quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (32)

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AS PRIMEIRAS CLASSSIFICAÇÕES


AO CONTRÁRIO da concepção de finais do séc. XVIII e começos do XIX, que interpretava os calcários, em geral, como sendo “rochas químicas”, na linha das ideias neptunistas do alemão Abraham Gottlob Werner (1749-1817), alguns autores, como o inglês Henry Clifton Sorby (1820-1908) e o americano de origem alemã Amadeus William Grabau (i870-1946), consideravam-nos como sendo o resultado da acumulação detrítica de sedimentos carbonatados, à semelhança dos materiais terrígenos. Embora a maioria destes componentes detríticos seja de origem biológica (bioclastos, ou seja, restos de esqueletos como conchas, carapaças, etc.), o carácter mecânico, implícito na sua fragmentação, transporte e deposição, tinha primazia como fundamento de uma classificação genética. Com raiz nos mesmos termos que utilizou na classificação das rochas terrígenas – rudito, arenito e lutito – Grabau introduziu, como já foi dito atrás, os nomes ainda hoje em uso na nomenclatura dos calcários:

1 - calcirrudito para os conglomerados e brechas,
2 - calcarenito para os calcários detríticos com clastos da granularidade das areias, compreendidos entre 2 e 0,063 mm,
3 - calcilutito para os calcários detríticos com clastos de granularidade mais fina.

Nesta óptica, Grabau, reconhecido pioneiro da petrografia sedimentar, distinguia:

1 - calcários hidroclásticos, cujos elementos resultam de fragmentação por transporte no seio da água,
2 - calcários bioclásticos, nos quais a fragmentação é atribuída à actividade de seres vivos,
3 - calcários biogénicos, como são os de origem recifal.

Em 1926, propôs uma classificação essencialmente genética, reunindo os calcários em três grandes grupos, com as subdivisões que se indicam:

1 - calcários de origem orgânica, resultantes directa ou indirectamente de processos vitais. Correspondem aos que hoje designamos por organogénicos ou Correspondem aos biogénicos.biólitos de Grabau (1904) e, dentro destes, aos calcilitos. Destes, uns são

1.1 - bioacumulados, em resultado da cimentação de restos esqueléticos acumulados; outros são
1.2 - bioconstruídos ou bioedificados, alguns deles referidos por recifais, construídos ou edificados na sequência da actividade biológica de certos organismos, como, por exemplo, certos coraliários, algumas algas, briozoários (1) e espongiários. Os calcários correspondentes a bancos de ostras e de rudistas (bivalves do Cretácico) são incluídos nesta categoria,

2 - calcários de origem química inorgânica, também conhecidos por quimiogénicos ou quimioedificados, nos quais se distinguem:

2.1 - calcários resultantes de variações de condições dinâmicas e químicas do meio (a água), e
2.2 - calcários resultantes de evaporação, considerados, portanto, entre os evaporitos (2);

3 - calcários de origem mecânica, também adjectivados de detríticos, reunindo todos os constituídos pela acumulação de detritos de outras rochas calcárias preexistentes.

Foi este o esquema de classificação genética veiculado na obra clássica, pioneira no ensino da petrografia sedimentar, The Petrology of the Sedimentary Rocks, de Hatch, Rastall & Black (1938), que marcou as primeiras gerações de sedimentólogos e que persiste no ensino nos dias de hoje, embora com ligeiras adaptações.

Entre os calcários bioacumulados distinguem-se:

1 - calcários de foraminíferos e, dentro destes, sempre que se lhes conheça o tipo de fóssil dominante, separam-se calcários de orbitolinídeos, de fusulinídeos, de alveolinídeos, de numulitídeos, de globotruncanídeos, de globigerinídeos, etc., etc.
2 - calcários de crinóides ou de entroques (3), exemplificados pelo calcário de Pentacrinus do Liásico superior de Peniche,
3 - calcário de bivalves (lumachelas (4) ou coquinas);
4 - calcários de ostracodos,
5 - calcários de algas, entre os quais os de cocólitos (5) de que é exemplo, o cré (6).

Como calcários bioedificados ou recifais, separam-se:

1 - calcários de arqueociatídeos,
2 - calcários de estromatoporídeos,
3 - calcários de coraliários ou coralígenos,
4 - calcários de rudistas (exemplificado pelo lioz de Pêro Pinheiro - Lisboa),
5 - calcário de briozoários,
6 - calcário de algas coralináceas (Lithothamnium e outras), etc

Entre os calcários quimiogénicos cabem nesta classificação:

1 - calcários afaníticos (criptocristalinos), entre os quais os litográficos;
2 - tufoscalcários e travertinos;
3 - espeleolitos (estalagmites, estalactites e outros);
4 - alabastros calcários.

A microscopia electrónica, como já foi referido, acabou por mostrar que muitos dos calcários adjectivados de afaníticos são, pelo menos em parte, biogénicos, pois contêm restos esqueléticos de muito reduzidas dimensões, como são, por exemplo, os cocólitos, que escapavam ao poder de resolução dos microscópios ópticos de então.

Como calcários de origem mecânica (detríticos) consideram-se:

1 - calcarenitos litoclásticos (calciclásticos),
2 - calcarenitos oolíticos,
3 - calcarenitos pisolíticos,
4 - conglomerados calcários (calcirruditos) intraformacionais e
5 - brechas de colapso em grutas de maciços calcários.

Por esta altura, em França, pautavam as classificações descritivas das características texturais e/ou composicionais dos calcários, com destaque para a de Lucien Cayeux (1935), com adjectivações como magnesiano, betuminoso, margoso, lumachélico, brechóide, cristalino, compacto, litográfico, oolítico, etc.

Destaque ainda para a terminologia usada mais tarde por J. J. Jung (1969), repetindo alguns destes qualificativos e acrescentando outros como microcristalino, macrocristalino, noduloso, impuro, este último reunindo calcários arenosos, argilosos, ferruginosos, siliciosos, etc.

O sedimentólogo americano, Francis John Pettijohn (1904 - 1999), na 2ª edição (1957) da sua obra igualmente pioneira, Sedimentary Rocks, considerava as rochas carbonatadas arrumadas em três grandes conjuntos:

1 - calcários alóctones ou exógenos, mecanicamente depositados, independentemente da natureza dos elementos constituintes (litoclastos, bioclastos e outros), e onde incluía calcirruditos, calcarenitos e calcilutitos;

2 - calcários autóctones ou endógenos, quer de origem recifal, quer de origem pelágica, quer, ainda, de precipitação química abiótica, entre os quais espeleolitos, tufos, travertinos;

3 - calcários epigénicos ou metassomáticos, representados por dolomitos e calcários dolomíticos.

Na linha de Pettijohn, o suíço Albert Victor Carozzi (1953), com grande divulgação entre os autores europeus, separou calcários autóctones e calcários alóctones.

Entre os autóctones e à semelhança do esquema de Twenhofel, separou:

1 - calcários bioacumulados,
2 - calcários bioconstruídos ou bioedificados,
3 - calcários de grão fino e
4 - cré.


Entre os alóctones distinguiu:

1 - calcirruditos,
2 - calcarenitos e
3 - calcilutitos.

Igualmente genética, a classificação dos calcários divulgada por K. Sugio (1937, reimpressão de 1982) tem por base os sedimentos carbonatados recentes e considera:

1 - calcários marinhos de águas pouco profundas ou neríticos, exemplificados pelos sedimentos em formação nas plataformas das Bahamas, das Caraíbas, do Golfo Pérsico, etc.;

2 - calcários marinhos de águas profundas ou pelágicos, representados quer por turbiditos alodápicos (7) ou calciturbiditos, quer por depósitos abissais, como são as actuais vasas (oozes) de pterópodes e de globigerinas dispersas por cerca de 1/3 dos fundos oceânicos;

3 - calcários lacustres ou límnicos, de águas doces no interior das terras emersas,

4 - caliços ou calcretos, de fácies continental, comuns em regiões subáridas planas;

5 - calcários de águas doces na dependência de maciços da mesma natureza, como tufos e travertinos;

6 - calcários eólicos ou eolianitos, em dunas associadas às praias das plataformas carbonatadas.

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(1)- Calcário de briozoários - Na Rua Sampaio Bruno, em Lisboa, o Museu Nacional de História Natural e a Câmara Municipal de Lisboa musealizaram, em 2000, um fundo marinho recifal de briozoários do Miocénico inferior, com cerca de 20 milhões de anos, constituindo um dos primeiros geomonumentos recuperados da cidade.

(2) - Evaporitos – Diz-se dos minerais ou das rochas sedimentares resultantes da evaporação de sais (em especial cloretos, carbonatos e sulfatos) dissolvidos nas águas do mar (em lagunas) ou de lagos em regiões marcadas pela aridez ou subaridez. São, evaporitos, entre outros, gesso, anidrite, sal-gema, silvite e carnalite.

(3)- Entroque – Bioclasto gerado pela fragmentação das partes esqueléticas de crinóides.

(4)- Lumachela – Calcário bio acumulado essencialmente formado por conchas de moluscos. O mesmo que coquina

(5)- Cocólitos – Estruturas calcárias nenométricas de alagas unicelulares (cocolitoforídeos).

(6)– Cré - Calcário marinho (90% ou mais de carbonato de cálcio) de grão muito fino, poroso e algo friável, essencialmente formado por cocólitos e, por vezes, foraminíferos planctónicos.

(7)- Turbidito alodápico – Formação carbonatada, do domínio oceânico profundo, depositada por correntes de turbidez. O mesmo que calciturbidito. Com origem nos materiais exclusiva ou dominantemente calcários das plataformas carbonatadas, distribuem-se à periferia destas, nas latitudes intertropicais. Os calciturbiditos do passado deram origem a calcários afaníticos (de tipo micrito e biomicrito) com restos fósseis próprios destes fundos (foraminíferos planctónicos, cocolitoforídeos, amonites, graptolitos, belemnites, radiolários, etc.). O termo radica no grego allodapós, estrangeiro).

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