De modo efetivo, concreto, real. E que esta disponibilidade de uns para ensinar e de outros para aprender (e de ensinar também), seja estimulada pelo ministério da educação, definindo muito clara e objectivamente os conteúdos que devem ser ensinados: isto é, que sejam varridos os "nevoeiros" palavrosos e enganadores dos programas, que os alunos sejam alunos ou estudantes, e não "sujeitos aprendentes", que a ignorância seja chamada pelo nome para que a possamos combater, etc, etc.

Que construamos, pois, um ano realista e bom, mesmo sem ilusões (em que nos viciámos) e com sacrifícios (a que ganhámos alguma alergia...).

Obrigado pela sua ajuda.

José Batista disse...

Corrigenda: no primeiro parêntesis do meu comentário anterior, onde se lê "e de ensinar também", devia estar "e para ensinar também".