Domingo, 29 de Janeiro de 2012

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (29)

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Ambientes geradores de rochas sedimentares carbonatadas
(continuação)

Ambiente abissal

COM MENOR importância na acumulação de sedimentos carbonatados e, portanto, com menor expressão no registo estratigráfico, o ambiente marinho profundo ou abissal (1), nos fundos situados acima da já definida lisoclina, caracteriza-se pela presença de lamas ou vasas biogénicas (empapadas de água), resultantes da acumulação de restos esqueléticos de globigerinas (foraminíferos), pterópodes (pequenos gastrópodes planctónicos) e cocolitoforídeos (algas microscópicas), constituindo sedimentos abissais, também ditos pelágicos (2), bastante extensos nos mares actuais, cobrindo mais de um terço do fundo oceânico. Na base das vertentes ou taludes continentais que se seguem, em profundidade, às plataformas carbonatadas, formam-se turbiditos carbonatados, apelidados de alodápicos (3), com estruturas idênticas às das sequências pelíticas do tipo flysch.

Mais abundantes no presente, as vasas de globigerinas ocupam cerca de 126 000 000 km2 nas planícies abissais, a uma profundidade média na ordem dos 3600 m. As vasas de pterópodes, menos abundantes, distribuem-se por cerca de 2 000 000 km2, a menor profundidade, na ordem dos 2000 m. O teor de carbonatos destas vasas oscila entre 30 e 90%, com um valor médio de cerca de 65%.

Por razões que têm a ver com a solubilidade do carbonato das conchas e carapaças, em profundidade, de que já falámos a propósito do nível de compensação dos carbonatos, estes sedimentos rareiam abaixo dos 4000 m e estão ausentes abaixo dos 6000 m. Transportados por correntes de turbidez, a partir das plataformas carbonatadas e acumulados em leques na base dos respectivos taludes, os turbiditos alodápicos são constituídos por níveis de sedimentos carbonatados herdados dessas plataformas (bioclastos, oólitos (4), pelóides (5), etc.) alternantes com as referidas vasas ou lamas igualmente carbonatadas e, por vezes, com sedimentos terrígenos, no geral, pelíticos.

Ambiente lacustre

À semelhança dos mares, também os lagos têm condições para reter os catiões necessários à sedimentação carbonatada, originando normalmente calcários que apelidamos de lacustres ou límnicos (6). Para tal, é necessário que, nas áreas envolventes, existam rochas susceptíveis de fornecer o cálcio, no essencial, e algum magnésio. É ainda necessário que as condições climáticas e topográficas permitam a sua evacuação e encaminhamento para estas bacias no interior das terras emersas. São lacustres, entre outros, a maioria dos calcários do Miocénico superior da Bacia do Tejo-Sado.

Algas lacustres do grupo das carófitas, entre as quais as dos géneros Chara e Nitella, produziam oogónios calcíticos, estando na origem de calcários lacustres, muito comuns entre o Cretácico e o Oligocénico.

Ambiente evaporítico

Nas regiões áridas e subáridas quentes ou temperadas sujeitas a evaporação intensa, tanto as bacias interiores (ou lagos), em regime endorreico (7), como as litorais, do tipo lagunar, constituem ambientes evaporíticos (8) hipersalinos, que alguns autores referem como sebkhas,(9) propícios à sedimentação química carbonatada, geralmente dolomítica, a par de outros sedimentos salinos (anidrite, gesso, halite). É o caso do Grande Lago Salgado (Utah, EUA), entre muitas outras playas (10) do Oeste americano, na região conhecida por Basins and Ranges, ou das lagunas hipersalinas do Golfo Pérsico.

Ambiente espeleolítico

No interior dos maciços calcários, a circulação das águas pluviais provoca, numa dada época, dissolução, abrindo extensas redes de galerias, poços, grutas, etc., num processo erosivo particular, denominado cársico (11) (ou cárstico). Numa época posterior, estes mesmos espaços abertos podem ser sede de precipitação do carbonato de cálcio em excesso nas águas que, de novo, aí circulam, permitindo a formação de estalactites, estalagmites, e outros (12), até, por vezes, os colmatarem, a par de brechas de colapso, comuns neste tipo de ambiente. Estes sedimentos das cavernas são verdadeiros calcários de precipitação química, edificados no local onde se encontram. Nas fontes situadas na base destes maciços, quer exsurgências, quer ressurgências (13), tem lugar a formação deespeleotemas tufos e travertinos.

Tufos e travertinos são calcários essencialmente quimiogénicos, vacuolares (têm aspecto ruinoso devido à existência devazios designados por fenestras), resultantes da precipitação do carbonato de cálcio em fontes nos maciços calcários. A diferença entre elas reside sobretudo no grau de compactação e, portanto, de solidez. O travertino é mais fechado, mais compacto, permitindo o seu uso como lajes para pavimentos.

Ambiente pedogénico

Um outro ambiente continental propício à concentração de carbonatos está relacionado com a evolução do solo em áreas planas das regiões subáridas. Uma tal concentração dá origem a crostas carbonatadas, caliços ou calcretos, um tema a que se dará relevo mais adiante.

Ambiente eólico

Nas praias de areias carbonatadas (bioclásticas) há condições para movimentação dos detritos arenosos em regime dunar, à semelhança do que se passa com as areias siliciosas das latitudes temperadas.

Nestes litorais as areias são, em grande parte, bioclásticas carbonatadas e estão na base da formação de eolianitos calcários, assim designados porque resultam de uma acumulação de areia calcárias por efeito do vento.

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(1)- Abissal – Qualificativo referente às grandes profundidades oceânicas para lá do limite inferior da vertente continental, com batimétricas superiores aos três a quatro mil metros. Introduzido com base no étimo grego abyssós «sem fundo», o termo foi aplica-se às formas de vida aí instaladas, aos fenómenos aí ocorrentes, à morfologia e, ainda, aos sedimentos aí depositados, nomeadamente, vasas organogénicas.

(2)- Pelágico – qualificativo alusivo ao mar largo, independentemente da profundidade, mas no qual está implícito o mar profundo. Do grego pélagos, que traduz a ideia de mar largo.

(3)- Alodápico - Qualificativo dos calcários do domínio marinho profundo associados a calciturbiditos. Do grego allodapós, estrangeiro

(4)- Oólitos – Componentes não esqueléticos de natureza carbonatada, subsféricos, de dimensão milimétrica e de configuração comparável às das ovas de peixe e com estrutura bem determinada. O mesmo que oóides.

(5)- Pelóides – Componentes não esqueléticos de natureza carbonatado, com granulometria equivalente à das areis finas e do silte, de forma esferoidal, elipsoidal ou irregular, microcristalinoa, sem qualquer arranjo estrutural interno. O mesmo que pelota.

(6)- Límnico – Referente a lago. Do grego limné, que significa lago, pântano.

(7) - Endorreico – Diz-se de um regime hidrográfico não drenado para o mar, mas sim para uma zona interior

(8)- Evaporítico – Diz-se de um ambiente aquático de sedimentação, em zonas áridas e subáridas cujas águas, hipersalinas, na sequência de uma intensa evaporação, depositam os sais nelas dissolvidos

(9)- Sebkhas -Termo magrebino, por vezes, com as grafias sebkra, sabkha.

(10)- Playa – Termo espanhol referente às planuras centro de drenagem endorreica descritas no SW da América do Norte. Temporariamente ocupadas por lagos evaporíticos, são próprias das regiões subáridas.

(11)- Cársico – Diz-se de um processo erosivo ou de paisagem sobre terrenos constituídos por rochas carbonatadas (calcário, dolomitos ou mármores) modelada por processo. O nome provém de Karst, uma região da ex-Jugoslávia com este tipo de modelado. O carso divide-se em endocarso, no interior do maciço (grutas, galerias, etc.) e exocarso, no exterior (dolinas, lapiás, etc.)

(12)- Espeleotema – Nome genérico dado a todos os tipos de edificações, na grande maioria calcárias, nascidas no interior das grutas. Engloba entre outras, estalactites, estalagmites, mantos, flores, excêntricas, etc. A precipitação dos espeleotemas ocorre sempre que a água saturada em bicarbonato de cálcio infiltrada no calcário, atinge espaços vazios onde liberta o dióxido de carbono e ocorre a evaporação de água. O mesmo que espeleolito.

(13)- Exsurgências e ressurgências – Diz-se exsurgência quando a fonte debita a água da chuva que se infiltra directamente no interior do maciço calcário. Diz-se ressurgência quando a fonte é o reaparecimento, à superfície, de um curso de água que, a montante, foi engolido por uma abertura no terreno (sumidouro).

1 comentários:

José Batista disse...

Todo este texto é de imensa utilidade para professores e alunos da disciplina de biologia/geologia do ensino secundário (10º-11º ano, especialmente 11º ano).
Tem tudo, de modo muito mais que suficiente, como deve ser.
E devidamente explicado e ilustrado - sem paleio inútil, mal escrito e vazio e sem excessos esquemáticos e pintalguices berrantes.
Como convém.

É só aproveitar.

Em minha opinião, fazem mais pelo ensino da geologia no ensino secundário os materiais que o Professor Galopim tem disponibilizado neste blogue (se aproveitados) do que toda a ação do ministério da educação (programas, orientações, recomendações...) nos últimos trinta anos.

Pelo que nunca é demais agradecer.