A avó vivia só, numa velha casa da rua de Frei Brás (de que já falei em crónica anterior), uma rua já empedrada nessa altura, representando um avanço considerável em relação a muitas outras da cidade, ainda de terra batida, com calcetamento apenas nas regueiras, duas de cada lado, sob os beirais dos telhados.
Quando o tempo escurecia e ficava com ares de trovoada e quando, distantes ainda, se abriam os clarões dos relâmpagos ou se ouvia o ribombar longínquo e arrastado dos trovões, a avó entrava em grande e angustiada agitação. Já não parava quieta, fechando portas e janelas, correndo cortinados, dizendo baixinho:
– Está a ralhar o Pai do Céu! Valha-nos Santa Bárbara! Valha-nos São Jerónimo!
E rezava, nervosa, bichanando em surdina, percorrendo a casa, de mãos junto à boca, com os dedos entrelaçados e crispados, persignando-se apressadamente a cada relâmpago e a cada estrondo.
- «São Jerónimo se levantou e seu sapatinho calçou»…
A novo clarão, agora mais intenso e prolongado, secundado de mais perto pelo ribombar já próximo, a pobre paralisava-se aterrada. Envolvia-se no xaile, cobrindo cabeça e olhos.
- Valha-me o Santíssimo Sacramento do Altar! – e prosseguia.
… «Encontrou Santa Bárbara e esta lhe perguntou: onde vais São Jerónimo?»...
– Reza filho! – implorava, tomada de medo. – Reza, que está a ralhar o Pai do Céu!
E a outro clarão, agora enorme, logo seguido de estampido violento e seco, mesmo sobre as nossas cabeças, siderada de pânico, deixava sair, em palavras de aflição:
- Ai queridos filhos da minh’alma! Ai Mãe do Céu!
- ... «Vou espalhar esta trovoada»...
– Valha-nos a Santíssima Trindade e a Imaculada Mãe de Jesus!
...«Espalha-a lá para bem longe, onde não haja eira nem beira, nem raminho de oliveira»...
- Ai, Virgem Maria nos acuda!
...«nem guedelhinha de lã, nem alminha cristã».
Abrandada a tormenta, pela intervenção das santas entidades invocadas nas suas preces, como era sua convicção, e sentindo-a menos perturbada e já capaz de falar, eu, que nunca me tomou o medo que a dominava, perguntava porque é que o Pai do Céu ralhava.
– O Pai do Céu – explicava, ainda trémula – ralha porque se zanga com as coisas más que os homens e as mulheres fazem cá na Terra. Ele não quer que as pessoas façam maldades – continuava, cheia de convicção, agora mais refeita do susto. – Se não houvesse tantas maldades, não havia trovoadas. – acrescentava, já mais segura de si.
Como era grande a ilusão da minha avozinha! Se assim fosse, com um tal Pai do Céu, todo-poderoso, infinitamente bom e infinitamente justo, quantas e que violentas trovoadas não estariam desde sempre e constantemente a ribombar e a escurecer de breu os céus deste o nosso desgraçado mundo?
Quando a avó morreu, velhinha, e com ela perdi também aquela casa tão querida da minha tenra e feliz infância, perguntei à minha mãe:
- Porque morreu a avó?
- Porque a levou o Pai do Céu!
– E porquê? – insisti.
- Só Ele sabe.
- E nunca mais volta?
- Não!
- Mas porquê?
- Ele assim o quis. Foi essa a Sua Divina vontade.
Às minhas insistentes perguntas dava-me a mãe, maquinalmente, respostas breves, certamente desejosa que eu a deixasse em paz, entregue à sua dor. Distante que estava de tudo e de todos, a minha mãe não se deu conta de que, nesse mesmo dia, ajudava a instalar em mim, e para sempre, o descrédito, nessa altura angustiante, sobre o poder, a justiça e a divina bondade do Pai do Céu da minha avó.
E, de vez em quando, em dias de trovoada, a minha mãe, que não lhe tinha medo delas mas sim, como ela dizia, “muito respeito”, levantando os olhos da costura, exclamava, talvez evocando a avó:
- Está a ralhar o Pai do Céu!
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