A casa da avó já não existe. Como ela, não resistiu ao tempo e, em seu lugar, está lá outra, incaracterística. Passados mais de setenta anos, estou a vê-la, perfeitamente, nos mais ínfimos pormenores. A porta da rua era grossa com postigo. De cor azul forte, no que restava de uma velha pintura, tinha uma fechadura enorme e um pesado batente de ferro.
A casa tinha quatro divisões em dois pisos. Duas ficavam no rés-do-chão, sendo uma interior e a outra, a de entrada, como já se disse, servindo simultaneamente de cozinha e de sala de todas as serventias, onde nós inventávamos entreténs sempre que o tempo não nos permitia brincar na rua.
A porta da rua, sempre aberta, meio escancarada durante o dia, como única fonte de iluminação, dava-nos, a mim e ao meu irmão Mário, dois anos mais velho do que eu, a liberdade de entrar e sair vezes sem fim entre as correrias na rua, o pedir pão ou água. Era junto à porta, umas vezes do lado de dentro, outras do lado de fora, na rua, que a avó se sentava a cozer, num tempo em que quase toda a roupa de casa e de vestir era feita ou arranjada pelas mães e pelas avós.
Não tínhamos ali torneiras e a água que se bebia guardava-se em cântaros ou «quartas» de barro tapadas com textos também de barro. Tinham sempre água fresca com um sabor a terra muito especial e apreciado. Estavam dispostos no «pial» juntamente com o grande pote de água de serventia à cozinha, coberto com uma tampa de madeira e, sobre ela, o pucarinho com que se lhe tirava o precioso líquido. Revestido por ladrilhos, este poial era uma espécie de bancada construída junto à parede do fundo, com espaços abobadados por baixo, as «buracas», tapados por cortinas de chita, onde se guardavam utensílios de cozinha variados, louças de barro e outras. Sobre o mesmo poial, atrás dos cântaros, empinados à parede, arrumavam-se os alguidares de barro vidrado.
Ao centro da mesa e sobre um napperon orlado de renda, punha a avó, para nossa serventia, o copo da água. De vidro grosso com relevos, em forma de campânula e de pé alto, estava sempre tapado com outro napperon, mais pequeno e a condizer.
«Tapa o copo, por “mor” dessas malditas moscas!» recomendava a avó sempre que um dos netos entrava para beber, esbraseado pelo calor e pelas correrias.
As moscas entravam constantemente, vindas da rua, não obstante a cortina de segmentos de caninha fina enfiados em longos cadilhos, suspensos no vão da porta. Por entre eles furávamos constantemente, entrando e saindo, deixando atrás de nós um som algo musical, muito especial, nunca mais ouvido. De pouco serviam aquelas fitas douradas, besuntadas com melaço que, desenroladas e suspensas do tecto, atraíam o mosquedo. Quando cheias, pretas de tanta bicheza, eram substituídas, por outras, novas, que se compravam na drogaria.
Nessa altura, poucas famílias tinham água canalizada. Quem tinha poço em casa dava-se por feliz. Quem o não tinha, ia buscar água à fonte.
O poço da avó ficava na cozinha, no vão da escada que subia para os quartos. Coberto com uma grande tampa de madeira e sempre muito caiado, deixava ver as capas sucessivas de tanta caiança. No rebordo, estava o balde e a corda. Ao lado, num grande prego na parede, pendurava-se o cesto de arame que servia para nele se levar ao fundo, a refrescar, melões, melancias ou, eventualmente, uma garrafa de vinho. Num outro prego pendurava-se a fateixa, espécie de âncora ou gancho feito de arame, de muita utilidade para trazer de volta o balde ou o cesto que, muitas vezes, deixávamos cair ao fundo e que aí ficaria confirmando os princípios de Newton e de Arquimedes.
«Saiam «d’ó pé» do poço!» ordenava a avó sempre que, destapando-o, espreitávamos a rodela de espelho, lá no fundo, onde mal se desenhavam os contornos das nossas cabeças que fazíamos tremer, lançando-lhe pequenas pedrinhas. Tinha um gosto particular esta água do poço da avozinha. Era salobra e, como ela dizia, muito boa para ajudar a digestão, ou para «desmoer» o almoço ou o jantar.
A chaminé, grande e própria para lume de chão, tinha varas suspensas, onde em tempos, se enfiara «carne-cheia» para pendurar ao fumeiro. Nela cabia uma pequena mesa com uma gavetinha para os talheres, onde se podia comer confortavelmente sentado numa cadeirinha baixa, ao pé do borralho.
De Inverno era bom sentarmo-nos todos em roda do lume, uns em cadeirinhas outras em mochos, ouvindo histórias, embalados no crepitar da lenha, presos os olhos na luz azul-lilás saída de entre os paus de azinho, apoiados num grande lenho. Este madeiro, no geral também de azinho e às vezes de sobro, era encostado à «boneca», ao centro e ao fundo da chaminé, reminiscência do passado, constituída por uma figura antropomórfica, de pedra ou de tijoleira, um pouco saliente da parede caiada, protegendo-a do calor e do negro dos fumos.
Nesse tempo não havia televisão e a rádio estava ainda muito longe de entrar nas casas de família. Assim, os contos e as histórias que se ouviam e contavam, ou as conversas que se faziam, à lareira, nos longos serões de inverno, entre o fim do jantar, à luz do candeeiro de petróleo, e a hora de ir para a cama, de vela acesa na mão, eram os nossos folhetins radiofónicos e as nossas telenovelas.
Dos contos ouvidos nesses serões havia um que me fazia chorar todas as vezes que a avó o contava. Mesmo assim estava sempre pronto a ouvi-lo. Falava de um grande e belo cão que o dono deixara de guarda ao filho, ainda bebé de berço, durante uma ausência a que foram forçados ele e a mulher. Chegados a casa, já tarde, foram encontrar a criança com as roupitas ensanguentadas e, ensanguentado também, o focinho do cão, deitado aos pés do berço. Julgando que o animal atacara o filho, matou-o com um tiro de caçadeira. O pobre homem enganara-se. Perto dos dois jazia morto um enorme lobo que o Piloto matara numa luta feroz em defesa do seu pequenino dono.
Ai que tristeza tão grande que me invadia! Não seria possível mudar o fim àquela história? O que eu não daria para evitar um desfecho tão irremediavelmente trágico. E as lágrimas rolavam grossas e livres pela face e para dentro do nariz. Mas depois vinha a história da princesinha que «queria tanto ao pai como a comida quer o sal» que, ao fim de muitas peripécias, tinha um desfecho muito reconfortante: «...casaram, tiveram muitos filhos e foram muito felizes!».
Havia ainda o conto da «Maria Sabida, doce na morte e amargosa na vida» e muitos mais. Outras vezes eram histórias de meter medo, com bruxas, feiticeiras e salteadores. Que arrepios no alto da cabeça e pela espinha abaixo!
«Não mexas no lume!» ralhava a avó a todo aquele que, insistindo para além do necessário, mexericava nos tições do braseiro. «Quem mexe no lume faz xixi na cama!» advertia ela, tentando fazer-nos acreditar naquela relação causa-efeito.
Para funcionar ainda como sala de visitas esta mesma divisão dispunha de um elegante canapé com quatro almofadas de cetim. Nas paredes, bem ao alto, sobressaíam algumas oleogravuras emolduradas, de muita estimação. Uma era alusiva à implantação da República e outra, à travessia aérea do Atlântico Sul, com os retratos do Gago Coutinho e do Sacadura Cabral e um belo hidroavião, ao centro.
De vez em quando, a nosso pedido, a avó fazia papas. Este, para nós, um manjar, era feito ao lume com água, farinha de trigo, uma colherzinha de banha de porco, «para dar sustento», e uma casquinha de limão, mexendo sempre com a colher de pau até engrossar. Na fase final da fervura, a libertação do vapor, vencendo a viscosidade da mistura, começava a fazer bolhas espessas e sonoras.
Aí, a avó juntava-lhes umas colheres de açúcar e mexia-as bem durante um tempo sabiamente calculado. Feitas as papas, vazava-as em pires para arrefecerem mais depressa. Mais açúcar, agora só para as polvilhar por cima e, por fim, canela.
Já frias, mas não muito, porque a pressa de as provarmos as não deixava arrefecer, rijas e trémulas na colher que as trazia à boca, capinha estaladiça da última dose de açúcar e perfumadas pela canela, não havia nem há papas como aquelas!
5 comentários:
Uma delícia, não só o conteúdo mas também servido letra a letra :-)
Embora um pouco mais novo também me lembro das semelhanças com o local onde viviam os meus avós paternos, no Alto Alentejo. As nossas visitas eram passadas à lareira, que servia para tudo, sala, cozinha, fumeiro, e onde havia sempre potes ao pé do lume para tudo o que era preciso.
Um grande abraço
b
Um regresso à minha infância. Obrigado pelas recordações.
Habituada que estou, a ler os seus artigos sobre pedras e pedregulhos, fiquei trémula com esta história tão terna, tão saudosa, tão bem escrita e descrita. Tenho lembranças parecidas.
Também tive uma avozinha que contava histórias de encantar e estarrecer. Bebi água de poços e bilhas que, me sabiam bem e tiravam a sede. Também fiz as obrigações e brinquei, atirei pedras a poços, fiz-lhes caretas. A avó tinha brincos de princesa e sardinheiras, roseiras e craveiros, cortinas com pavões ou, flores. Aqueci-me em lareiras, um calor que nenhum aquecedor hoje, me dá.
Saudades desses tempos? muitas. Quanto mais velha fico, mais os meus olhos castanhos sentem a falta de ver e sentir, tudo isso.
O Professor, hoje ensinou uma grande lição: Todos temos saudades e lembranças. Alguns não gostam de o confessar.
Obrigada por ter mostrado a sua sensibilidade.
Continue a falar de pedras, eu gosto. Mas de vez em quando, lembre-se do menino que foi. Comoveu-me, fez-me lembrar.
Permita que lhe mande um beijinho, de uma velha que, vive no passado, porque tem medo do presente.
Maria
Incrivel!....como voltei ao tempo da minha infancia,esta passada na Rua dos Peneireiros(ali ao largo do Chão das Cova)as mesmas historias contadas pela minha avó,as papas de farinha para os lanches,os caldos de farinha torrada ao pequeno almoço....
Que bom é recordar esses tempos.
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