Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

OS RALHOS DO PAI DO CÉU

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A AVÓ ISABEL foi o meu primeiro contacto com uma pessoa idosa. A sua imagem está entre as minhas primeiras tomadas de consciência do mundo que me rodeava, tinha eu três anos. Sempre de preto, dos sapatos e meias, às saias e blusas, ao xaile e ao lenço, como mandavam os usos que se vestissem as viúvas, a mãe da minha mãe foi a única, de entre os meus avós, com quem me foi dado conviver.

A avó vivia só, numa velha casa da rua de Frei Brás (de que já falei em crónica anterior), uma rua já empedrada nessa altura, representando um avanço considerável em relação a muitas outras da cidade, ainda de terra batida, com calcetamento apenas nas regueiras, duas de cada lado, sob os beirais dos telhados.

Quando o tempo escurecia e ficava com ares de trovoada e quando, distantes ainda, se abriam os clarões dos relâmpagos ou se ouvia o ribombar longínquo e arrastado dos trovões, a avó entrava em grande e angustiada agitação. Já não parava quieta, fechando portas e janelas, correndo cortinados, dizendo baixinho:

– Está a ralhar o Pai do Céu! Valha-nos Santa Bárbara! Valha-nos São Jerónimo!

E rezava, nervosa, bichanando em surdina, percorrendo a casa, de mãos junto à boca, com os dedos entrelaçados e crispados, persignando-se apressadamente a cada relâmpago e a cada estrondo.

- «São Jerónimo se levantou e seu sapatinho calçou»…

A novo clarão, agora mais intenso e prolongado, secundado de mais perto pelo ribombar já próximo, a pobre paralisava-se aterrada. Envolvia-se no xaile, cobrindo cabeça e olhos.
- Valha-me o Santíssimo Sacramento do Altar! – e prosseguia.

… «Encontrou Santa Bárbara e esta lhe perguntou: onde vais São Jerónimo?»...

– Reza filho! – implorava, tomada de medo. – Reza, que está a ralhar o Pai do Céu!

E a outro clarão, agora enorme, logo seguido de estampido violento e seco, mesmo sobre as nossas cabeças, siderada de pânico, deixava sair, em palavras de aflição:

- Ai queridos filhos da minh’alma! Ai Mãe do Céu!

- ... «Vou espalhar esta trovoada»...

– Valha-nos a Santíssima Trindade e a Imaculada Mãe de Jesus!

...«Espalha-a lá para bem longe, onde não haja eira nem beira, nem raminho de oliveira»...

- Ai, Virgem Maria nos acuda!

...«nem guedelhinha de lã, nem alminha cristã».

Abrandada a tormenta, pela intervenção das santas entidades invocadas nas suas preces, como era sua convicção, e sentindo-a menos perturbada e já capaz de falar, eu, que nunca me tomou o medo que a dominava, perguntava porque é que o Pai do Céu ralhava.

– O Pai do Céu – explicava, ainda trémula – ralha porque se zanga com as coisas más que os homens e as mulheres fazem cá na Terra. Ele não quer que as pessoas façam maldades – continuava, cheia de convicção, agora mais refeita do susto. – Se não houvesse tantas maldades, não havia trovoadas. – acrescentava, já mais segura de si.

Como era grande a ilusão da minha avozinha! Se assim fosse, com um tal Pai do Céu, todo-poderoso, infinitamente bom e infinitamente justo, quantas e que violentas trovoadas não estariam desde sempre e constantemente a ribombar e a escurecer de breu os céus deste o nosso desgraçado mundo?

Quando a avó morreu, velhinha, e com ela perdi também aquela casa tão querida da minha tenra e feliz infância, perguntei à minha mãe:

- Porque morreu a avó?
- Porque a levou o Pai do Céu!
– E porquê? – insisti.
- Só Ele sabe.
- E nunca mais volta?
- Não!
- Mas porquê?
- Ele assim o quis. Foi essa a Sua Divina vontade.

Às minhas insistentes perguntas dava-me a mãe, maquinalmente, respostas breves, certamente desejosa que eu a deixasse em paz, entregue à sua dor. Distante que estava de tudo e de todos, a minha mãe não se deu conta de que, nesse mesmo dia, ajudava a instalar em mim, e para sempre, o descrédito, nessa altura angustiante, sobre o poder, a justiça e a divina bondade do Pai do Céu da minha avó.

E, de vez em quando, em dias de trovoada, a minha mãe, que não lhe tinha medo delas mas sim, como ela dizia, “muito respeito”, levantando os olhos da costura, exclamava, talvez evocando a avó:

- Está a ralhar o Pai do Céu!

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