Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

MEMÓRIAS FARDADAS (10) - ENTRE DOIS COPOS DE BRANCO

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(Crónica ficcionada de uma vivência em Évora, em começo dos anos cinquenta do século passado)

DEMASIADO envelhecido para os seus sessenta e poucos anos, o nosso sargento Limpinho, viúvo, alcoolizado por um punhado de razões, entre as quais e sobretudo a solidão, não quisera passar à reserva pois, para ele, o quartel era a sua casa e os militares a sua única família. Mal amanhado numa farda sebenta, dois ou três números acima da sua magreza, nunca usava o bivaque – perdera-o, não se lembrava onde - e era assim, em cabelo, liso, ralo e grisalho, que fazia as continências, sempre frouxas, de ponta de cigarro, molhada e amarelecida, ao canto da boca, cumprimentando os superiores ou respondendo à soldadesca. Fazia com zelo o trabalho que lhe competia e, ainda bem não, saía do quartel em busca do aconchego que só o vinho lhe dava. Todos viam estas suas escapadinhas mas ninguém o incomodava ou maltratava.

Um dia, um capitão vindo de fora, desconhecendo o estatuto do Limpinho, participou dele superiormente e por escrito, acentuando o seu desalinho e falta de aprumo militar.

O comandante da unidade, um coronel e homem da terra à espera de passar à reserva, fizera ali toda a carreira e conhecia, de muito perto, a pessoa e a vida do sargento.

- Tenha calma, nosso capitão. - Começou o comandante por dizer quando o autor da participação se lhe apresentou a seu mando. - Esse homem é um velho militar que já deu muito à pátria. Esteve nas trincheiras, em França, durante a Grande Guerra e inalou os gases lançados pelos alemães e veio de lá todo estropiado. Passa a vida aqui na unidade de onde só sai par ir matar o vício na taberna a dois passos daqui. Não tem mulher nem filhos. Come e dorme cá dentro. É um infeliz que só faz mal a si próprio. Todos sabemos da sua dependência do álcool. Mas olhe que isso não o impede de cumprir as suas tarefas e, se virmos bem, não é o único cá dentro. Se o fôssemos castigar por isso, tínhamos de começar por três ou quatro graduados, que matam o mesmo vício no bar dos oficiais, não com copos de vinho, mas com brandies e whiskies. Deixe o homem em paz! Rasgue lá a merda do papel!
Frequentador assíduo da tasca do Zé Guilherme, o nosso sargento tinha, por vezes, como companheiro de mata-bicho, a meio da manhã, um queijeiro com tenda na praça do mercado, ali ao lado do quartel.

- Belo queijo, amigo Calado! Belo queijo! – Repetia o Limpinho, fazendo boca para o primeiro dos dois ou três copitos com que ia ganhar alento para o dia. – Ainda bem que o amigo está aqui. Não me dá jeito beber sozinho. De estar só tenho eu a barriga cheia. – Desabafou.

Já instalado, o queijeiro, de navalhinha na mão, levava à boca lasquinhas de um perfumado meia-cura e pedacinhos de pão, a aconchegar o branquinho que já tinha despachado.

- Já levo um de avanço, ó amigo Limpinho.

- Vossemecê nem sabe a sorte que tem. - Continuou o sargento. – Tem quem trate de si, tem companhia na cama e quem lhe tome conta do negócio enquanto o amigo está aqui regalado e satisfeito da vida.

- E o amigo só não tem porque não quer. – Respondeu o Calado, metendo à boca mais uma lasquinha de queijo. – O que não falta aí são mulheres à procura de companhia.

- Mas quem é que quer este “relógio sem corda” que “não passa das seis e meia”? – Respondeu o Limpinho, numa alusão brejeira à sua decrepitude sexual. Em menos de um foguete, cresciam-me aqui uns cornos que não cabiam na porta d’armas. Livra!

- Isso não é bem assim. A minha Alzira, podemos dizer que é uma mulher nova, e o amigo não vê aqui ponta de chavelho. – Atalhou o queijeiro, seguro da fidelidade da sua jovem e segunda esposa, passando os dedos pela testa branquinha e lisa acima das rugas engelhadas pela idade e crestadas pelo sol e continuou: - Agora tenho mulher nova, mas já tive mulher velha. Nesse tempo era o contrário. O novo era eu. Eu cá para mim, amigo Limpinho, - dissertava o Calado, virando o segundo copo e limpando a boca às costas da mão – ninguém me tira da ideia que isto de casamento de homem e mulher da mesma idade tem um final muito triste se os dois chegarem a velhos. Sem tramenhos para se ajudarem um ao outro, ficam às atenças dos filhos, se os tiverem, ou lá de quem Deus queira. Olhe o seu caso, viúvo e sozinho. Morre-lhe a velhota e agora quem é que cuida de si?

- É o que tem de ser. Cada um com o destino que Deus lhe deu. Bom ou mau, vá-se lá saber. – Comentou, resignado, o nosso sargento, depois de emborcar mais um branquinho.

- Olhe que não é tanto assim! A gente, se quiser, pode dar-lhe a volta, - contrariou o queijeiro. - Eu cá segui a regra do meu avô. Casei novo com mulher madura. Eu tinha aí uns vinte e cinco anos e ela estava chegar aos cinquenta. Chamava-se Rosa e era minha vizinha, aqui perto, nos Canaviais. Vossemecê não a conheceu. Era viúva, mas ficara com governo de vida, um alavão bem afreguesado e para durar. O marido, muito mais velho do que ela, não lhe deixou filhos, mas deixou-lhe casa e negócio. Houve quem me acusasse de ter casado com o dinheiro da mulher.

- Era a inveja a falar. – Comentou o Limpinho, enchendo o seu copo e o do companheiro.

- É verdade que me apetecia viver melhor. De pobreza andava eu farto. Nasci pobre, filho de pobres. E o trabalho do campo, quando havia, mal dava para comer. Ela tinha o que tinha e eu estava cheio de força e com vontade de trabalhar. A puta da sorte é que não havia meio de me abrir as portas. Abri-as eu, amigo Limpinho. Fiz o mesmo que a Rosa, que era nova e pobre quando casou com o tio Alfredo que Deus tenha, viúvo com casa posta e qualquer coisita de seu.

- Foi a melhor coisa que ela fez. - Acrescentou o sargento, num tom de quem está interessado em conhecer o resto da história.

- Ela ajudou-o a aumentar a casa e foi o amparo dele até ao dia em que o pobre se finou depois de uns anos de entrevado. Não lhe faltou nada. Por fim era como se fosse um filho. – E pondo um sorriso nos olhos, acrescentou: - Eu, ainda rapaz, já olhava para a mulher. Mas olhe, amigo, que ela nunca me deu atenção em vida do tio Alfredo e ela bem sabia que eu lhe rondava porta. Depois tudo se precipitou. Eu queria mudar de vida e ela precisava de um homem que a amparasse e respeitasse.

O Calado acendeu um cigarro e aspirou uma fumaça lenta e profunda. O sargento bebia-lhe as palavras e isso encorajava-o a continuar.

- Trabalhámos lado a lado, no duro. Eu estava na força da vida e dei-lhe aquilo que lhe faltava havia muito. Tivemos uma boa vida. Só não me deu filhos. Eu bem queria mas a idade dela já não deu para isso. Paciência. Depois foi a minha vez de tomar conta da casa e dela, à medida que foi perdendo as forças. Faleceu no dia em que fiz cinquenta e dois anos. Que Deus tenha a sua alma em descanso. – Suspirou.

- E o amigo Calado não perdeu tempo, - interrompeu o Limpinho com um sorriso aberto de malícia.

- Essas histórias de viuvez para o resto da vida, em respeito pela memória do falecido ou da falecida, é coisa que não me entra pela cabeça. Anda aí muito disfarce nessa gente vestida de preto.

- Muita hipocrisia. Sabe Deus o que eles e elas fazem às escondidas. - Aquiesceu o Limpinho. - Está-se mesmo a ver que vossemecê voltou a casar.

- Não cheguei a guardar dois anos. A hoje minha Alzira tinha uma venda lá no bairro e vendia muitos dos nossos queijos. Era uma rapariga sozinha, muito despachada, que herdara o negócio começado pelos pais. Era ela que vinha lá a casa, dia sim, dia não, abastecer-se e, muitas vezes, já depois da minha Rosa falecer, ficávamos à conversa e o amigo sabe como é?! Conversa puxa conversa, Alzirinha p’rá aqui, senhor Calado p’rá ali, e pronto, foi assim. Passado o tempo que me pareceu calar a boca à vizinhança, juntámos os trapinhos, primeiro, e casámos pelo registo pouco tempo depois. A minha Alzira está ali para durar. Tem quase menos trinta anos do que este seu amigo, que, não tarda, se fará velho.

- Isso ainda vai demorar muito. Vossemecê está aí ainda para as curvas, rijo que nem um pêro. Eu é que estou desejoso de arrumar as botas e que até lá não me falte este xarope. – Rematou o sargento, enchendo mais um copinho.

- Pela ordem natural da vida, – recomeçou o queijeiro, – hei-de ir à frente dela. Até lá não me vai faltar nada e já me deu duas raparigas que são a luz dos meus olhos. Depois de eu ir, como se diz, «com os pés para a frente» e se ainda se aguentar nas canetas, arranja homem mais novo que a ampare, a respeite e lhe dê aquilo que já me vai faltando.

- Já estão lá a precisar de mim – interrompeu o Limpinho à chegada de um ordenança que sempre o ia chamar. – Até amanhã, amigo Caldo, despediu-se o sargento depois de, no balcão, ter pago a despesa de ambos.

- Amanhã pago eu. – Respondeu o queijeiro, já a arrumar o talego onde trouxera o farnel.

1 comentários:

Maria disse...

Professor
Inventada ou não, mais uma deliciosa história sua.
A sua sensibilidade impressiona-me.
Ora fala de Pedras, ora fala de gente, sempre de maneira a que todos o entendam.
Para mim, as pedras eram só pedras, até que comecei a lê-lo. Agora, têm nome, vejo-lhes a beleza, como se olhasse para uma flor ou, um belo edifício. Com as histórias de gente, vou-me sempre lembrar de alguém que conheci um dia.
Agradeço-lhe o que me tem ensinado. Mesmo com 67 anos, gosto de aprender.
Maria