domingo, 27 de Janeiro de 2013

GEOLOGIA SEDIMENTAR (2)


Turbidito (Foto de Brian Romans)
O ESTUDO comparativo dos sedimentos actuais com as rochas sedimentares (entendidas como depósitos sedimentares antigos) constitui o pilar da interpretação destas rochas sob os mais variados aspectos. Com efeito, partindo do princípio que, tanto hoje como no passado, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos[1], é viável reconhecer tipos de ambientes geológicos, mais ou menos remotos, comparando as características das respectivas rochas com as dos materiais actualmente em formação nos diversos ambientes que conhecemos à superfície da Terra, e que temos a possibilidade de ver “funcionar”. Os sedimentos detríticos revelam quase sempre, de maneira mais ou menos evidente, a natureza das rochas de onde provêm, isto é, a respectiva filiação. Podem ainda, para uma dada região, reflectir as características do relevo e do clima existentes à altura da sua formação, os agentes de erosão e transporte que os actuaram, bem como o ambiente onde, finalmente, se depositaram. Nestes termos, é muitas vezes possível correlacionar as rochas sedimentares com a geologia, a morfologia e o clima seus contemporâneos e procurar decifrar, na sucessão dos estratos ou camadas, a correspondente sequência dos acontecimentos geológicos e, portanto, a evolução geológica correlativa. É, pois, com base neste pressuposto que pudemos tomar conhecimento da existência de glaciações no Pré-câmbrico e no Carbónico, de desertos no Devónico da Grã Bretanha e da América do Norte, de florestas húmidas e quentes no Carbónico da Europa (incluindo Portugal) e da América do Norte, de lagunas evaporíticas no Triásico europeu, etc.
Em termos de sistemática petrográfica, as rochas sedimentares abarcam não só os materiais coesos, como arenitos, calcários, silicitos, entre muitos outros, como também os sedimentos recentes, móveis, nos termos em que assim os designamos. Não sendo, propriamente rochas, no sentido vulgar do termo, os combustíveis fósseis são produtos naturais que, por definição, se podem incluir entre as rochas sedimentares. Se não nos choca aceitar, neste domínio, a hulha ou a antracite (a expressão carvão de pedra, de uso popular, assim o comprova), o mesmo não sucede com o petróleo bruto (crude oil) ou com o gás natural. Embora estes materiais não se transformem em “pedra”, sabemos, todavia, que satisfazem as condições definidas na petrogénese sedimentar, inclusivamente as que cabem no âmbito da diagénese.
Para além dos aspectos científicos fundamentais, do saber pelo saber, como os atrás mencionados, existem os aspectos práticos, visando a utilização das rochas sedimentares. Surgiu, assim, a sedimentologia aplicada, uma disciplina científico-tecnológica que, pelas suas ligações directas ou indirectas às actividades económicas, dispõe, normalmente, de melhores e mais desafogados meios de investigação. Destas melhores condições materiais de trabalho, muito tem beneficiado a sedimentologia pura. A investigação na área da sedimentologia aplicada à prospecção do petróleo, por exemplo, contribuiu decisivamente para o progresso do conhecimento científico na área da geologia sedimentar no seu todo.

Em Portugal, à semelhança do que aconteceu nos países pioneiros (Alemanha, França, Inglaterra, EUA), a petrografia microscópica iniciou-se, na segunda metade do século XIX, pelo estudo das rochas ígneas (eruptivas, como então se dizia). Só mais tarde esse tipo de estudo foi usado relativamente às rochas metamórficas, primeiro, e, só depois às rochas sedimentares. A bibliografia geológica portuguesa mostra que assim foi, de facto. Só a partir de meados do século XX começaram a aparecer os primeiros trabalhos relativos ao estudo das rochas sedimentares com recurso a técnicas laboratoriais então criadas. Estiveram na vanguarda destes estudos: Soares de Carvalho, Fausto Pureza e Ferreira Soares, em Coimbra, e Carlos Romariz e Galopim de Carvalho, em Lisboa.
Anteriormente a esta fase, por exemplo, as Notícias Explicativas das Cartas Geológicas de Portugal, na escala de 1/50 000, dos então Serviços Geológicos de Portugal[2], dedicavam, quase sempre, um capítulo final às rochas ígneas, da autoria de especialistas nesse domínio da petrografia, atenção que nunca foi dada às rochas sedimentares, não obstante a sua significativa e, muitas vezes, maioritária presença e importância nas áreas cartografadas. Nestes textos, de construção muito própria, num discurso de índole estratigráfica, falava-se dos materiais constituintes destas rochas, usando termos petrográficos muito gerais, baseados em observação expedita, em amostra de mão, isto é, macroscopicamente, e sem recurso a quaisquer técnicas laboratoriais de análise. Falava-se, assim, por exemplo, de argilas brancas ou vermelhas, de calcários compactos, pulverulentos ou fossilíferos, de margas, de grés ou arenitos, de conglomerados, etc.
No que se refere o ensino, a disciplina de Sedimentologia surge em 1964 com a reforma que cria a licenciatura em Geologia (em substituição da antiga licenciatura em Ciências Geológicas). Sob as mais diversas designações, o estudo petrográfico e petrológico das rochas sedimentares é hoje uma constante ao nível do ensino superior, sendo já significativo o número de docentes e investigadores com obra realizada neste domínio da investigação científica. Foram vários os colegas estrangeiros que ombrearam connosco nestes primeiros passos. Entre eles é justo recordar os franceses P. Yves Berthou, Jacques Rey e Christian Palain, cujas publicações (nas Memórias dos então Serviços Geológicos de Portugal, nova série) são outros tantos marcos na caminhada percorrida.


[1] - “Princípio das Causas Actuais”, de James Hutton.
[2] - Hoje Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG).

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