Domingo, 22 de Janeiro de 2012

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (28)

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Ambientes geradores de rochas sedimentares carbonatadas

FOI EM MARES de baixas latitudes, com águas límpidas, tépidas e pouco profundas como, por exemplo, as do Mar das Caraíbas, que se formou a grande maioria das rochas carbonatadas do registo geológico. As rochas desta mesma natureza, mas geradas noutros ambientes (abissal, lacustre, espeleolítico, evaporítico, pedogénico e eólico) têm, em termos de extensão e volume, uma importância relativamente reduzida.

Ao contrário das rochas terrígenas, a grande maioria das carbonatadas tem origem química ou biológica no local onde se formaram. São raros os calcários ou os dolomitos detríticos, isto é, resultantes da sedimentação de clastos destes tipos litológicos arrancados, por erosão, a rochas carbonatadas preexistentes.

Deve insistir-se em dizer que a separação entre rochas biogénicas e quimiogénicas é artificial, como é regra em petrografia. De facto, não é possível estabelecer uma fronteira entre estas duas categorias litológicas.

Boa parte das vasas ou lamas carbonatadas (as mesmas que, uma vez compactadas e litificadas, dão origem aos micritos (1), ditos de precipitação química, sem influência aparente de qualquer organismo vivo) são o resultado de actividade fotossintética, em especial por parte do fitoplâncton rico em clorofila que, como é sabido, consome CO2, precipitando o carbonato.

Na medida em que chamámos alóctones às rochas terrígenas, em virtude da sua deposição ter lugar longe dos locais de origem dos seus constituintes (fenoclastos, areias, argilas), chamamos autóctones às rochas carbonatadas (e a outras) cujos materiais são formados no seio da própria bacia de sedimentação. Mesmo os calcários referidos como detríticos ou clásticos cabem neste grande grupo, visto que os respectivos detritos provêm de sedimentos penecontemporâneos, não completamente litificados, retomados de dentro da própria bacia de sedimentação.

Os diferentes tipos de rochas carbonatadas pressupõem ambientes sedimentares próprios, que se caracterizam habitualmente dos pontos de vista da latitude, do clima, da fisiografia, da natureza geológica local ou regional, da fauna ou da flora. O conhecimento de tais ambientes, observáveis no presente e que admitimos terem existido no passado, permite-nos relacioná-los com os sedimentos que aí se estão a depositar e, com base nessa correlação, deduzir os ambientes próprios das rochas de diferentes idades do registo geológico. Entre os diversos ambientes de sedimentação carbonatada distinguem-se os:

- nerítico
- abissal
- lacustre
- evaporÍtico
- espeleolítico
- pedogénico
- eólico.

Ambiente nerítico

Este ambiente marinho de muito pequena profundidade (ou águas rasas) das regiões intertropicais (entre as latitudes 30º Norte e Sul) é o responsável pela grande maioria das rochas carbonatadas ao longo da história da Terra, com destaque para o que caracteriza as plataformas carbonatadas (2) e os altos fundos de idêntica natureza muito comuns no Oceano Pacífico, onde de situam centenas de atóis. Caracterizam-se por uma imensa actividade biológica, com variados e abundantes organismos produtores de calcite e aragonite (e, por vezes, de dolomite) e por condições físico-químicas indutoras da precipitação desses carbonatos ,(3) nomeadamente agitação, limpidez e temperatura das águas, sempre relativamente quentes (cerca de 30 0C em média).

Nestas plataformas é possível distinguir subambientes de sedimentação determinados por condições de profundidade e morfologia do fundo, dois parâmetros bastante interligados, relacionáveis com a energia hidrodinâmica (correntes marinhas, agitação provocada pela vaga) e outras como salinidade, luminosidade, fauna, flora e intensidade de evaporação, grandeza esta que depende da temperatura, da humidade do ar, da agitação, etc.

Entre tais subambientes distinguem-se os:

inframareal (4) aberto ao largo;
inframareal fechado por barreiras recifais, isto é, dentro da laguna;
recife, nas suas diferentes margens, a interna e a externa, e
talude recifal que faz a transição entre a plataforma carbonatada e a bacia oceânica.

Para o lado da terra há ainda a considerar as zonas

intermareal (5), com praias arenosas, lagunas evaporíticas e rasos de maré;
supramareal (6), geralmente sujeito às acções do vento e consequente formação de dunas.

Consideram-se dois tipos de construções recifais:

bioerma do grego bio (vida)+herma (rochedo), que consiste numa massa de calcário lenticular espessa, sem estratificação, edificada por organismos construtores como coraliários, algas coralináceas (Lithothamnium, entre outras) que permanecem em posição de vida;
biostroma, do grego bio+stroma (cobertura), corresponde a uma estrutura tabular de calcário, construída por certos organismos (rudistas, ostreídeos), constituindo uma ou mais camadas interstratificadas numa dada sequência.

Os recifes são proeminências de comportamento rochoso, emergentes ou não, de intensa actividade biológica e de grande resistência à acção mecânica das vagas.

Nas terras emersas das regiões intertropicais, em especial nas mais quentes e húmidas, a alteração das rochas é predominantemente química e o transporte, para o mar, dos iões de cálcio e de magnésio, à semelhança de outros, é feito em solução nas águas fluviais, sendo pouco importante a carga de detritos, carga essa prejudicial ao desenvolvimento dos seres que constroem o recife.

O mar das Caraíbas exemplifica este ambiente nerítico, com produção actual de areias carbonatados (bioclásticas) do tipo clorozoan (7). Estas areias, em constante movimentação, dão origem à formação de ôndulas (ripples), estruturas móveis com o aspecto de minúsculas dunas paralelas.

Dão, ainda, origem à estratificação entrecruzada,

como a que se pode ver no conhecido “Moca Creme”, um calcário do Jurássico de Alcanede (Santarém), usado como rocha ornamental.


Neste ambiente são frequentes os endurecimentos, por cimentação, do tipo hardground, termo inglês que alguns autores portugueses traduzem por duralito.

O Grande Banco das Bahamas é um planalto submarino (8) ao largo da Florida, com cerca de 700 km de comprimento por 300 km de largura, com profundidade inferior à dezena de metros. As ilhas locais são porções emergentes deste alto-fundo carbonatado, com destaque para a Ilha de Andros, a maior. Os sedimentos descritos nesta região são predominantemente areias bioclásticas e oolíticas, vasas ou lamas carbonatadas e calcários recifais. As areias, onduladas, formando, por vezes, dunas subaquáticas, ocupam a maior extensão desta plataforma. As lamas estão limitadas às áreas de maior profundidade e aos rasos de maré (9) a Oeste da grande ilha. Os fundos de lamas carbonatadas, em certas áreas desta região (na Baía da Florida, por exemplo), estão relacionados com “prados marinhos” do tipo do “Mar dos Sargaços”, a Oeste dos Açores, cujo emaranhado de algas flutuantes tem um efeito desorganizador (baffle effect (10)) e amortecedor da agitação marinha, proporcionando a imobilização de um material extremamente fino, granulometricamente afim dos pelitos terrígenos. Os calcários recifais formam uma barreira descontínua a Leste do referido Banco. À periferia, alguns sedimentos escapam-se deste banco e mergulham para os grandes fundos envolventes.

Os diferentes tipos de sedimentos carbonatados identificados no Grande Banco das Bahamas, no Mar das Caraíbas e na Baía de Campeche (Iucatão) constituem também o essencial da sedimentação no Golfo Pérsico, aqui acrescida de episódios carbonatados associados a evaporitos em lagunas e planícies ou rasos de maré salgados. As vasas, em grande parte aragoníticas, concentram-se nas zonas de águas mais tranquilas e nos ditos rasos de maré onde assumem estrutura laminada relacionável com tapetes de algas que, uma vez emersos, abrem fendas de dessecação ou de retracção, semelhantes às das vasas argilosas.

Na Austrália tropical, nas costas ocidental e de Queensland (NE), como a célebre Grande Barreira (Great Barrier Reef), existem ambientes de sedimentação com os correspondentes tipos de sedimentos, sendo de salientar o litoral da Baía dos Tubarões (Shark Bay) marcada pela abundância de estromatólitos actuais. Como última referência aos ambientes de sedimentação carbonatada, em águas pouco profundas, citam-se as orlas de milhares de ilhas e atóis dispersos no Oceano Pacífico.

Nas regiões temperadas, até cerca de 40º de latitude (N ou S), as plataformas continentais são sede de deposição conjunta de sedimentos siliciclásticos e carbonatados, em especial restos esqueléticos de foraminíferos e moluscos, conjunto a que os geólogos da especialidade dão o nome de foramol (11), numa estreita associação com sedimentos siliciclásticos, como é o caso na plataforma continental portuguesa. Com o aumento da latitude, a componente carbonatada vai diminuindo e a siliciclástica, aumentando, até ser praticamente exclusiva.
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(1)- Micrito – Calcário de aspecto compacto, essencialmente formado por um aglutinado de pequeníssimos grãos de calcite microcristalina (micrite), com 0,001 a 0,004 mm, constituindo o corpo de certos calcários ditos afaníticos ou calcários micríticos e a matriz de outros. Os micritos evidenciam a sua deposição em águas calmas, de muito pouca energia.

(2)- Plataforma carbonatada - Plataforma continental comum nas margens das regiões intertropicais, de águas mornas e límpidas, propícia à sedimentação de carbonatos. Por plataforma continental entende-se a continuação submersa da superfície litoral, caracterizada por um declive médio na ordem de 0,1%. Corresponde à zona nerítica e representa 7,5% do domínio marinho.

(3)- Nas zonas intertropicais, em especial nas mais quentes e húmidas, a alteração das rochas nas terras emersas é predominantemente química e o transporte para o mar de iões de cálcio e de magnésio, à semelhança de outros, é feito em solução nas águas fluviais, sendo pouco importante a carga de detritos.

(4)- Inframareal – Zona situada abaixo da faixa de oscilação das marés. O mesmo que infratidal.

(5)- Intermareal - Zona compreendida entre a baixa-mar e a preia-mar. O mesmo que intertidal.

(6)- Supramareal – Zona acima da faixa de oscilação das marés. O mesmo que supratidal.

(7)- Clorozoan - Termo construído a partir dos nomes clorofícea (alga verde marinha) e zoantário (coral recifal), dois conjuntos de organismos que, nestas plataformas, têm maior relevância na produção dos carbonatos.

(8)- Planalto submarino – Vasto relevo submarino de cimo aplanado.

(9)- Raso de maré – Extensa superfície litoral sub-horizontal (imperceptivelmente inclinada para o mar) alternadamente submersa e emersa, ao ritmo das marés.

(10)- Bafflestone – Este vocábulo, sem tradução em português, proposto na terminologia criada por Embry & Klovan (1972) radica na expressão inglesa baffle effect.

(11) - Foramol – Termo formado pelas primeiras letras das palavras foraminífero e molusco.

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